terça-feira, 3 de maio de 2011

JOANA DE CUZA

JOANA DE CUZA

“E aconteceu que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o Evangelho do Reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena e Joana, mulher de Cuza e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens.”
( Lucas, 8- 1 a 3)

= x =

Entre a multidão que invariavelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cuza, intendente de Antipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e pescadores.

Joana possuía verdadeira fé; contudo não conseguia se livrar das amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre senhora procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão Pedro, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O seu esposo não tolerava a doutrina do Mestre, porque, sendo alto funcionário de Herodes, em constantes contatos com os representantes do império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.

Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe respondeu: “Joana, só há um Deus, que é Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos seres humanos. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenares do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue, da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgada digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o assim mesmo. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas; deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. Os são não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos modificar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida”.
Joana deixava entrever no brilho dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, mostrando todo seu estado d’alma, interrogou: “Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do lar,. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?”

Jesus sorriu serenamente e retrucou: “Quem sentirá mais dificuldades em estender as mãos fraternas; será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito?” Continuou Jesus, acentuando a importância das suas palavras: “Quanto à imposição das idéias, por que motivo Deus não impõe a Sua Vontade e o Seu Amor aos tiramos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra?... A sabedoria celeste não extermina as paixões: Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima e transforma-se. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apóstolo do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...”

Joana de Cuza experimentava agora um brando alívio no coração. Enviando á Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda ouviu-lhe as últimas palavras: “Vai filha!... Sê fiel a Deus!”

= * =

Desde esse memorável dia, para a sua existência, a mulher de Cuza experimentou na alma a claridade constante de uma resignação, sempre pronta ao trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus. Era como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, e considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os seus sacrifícios. Procurou esquecer todas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que ele possuía de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores nem hino de triunfo silencioso em cada dia. Seu espírito divisava em todos os lugares uma luz sagrada e oculta a lhe amparar.

Os anos passaram o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé. Um dia,
ás perseguições políticas desabaram sobre a cabeça do seu companheiro. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas, pela vaidade ferida, pelas moléstias que lhe atingiram o corpo, o ex-integrante de Antipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Joana, contudo, se mantinha firme; suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a atenção, mas Joana buscou esclarecê-las, dizendo que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as mãos e que, ela se mantendo numa situação de subalternidade no mundo, de dedicara primeiro ao Mestre de quem já se havia feito escrava devotada.

Cheia de alegria sincera, a viúva de Cuza esqueceu o conforto da nobreza material, dedicando-se aos filhos de outras mães, ocupando-se com os mais subalternos afazes domésticos, para que seu filhinho tivesse o alimento. Mais tarde, quando a neve dos anos lhe alvejou os cabelos, ela foi presa como cristã, e conduzida a Roma, numa galera romana, juntamente com seu filho, na qualidade de serva. No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo romano, uma velha discípula do Senhor, amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.

Ante os apupos do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.–“Abjura!” – exclamava o executor das ordens imperiais, de olhar frio e cruel – A antiga discípula do Mestre contemplava o céu, sem uma palavra de negação ou queixa. Então o açoite foi aplicado sobre o rapaz seminu, que exclamou , entre lágrimas: “Repudia a Jesus, minha mãe!... Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim que sou teu filho!...” – Pela primeira vez, dos olhos da mártir correm lágrimas abundantes. As rogativas do filho são espadas de sofrimento que lhe retalham o coração. – “Abjura! Abjura!...”

Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e feliz, as horas de ventura, os desgostos domésticos, seu filhinho querido, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais prementes... Em seguida, ante os apelos desesperados do seu filho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo seu filho Jesus, crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua existência, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: “Vai filha! Sê fiel a Deus!” – Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cuza contemplou seu filho ensangüentado e, fixando no jovem um olhar profundo, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente: “Cala-te meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitórias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!”

A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos incendiaram as achas de lenha embebidas em resinas inflamáveis, em derredor dos postes onde eles estavam amarrados. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhes os corpos. Joana de Cuza contemplou com serenidade a massa do povo que não lhe entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito. Os algozes dos mártires cercaram-lhes de impropérios. Um dos verdugos disse a Joana: “O teu Jesus soube apenas ensinar-te a morrer?” – A velha discípula, reunindo as últimas resistências, teve ainda força para responder: “Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...”

Nesse instante, ela faleceu... em seguida, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente o ombro, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível, dizer: “Joana, tem bom ânimo!.. Eu aqui estou!...”



Bibliografia:
Evangelho de Lucas
Livro “Boa Nova” – (Espírito de Humberto de Campos)

Jc.
S.Luis, 28/4/2011

MARIA DE MAGDALA ( Madalena)

MARIA DE MAGDALA (Maria Madalena)

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, para a casa de Lázaro. Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam à mesa. Então, entrou Maria de Magdala, e tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, muito precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa encheu-se toda com o perfume do bálsamo. Mas Iscariotes, um dos seus apóstolos, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” – Jesus então lhe disse: “Deixe-a; por que a molestais? Ela praticou uma boa ação para comigo. Porque os pobres sempre os têm convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes o bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado o Evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”.

Tempos depois, Jesus seguiu para Jerusalém, onde foi preso, julgado, condenado, e foi levado para um lugar chamado Gólgota, onde o crucificaram. E estavam ali muitas mulheres; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para o servirem; e entre elas estavam Maria mãe de Jesus, Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago, a mulher de Zebedeu, e outras.

Após o sepultamento de Jesus e passado o sábado, Maria foi ao sepulcro e viu que a pedra que tapava a entrada do túmulo fora removida. Maria continuava junto ao túmulo e, enquanto chorava, olhou para o interior do túmulo e viu dois anjos. Então eles lhe perguntaram: “Mulher, por que choras?” – Ela lhes respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”. E tendo dito isto, voltou-se e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. – Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras?” Ela supondo ser o jardineiro respondeu: “Senhor, se tu tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”. Disse-lhe então Jesus: “Maria!” – Ela reconhecendo-o lhe disse em hebráico: “Rabôni” ( que quer dizer Mestre). Recomendou-lhe Jesus: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos, para dizer-lhes que eu ressuscitei e que se dirijam à Galiléia, e lá eles todos me verão”.

Ela foi á escolhida para anunciar a Imortalidade do seu Mestre, em razão da sua conversão, da sua dedicação e do seu grande amor ao Mestre, que modificou a sua existência de pecadora.

= x =

Maria de Magdala ouvira as pregações do Evangelho do Reino, não longe da Vila principesca onde vivia entregue aos prazeres, em companhia de patrícios romanos, e tornara-se de admiração profunda pelo Mestre.

Que novo amor era aquele, apregoado aos pescadores singelos por lábios tão
divinos? Até ali, caminhara ela sobre as rosas rubras do desejo, embriagando-se
com o vinho de condenáveis prazeres. No entanto, seu coração estava sequioso e

em desalento. Jovem e formosa emancipara-se dos preconceitos de sua raça; sua beleza lhe escravizara aos caprichos de mulher, os mais ardentes admiradores; mas seu espírito tinha fome de amor. O profeta nazareno havia plantado em sua alma novos pensamentos. Depois que lhe ouvira a palavra, observou que as facilidades da existência lhe traziam agora um tédio mortal ao espírito sensível. As músicas voluptuosas já não encontravam eco em seu íntimo; os enfeites romanos de sua habitação se tornaram sem graça e tristes. Maria chorou longamente, embora não compreendesse ainda o que queria o profeta desconhecido. Entretanto, suas palavras pareciam ressoar-lhe nas fibras mais sensíveis de mulher. Jesus chamava as pessoas para uma vida nova.

Decorrida uma noite de grandes meditações, e antes do banquete em casa de Lázaro, onde ela ungiria publicamente os pés de Jesus, nasceu o dia e ela embarcou numa barca que conduziu a pecadora até Cafarnaum. Dispusera-se a procurar o Mestre, após muitas hesitações. Como a receberia o Senhor, na residência de Simão Pedro? Seus conterrâneos não lhe haviam perdoado a vida de prazeres e o abandono do lar paterno. Para eles, ela era a mulher perdida que teria de encontrar a lapidação na praça pública. Sua consciência, porém, lhe pedia que fosse falar com Jesus, que tratava a multidão com especial carinho. Que lhe valiam as jóias, as flores raras, os banquetes luxuosos, se, ao fim de tudo isso, conservava a sua sede de amor!... Envolvida por esses pensamentos profundos, Maria de Magdala penetrou o umbral da humilde residência de Simão Pedro, onde Jesus parecia esperá-la, tal a bondade com que a recebeu num grande sorriso. A recém-chegada sentou-se com indefinível emoção a estrangular-lhe o peito e muito respeito.

Feita as primeiras saudações e vencendo as suas indecisões, Maria se pronunciou: “Senhor, ouvi a vossa palavra consoladora e venho ao vosso encontro!... Tendes a clarividência do céu e podeis adivinhar como tenho vivido! Sou uma filha do pecado; todos me condenam. Entretanto Mestre observe como tenho sede do verdadeiro amor!... Minha existência como todos os prazeres, tem sido estéril e amargurada...” As lágrimas lhe borbulhavam dos olhos, enquanto Jesus a contemplava, com bondade infinita. Ela então continuou: “Ouvi o vosso amoroso convite ao Evangelho! Desejava ser das vossas ovelhas; mas será que Deus me aceitaria?” – O profeta nazareno fitou-a, enternecido, sondando as profundezas do seu pensamento, e respondeu bondoso: “Maria, levanta os olhos para o céu e regozija-te, porque escutaste a Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias! Acaso poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde então, o amor de Nosso Pai? Nunca vistes a primavera dar flores sobre uma casa em ruínas? As ruínas são as criaturas humanas; porém as flores são as esperanças em Deus. Sentes hoje esse novo Sol a iluminar-te o destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos pecados”.

A pecadora de Magdala escutava o Mestre bebendo-lhe as palavras, porque nenhum homem havia falado assim à sua alma. Enlevada por essas palavras confortadoras e ouvindo as referências de Jesus ao amor, Maria comentou suavemente: “No entanto Senhor tenho amado e tenho sede de amor!...” Jesus lhe redargüiu: “Sim, tua sede é real. O mundo viciou todas as fontes de redenção e é preciso que compreendas que em suas sendas a virtude tem que marchar por uma porta estreita. A virtude no mundo foi transformada na porta larga da conveniência. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre, sem amargura e ambição, com o júbilo do sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para a vida suprema!...” Maria o escutava, embevecida e o interrogou atenciosamente: “Só o amor pelo sacrifício poderá saciar a sede do coração?” Jesus teve um gesto afirmativo e continuou: “Somente o sacrifício contem o divino mistério da vida. Na tua condição de mulher, já pensaste no que seria o mundo sem as mães extremadas no silêncio e no sacrifício?” Ouvindo isso, Maria começou a chorar e a sentir no íntimo o deserto da mulher sem filhos. Por fim, exclamou: “Desgraçada de mim, Senhor, que não posso ser mãe!...” Então o Mestre brandamente acrescentou: “E, qual das mães será maior aos olhos de Deus? A que se devotou somente aos seus filhos de carne, ou as que se consagraram por amor aos filhos das outras mães?”

Aquela interrogação pareceu despertá-la para meditações profundas. Maria sentiu-se amparada por uma energia interior diferente, que até então desconhecera. Jesus lhe honrava o espírito, convidando-a a ser mãe de seus irmãos em humanidade. Experimentando grande felicidade em seu íntimo, contemplou o Mestre com os olhos cheios de lágrimas e, no êxtase de sua alegria, murmurou comovida: “Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor celestial que me ensinastes!... Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento e procurarei os infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração.” Nesse instante, Simão Pedro passou pelo aposento e lançou um olhar de desprezo, e ela, já receosa de um dia perder a convivência do Mestre, perguntou: “Senhor, quando partirdes deste mundo, como ficaremos?” Jesus percebendo o motivo e o alcance da sua palavra, esclareceu: “Certamente que partirei, mas estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro, é necessário que cada um tome sua cruz, em busca da redenção. Vai, Maria!... Sacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil á jornada, estreita a porta; mas a fé remove os obstáculos... Nada temas: é preciso crer e trabalhar!”

Mais tarde, depois da sua gloriosa visão do Mestre ressuscitado, Maria Madalena voltou de Jerusalém para a Galiléia, seguindo os passos dos companheiros queridos. Após algum tempo, os apóstolos começaram a abandonar a região, a serviço da Boa Nova. Ao partir os dois últimos companheiros para Jerusalém, Maria temendo a solidão, rogou a eles que lhe permitissem acompanhá-los e lhe foi negado o seu desejo. Temiam eles, o pretérito da pecadora e não confiam nela. Maria compreendeu, mas lembrou-se de Mestre e resignou-se. Humilde e sozinha resistiu as todas as propostas condenáveis e, sem recursos para viver, trabalhou pela própria sobrevivência, em Magdala e Dalmanuta. De vez em quando ia às
sinagogas, desejosa de relembrar as lições de Jesus. Por vezes, chorava de saudade, quando passeava no silêncio da praia, sob as árvores recordando a presença do Mestre.

Certo dia, um grupo de leprosos veio a Dalmanuta, cansados e tristes, em abandono, perguntando por Jesus, e todas as pessoas lhe deram as costas. Maria foi ter com eles e, sentindo-se com amplo direito de empregar sua liberdade, reuniu-os sob as árvores da praia e lhes transmitiu as palavras de Jesus, enchendo-lhes os corações com as claridades do Evangelho. Maria sentiu tamanha alegria no semblante dos infortunados, em face das suas palavras, e, por motivo das autoridades locais, terem ordenado a expulsão dos enfermos, Maria resolveu seguir para Jerusalém e eles seguiram em sua companhia. Chegados à cidade, foram conduzidos ao vale dos leprosos, onde Madalena penetrou com espontaneidade de coração. Seu espírito recordava as lições do Mestre e uma coragem se apossou de sua alma. Dali em diante, todas as tardes a mensageira do Evangelho reunia os seus novos amigos e lhe passava os ensinos de Jesus. Os doentes arrastavam-se até junto dela e lhe beijavam a túnica singela, e ela, lembrando o amor do Mestre, tomava-os em seus braços fraternos e carinhosos. Em breve tempo, sua pele apresentava, igualmente, manchas violáceas. Ela compreendeu a sua nova situação e recordou que o Mestre lhe dissera que somente sabiam viver os que sabiam imolar-se. Os seus moribundos esperavam a morte com um sorriso ditoso nos lábios. Nesse trabalho, muito tempo passou.

Passado alguns anos, sentindo-se no termo de sua tarefa meritória, Maria Madalena desejou rever antigas afeições de seu círculo pessoal, que se encontravam em Éfeso. Lá estavam João e Maria, mãe de Jesus, além de outros companheiros cristãos. Compreendendo que suas últimas dores terrestres estavam próximas; então decidiu pôr em prática seu sincero desejo. Nas despedidas, seus doentes vinham suplicar-lhe os derradeiros conselhos e recomendações, e ela envolvendo-os no seu carinho, lhes dizia: “Jesus deseja que nos amemos intensamente uns aos outros e que participemos das divinas esperanças, na mais extrema lealdade a Deus!...” Então os doentes lhe trouxeram o fruto das esmolas e as crianças vinham beijar-lhe as mãos. Em seguida a ex-pecadora abandonou o vale, e para chegar até o seu destino, percorreu muito tempo, e para isso, recorreu à caridade pública, sofrendo penosas humilhações e submetendo-se a sacrifícios. Observando as feridas pustulentas que substituíram sua antiga beleza, alegrava-se em reconhecer que seu espírito não tinha motivo para lamentações; Jesus a esperava e ela era fiel.

Maria achou-se um dia, às portas da cidade; mas um abatimento lhe dominava os centros de força física, no justo momento, quando as casas de Éfeso se lhe aparecia á vista, seu corpo alquebrado negou-se a caminhar. Foi quando uma modesta família de cristãos do subúrbio recolheu-a caridosamente a uma tenda humilde. Madalena pôde ainda rever amizades bem caras, consoante seus desejos, e por muitos dias de sofrimentos, debateu-se entre a vida e a morte. Uma noite, atingiram o auge as suas dores, porém sua alma estava iluminada por brandas reminiscências e, não obstante seus olhos se acharem selados, com os olhos da imaginação via o lago querido, os companheiros de fé, o Mestre bem-amado. De minuto em minuto, ouvia-se-lhe um gemido, enquanto os irmãos de crença lhe rodeavam o leito, com preces sinceras de seus corações amigos e desvelados.

Em dado momento, observou-se que seu peito não mais arfava. Maria, no entanto, experimentava consoladora sensação de paz. Sentia-se sob as árvores da Galiléia e esperava o Mestre. As aves cantavam nos ramos próximos e as ondas sussurrantes vinham beijar-lhe os pés. Foi quando ela viu Jesus aproximar-se, mais belo que nunca. Seu olhar tinha o reflexo do céu e o semblante trazia um júbilo indefinível. O Mestre estendeu-lhe as mãos e ela se prosternou, respeitosamente exclamando, como antigamente: “Meu Senhor!...” E Jesus recolhendo-a brandamente nos braços, lhe disse suavemente: “Maria, já passaste a porta estreita!... Amaste muito! Vem comigo... “



Bibliografia:
Evangelhos de João, Marcos e Mateus
Livro “Boa Nova” (Humberto de Campos, espírito)


Jc.
S.Luis, 25/4/2011

sábado, 23 de abril de 2011

LUIS OLÍMPIO TELES DE MENEZES

LUÍS OLÍMPIO TELES DE MENEZES

O jornalista brasileiro, Luís Teles de Menezes é considerado como um dos pioneiros do Espiritismo no país. Filho de Fernando Luis Teles de Menezes, um oficial do Exército, e de sua esposa D. Francisca Umbelina de Figueiredo Menezes, esse valoroso pioneiro do Espiritismo, em nosso país, nasceu em Salvador, Bahia, no dia 26 de julho de 1825, fazendo parte da ilustre família dos Menezes, de velhos capitães, magistrados e clérigos portugueses, que desde os primórdios do século XVIII, chegara ao Brasil e se estabeleceu na Bahia, dando origem a extensa descendência.

Teles de Menezes, casou-se em primeiras núpcias, aos 23 anos de idade, com D. Ana Amélia Xavier de Menezes, da mesma idade. Teles de Menezes encontrou nela a esposa compreensiva e carinhosa de todos os instantes até a sua desencarnação no dia 28 de agosto de 1865. A descendência desse casamento foi pródiga, entre filhos, netos bisnetos e tetranetos. Teles de Menezes, prestou bons serviços ao Brasil Colônia e ao Brasil Reino. Ainda jovem, ele decidiu seguir a carreira do pai, que era militar e entrou para o curso de Artilharia, em sua cidade natal, porém logo a abandonou por faltar-lhe vocação. Estudioso, autodidata, dedicou-se então ao magistério, participando ardorosamente, da campanha contra o analfabetismo e ao incentivo da literatura entre os jovens baianos. O ensino das primeiras letras no Brasil decretado desde 1927 ainda não era bem aceito pelo povo, sendo exigida muita vontade e abnegação.

Por vários anos, Teles de Menezes foi professor de instrução primária e de Latim. Apreciador do purismo gramatical publicou um compêndio a que deu o título de: “Ortoépia da Língua Portuguesa”. Foi ele um dos fundadores do jornal “Época Literária”, foi presidente e membro da diretoria do Instituto Histórico da Bahia e companheiro de Ruy Barbosa no Conservatório Dramático da Bahia; foi professor primário, estenógrafo, funcionário da Assembléia Legislativa e Oficial de Biblioteca Pública da Bahia. Falava o Inglês, o Francês, o Castelhano e o Latim. Escreveu nos seguintes periódicos: Diário da Bahia, Jornal da Bahia, A Época Literária e foi autor do romance “Os Dois Rivais”.

Foi por causa da sua sede de cultura e de conhecimentos que Teles de Menezes veio a se interessar pelos fenômenos “inexplicáveis” que ocorriam em todos os países e que chamavam a atenção da humanidade. Durante toda a fase de implantação da Doutrina Espírita na França, por Allan Kardec, Teles de Menezes manteve relações de amizade com os espíritas franceses. O intercâmbio de idéias e a correspondência entre os dois países, facilitaram a chegada a terras baianas das tendências filosóficas e culturais que emergiam além-mar. A febre do magnetismo e os fenômenos espíritas explodiram em toda parte e ele interessou-se vivamente, por esses assuntos da mesma forma quanto Allan Kardec e os trabalhos que este desenvolveu com os espíritos codificadores e que culminaram com o lançamento em Paris, na França, do “Livro dos Espíritos”, em 18 de abril de 1857.
Teles de Menezes tornou-se sócio honorário correspondente da Sociedade Magnética da Itália, filiando-se igualmente, a várias instituições espíritas européias.
Dentre os distintos confrades com quem ele manteve correspondência, distinguem-se o professor Hippolyte Denizar Leon Rivail e seu secretário A. Desliens. Em 1860, surgiram no Brasil as primeiras obras espíritas, e cinco anos depois, precisamente às 22,30 hrs. no dia 17 de setembro de 1865, realizou-se em Salvador, na Bahia, a primeira sessão espírita no Brasil, sob a direção do pioneiro Luís Olimpio Teles de Menezes, surgindo também o primeiro Centro Espírita brasileiro, o Grupo Familiar do Espiritismo, primeira agremiação doutrinária espírita no Brasil. Naquela data, durante a primeira reunião do Grupo, um Espírito que se denominou “Anjo de Deus”, enviou por psicografia uma mensagem, cujo teor muito sensibilizou os presentes. O surgimento do Centro Espírita provocou imediata reação da Igreja, que encontrou em Teles de Menezes, um adversário corajoso e trabalhador.

No ano seguinte (1866) ele publicou o opúsculo “O Espiritismo – Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, uma seleção de trechos que traduziu de “O Livro dos Espíritos”. Esse periódico impresso na tipografia do Diário da Bahia, contava com 56 páginas e chegou a circular até no exterior: em Londres, Madri, Nova Iorque e Paris. Em breve se fez sentir a reação da Igreja Católica, que começou a pregar acerca dos malefícios da nova doutrina, vindo a lançar uma Carta Pastoral, divulgada em 25 de julho de 1867. Essa Carta, em forma de opúsculo, com o título “Erros perniciosos do Espiritismo”, acusava violentamente a doutrina espírita, recorrendo a inverdades.

Teles de Menezes, para refutá-la, escreveu uma carta aberta, ao Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil, D. Manoel Joaquim da Silveira, da qual foram publicadas duas edições no mesmo ano, onde ele afirmava: “O Espiritismo tem de passar por provas rudes, e nelas Deus reconhecerá sua coragem, sua firmeza e sua perseverança. Os que se ausentam por um simples temor, ou por uma decepção, se assemelham aos soldados que somente são corajosos em tempo de paz, mas que, ao primeiro tiro, abandonam as armas”. Sendo o ponto mais aceso da questão, a reencarnação, a polêmica veio a encerrar-se depois de longo tempo, quando o padre Juliano José de Miranda, sabendo que Teles de Menezes tinha sido católico, deu-a por encerrada, afirmando que “Espiritismo e Catolicismo são a mesma Igreja de Jesus Cristo”.– Acredita-se que essa carta tenha se constituído na primeira obra espírita de autor brasileiro publicada no Brasil.

Teles de Menezes detém também o título de pioneiro da imprensa espírita no Brasil. Em 8 de março de 1869, anunciou através de discurso proferido no Grêmio dos Estudos Espíritas da Bahia, o aparecimento do jornal “O Eco d’Além-Túmulo – Monitor do Espiritismo no Brasil”, o primeiro periódico espírita no país. Com 56 páginas, bimestral, circulava não só na Bahia, mas em outras partes do território nacional, bem como em Londres, Lyon, Paris, Madrid, Barcelona, Sevilha, Nova Iorque, Bolonha e Catânia. Esse jornal nasceu abolicionista, difundindo, em meio à efervescência política da época, os princípios imortais do Espiritismo, sustentados na máxima francesa: Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Por volta de 1876, Teles
de Menezes partiu para o Rio de Janeiro onde fixou residência na Rua Barão de São
Felix, 165-sobrado, onde viveu com a segunda esposa, D. Elisa Pereira de Figueiredo
e alguns filhos do primeiro matrimônio.

Pouco tempo de existência terrena restava a Teles de Menezes e ele passou sob longos e dolorosos padecimentos causados pela nefrite. Em 16 de março de 1893, após sofre dolorosa e pertinaz enfermidade veio a desencarnar aos 68 anos de idade, um dos pioneiros do Espiritismo e o introdutor da Imprensa Espírita no Brasil. Desencarnou em pobreza extrema, sendo o enterro feito a expensas de dois taquígrafos, que lhe prestaram os melhores serviços. Luís Olímpio Teles de Menezes foi o primeiro presidente da Associação Espírita Brasileira, que tinha como objetivo o desenvolvimento moral e intelectual do ser humano e a exemplificação da caridade cristã, baseados na filosofia espírita.

Inscreveu-se no contexto da Imprensa Espírita, e, historicamente, no da Imprensa Brasileira, como um de seus mais lídimos exemplos de idealismo e honradez. Foi por ocasião de 8º Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas – BJEE, realizado em Salvador, na Bahia , em 1982, que se fixou o dia 26 de julho como o Dia Nacional da Imprensa Espírita, numa homenagem à data de nascimento desse valoroso trabalhador espírita...


Bibliografia:
Marinei Ferreira Rezende
Jornal ‘O Imortal” – 06/2008

Jc.
S.Luis, 21/4/2011

JORGE RIZZINI

JORGE RIZZINI

Defensor da pureza doutrinária do Espiritismo, Jorge Rizzini colocou a Doutrina Espírita acima das instituições e dos interesses puramente humanos.

O paulistano Jorge Toledo Rizzini, nasceu em 25 de setembro de 1924. Ele começou a manifestar mediunidade de cura desde a infância, e aos dez anos, curou as dores de sua mãe, Cecília Toledo Rizzini. Ele era de família tradicional espírita (a avó, os pais e os irmãos). O pai Joaquim Vicente de Andrade Rizzini, médium vidente e de psicofonia, participou das atividades de um Centro Espírita no Rio de Janeiro. Rizzini casou-se com D. Iracema Sapucaia e tiveram três filhos: Maria Angélica – advogada, Ricardo – engenheiro, e Eliana – bióloga. Ele tinha uma família numerosa e unida, com netos e bisnetos.

Jorge Rizzini foi grande trabalhador da Doutrina Espírita e defensor da pureza doutrinária, dentro e fora do movimento espírita. Ele colocava a Doutrina acima das instituições e dos interesses puramente humanos. Na televisão, participou de polêmicas que repercutiram em todo o Brasil, quando defendeu os médiuns Otília Diogo, Francisco Candido Xavier, Waldo Vieira e José Pedro de Freitas – o Zé Arigó, de quem também foi testemunha de defesa no segundo processo criminal.

Autor de várias obras não-doutrinárias recebeu em 1965 o Prêmio Narizinho, do Departamento de Cultura de São Paulo pela peça infantil Cidade Perdida e o prêmio Fábio Prado, em 1957, da União Brasileira de Escritores pelo livro de contos Beco dos Aflitos. Rizzini foi o primeiro biógrafo de Monteiro Lobato e autor da “Vida de Monteiro Lobato”. Fez parte da Comissão Monteiro Lobato, criada pela União Brasileira de Escritores para defender a memória do escritor. Seu livro “Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo da Caridade”, foi também lançado pela União Espírita Francesa. Psicografou 44 poemas nacionais, portugueses e norte-americanos, que estão nos livros “Sexo e Verdade”, “Castro Alves Fala a Terra” e “Antologia do Mais Além”, prefaciados por José Herculano Pires, biografado por Rizzini, no livro “J. Herculano Pires – O Apóstolo de Kardec”.

Presidiu em 1959 o Clube dos Jornalistas Espíritas do Estado de São Paulo; lançou nesse mesmo ano o “Kardequinho”, a primeira revista infanto-juvenil espírita; criou em 1961 a Filmoteca Allan Kardec, a primeira no movimento espírita; filmou na França e nos Estados Unidos documentários sobre Allan Kardec e as Irmãos Fox; registrou com exclusividade as cirurgias realizadas por Zé Arigó e os trabalhos mediúnicos de Francisco Candido Xavier; criou e apresentou em 1966 o programa semanal de uma hora, “Em Busca da Verdade”, na TV Cultura de S.Paulo. Recebeu
músicas de vários compositores brasileiros e internacionais, gravados nos LPs “Compositores do Além”, volumes I, II e III, com canções que foram apresentadas em três Festivais de Músicas Mediúnicas, com a participação de cantores profissionais de renome, com acompanhamento da Orquestra Eldorado, Regional de Isaías e Seus Chorões e a Banda da Polícia Militar do Estado de S. Paulo; foi o primeiro apresentador no Teatro Municipal de S. Paulo, o segundo no Palácio das Convenções do Anhembi e o terceiro no Ginásio do Ibirapuera. Realizou o Festival da Música Mediúnica do Rio de Janeiro e em S.Paulo, daí resultando no CD “Compositores do Além” produzido por Oceano Vieira de Melo.

Jorge Rizzini fez palestras em vários países da América Latina e países europeus. Podem ser encontradas referências a Rizzini nas revistas “Oggi”, “Planète” e “Seleções de Reader’s Digest” e nos livros Arigó – Surgeon of the Rusty Knife, de John Fuller e no livro “Uri Geller”, de Andrija Puharich. Produziu ainda várias obras: “O Sexo nas Prisões”, “Materializações de Uberaba”-documentário, “O Regresso de Glória” e “Histórias de D. Santinha” – contos, e a literatura infantil “Carlito e os Homens da Caverna”; “A Vida Maravilhosa de Chico Xavier” e “A Vida Missionária de Allan Kardec”- textos teatralizados em CD. Ele falava sempre de assuntos que estava reunindo para serem publicados em um livro, cujo título seria “A Verdade Sem Véu”. Entre os seus papeis, foram encontrados documentos valiosos frutos de uma existência plena de realizações.

Para que se tenha um melhor conhecimento do papel importante desempenhado pelo confrade Jorge Rizzini, que foi o maior defensor da Doutrina Espírita, nas décadas de cinqüenta e sessenta, quando a doutrina sofreu ataques com difamações, por parte da revista “O Cruzeiro”, pertencente aos Diários Associados, do Sr. Assis Chateaubriand, que na época, era a revista de maior circulação no país que chegou a uma edição recorde de 4.650.000 exemplares, isto em 1964, o que causou tanto tumulto que os irmãos Chico Xavier e Waldo Vieira tiveram que sair de Uberaba, por estarem ameaçados de morte por fanáticos clericais, e antes de partirem fizeram entrega a Rizzini, de farto material para a defesa e pediram-lhe que botasse o Evangelho de lado e disseram-lhe: “Vá à luta”. Para conhecimento do que se passou é necessário acessar o artigo que tem o título “O Espiritismo e os Meios de Comunicação”, neste mesmo blog.

“Tudo passa”, “Tudo é ilusão”, “Os tempos são chegados”, eram repetidos por Rizzini nas conversas com os amigos, certo da transitoriedade da existência material e convicto de que era preciso que o Ser Humano aproveitasse o máximo o tempo disponível num trabalho que elevasse cada vez mais o seu Espírito. Numa entrevista para a jornalista Ana Carolina Coutinho, ela perguntou a Rizzini o que ele esperava encontrar, de imediato, após a sua desencarnação. Ele respondeu: “O meu Guia Espiritual e a minha mãe”.

Jorge Rizzini costuma dizer aos seus amigos que queria desencarnar tranqüilo, como um passarinho, e durante seus 84 anos de idade sofreu alguns enfartes, e no último que sofreu, em uma viagem aérea que fez à Argentina, seria preciso operá-lo, mas com a sua idade avançada, sem dúvida não suportaria. No dia l7 de outubro de 2008 desencarnou, deixando a esposa e três filhos. No dia seguinte, minutos antes da saída do corpo, do local onde estava sendo velado, para o enterro no cemitério Parque Morumbi, sua esposa, a pedagoga e escritora Iracema, agradeceu aos presentes e disse que Rizzini amava os amigos e que todos sabiam o quanto ele tinha lutado com amor pela Doutrina Espírita, deixando o que tinha de mais marcante: A sinceridade e a coragem de dizer o que falava o seu coração: “Sua grande lição – a luta”.

Sem dúvida os amigos da Espiritualidade estão em festa, pelo retorno de quem tanto defendeu a Doutrina e se realizou na divulgação dos ensinamentos de Jesus e de Allan Kardec.


Bibliografia:
Altamirando Carneiro
Jornal “O Imortal” 11/2008


Jc.
S.Luis, 18/04/2011

JAN HUSS

JAN HUSS

Jan Huss, encarnação anterior de Allan Kardec, viveu num século de contradições religiosas. Ele nasceu por volta de 1370, filho de uma pequena família camponesa que vivia na aldeia de Hussinek, na Boêmia, e ingressou na Universidade de Praga quando tinha dezessete anos. A partir de então, toda sua existência transcorreu na capital do país, excetuados os dois anos de exílio e encarceramento em Constança.

Jan Huss foi influenciado pelas idéias de Wycliff (1333-1384), teólogo e reformador inglês que desenvolveu alguns tratados sobre o dominium, ou seja, a idéia de que o poder vem de Deus e apenas é legítimo naqueles que se encontram em estado de graça. As suas teses contrariavam os interesses da Igreja Católica; expressava-se ele contra o poderio papal, os votos religiosos, os benefícios e riquezas do clero, as indulgências e a concepção tradicional acerca do sacerdócio, e por adotar essas idéias Jan Huss sofreu inúmeras admoestações por parte do clero. Completou o seu curso na Universidade onde se formou como bacharel em Teologia em 1394, e em Artes em 1396. Trabalhou na fixação da ortografia e na reforma da língua literária tcheca. Jan Huss, como professor da Universidade de Praga, distinguiu-se nas discussões, no conhecimento de Aristóteles, na Bíblia e nos Santos Padres. Ele procurou nos escritos de Matias Janov e Chtitny as soluções deles para as inquietudes que propagava a Bíblia, como única fonte de verdade e fé. Essa influência afastou Huss da doutrina católica e sua heterodoxia, com a leitura da obra de Wycliff, particularmente “Diálogos e Triálogos”, trazida de Oxford, por Jerônimo de Praga.

Em 1400 foi ordenado sacerdote, e no ano seguinte passou a ocupar o cargo de Reitor da Universidade, passando a considerar-se teologicamente sintonizado com o ponto de vista de John Wycliff. No ano seguinte (1401), tornou-se pregador na capela de Belém, em Praga capital da Boêmia e tinha o apoio do Arcebispo. Ali pregou com dedicação a Reforma pela qual muitos tchecos, propugnavam desde os tempos de Carlos IV. Sua eloqüência era tamanha que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador. Venceslau e sua esposa Sofia o escolheram para seu confessor e lhe deram seu apoio. Alguns dos membros mais destacados da hierarquia Católica começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio dos reis ainda era suficientemente importante para que os prelados não se atrevessem a tomar medidas contra o pregador entusiasmado.

No mesmo ano em que passou a ocupar o púlpito de Belém, Huss foi feito reitor da Universidade, de modo que se encontrava em ótima posição para impulsionar a Reforma. Ao mesmo tempo em que pregava os abusos da Igreja, ele continuava sustentando certas doutrinas geralmente aceitas e nem mesmos seus piores inimigos atreviam-se a lhe censurar a sua existência ou suas idéias. Huss ensinava que o perdão dos pecados só se poderia obter por contrição e penitência sincera, e nunca comprada por dinheiro, conforme fazia a Igreja. Mais tarde, ele desmascarava a velhacaria dos que atraiam numerosos peregrinos a Wilsnack, com falsos milagres, e
com o apoio do Arcebispo, publicou um tratado onde desenvolvia a tese de que qualquer cristão não devia correr atrás de milagres.

Em 1411, Huss é excomungado de sua congregação, e todos os cultos, cerimônias de batizado e funeral feitos por ele, foram anuladas. Tal ato trouxe grande revolta aos cidadãos de Praga, os quais defenderam Huss. Um conflito surgiu então nos círculos universitários: Um discípulo de Huss, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, e trouxe consigo algumas das obras mais radicais da reforma inglesa. Sem demora, os ataques contra Huss, Jerônimo e seus seguidores ampliaram-se. Religiosos começaram a ver nos ensinos de Wycliff uma ameaça séria à Igreja A opinião de Huss e seus companheiros já eram conhecidas de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo, em protesto contra a maneira de Igreja explorar o povo tcheco. O resultado disso foi um grande tumulto popular em Praga, quando Huss com o apoio do rei Ladislau, proibiu a venda de indulgências e foi festejado como herói nacional. Ele sustentava que o perdão dos pecados só poderia ser por penitência e nunca por dinheiro, e que nem o Papa nem qualquer sacerdote podiam levantar a espada em nome da Igreja; que a infabilidade do Papa era uma blasfêmia. Houve ainda o discurso inflamado de Jerônimo de Praga e surgiram cortejos satíricos onde era ridicularizada a Igreja Oficial.

Em vista dessa situação o rei de Nápoles estabeleceu a pena de morte para quem ofendesse o Papa, e logo três moços foram decapitados e foram enterrados solenemente, e Huss lhes fez o necrológio. Huss então foi tido como o líder de uma grande heresia e até chegou-se a dizer que todos os boêmios eram hereges. O cúmulo da corrupção papal aconteceu em 1412, quando João XXII lançou uma cruzada contra o rei Ladislau e ofereceu a remissão completa dos pecados, a todos os que participassem da guerra, ou a indulgência para os que a suportassem. Ao tomar conhecimento da notícia contrária a todos os preceitos bíblicos, Huss se volta contra o papado por usar sanções espirituais e indulgências para fins pessoais e políticos. Em contra-ataque, Huss é excomungado em Roma, por não ter comparecido perante a corte papal, sendo fixado um prazo para ele se apresentar. Se não o fizesse, a cidade de Praga ou outro qualquer lugar que lhe desse acolhida, estaria sob interdição. Dessa forma, a suposta heresia de Huss resultaria em prejuízo para essa cidade, fato esse que o obrigou a deixar Praga.

Entrementes, o imperador Sigismundo prometeu a Huss um salvo-conduto, se consentisse em comparecer ao Concílio de Constança, em 1414, o que Huss atendeu. Diante da promessa, se pôs á caminho e em Constança recebeu o dito salvo-conduto, onde dizia que ele poderia transitar morar e residir livremente. Mas, com o pretexto de que ele queria retirar-se da cidade, prenderam-no e internaram-no no Convento dos Dominicanos, em infecto recinto. Instauraram um processo e o ato da acusação coube a Etienne Palec. Começara a via-crúcis de Huss e no dia 5 de junho de 1415, Huss compareceu diante do Concílio. Foi ele tratado com se tivesse tentado fugir e acusado formalmente de herege e de seguir a doutrina de Wycliff, cujas teorias haviam sido condenadas anteriormente pelo Concílio.

Huss tentou expor suas opiniões, mas não pode e o seu julgamento foi adiado para o dia 7 do mês seguinte. Não havia maneira de resolver o assunto, pois o Conselho pedia que Huss se submetesse a ele, retratando-se das suas doutrinas, mas não queria escutá-lo e nem ele pode defender-se, porque vozes exasperadas interromperam-no e abafaram a sua palavra. Huss, porém, manteve a doutrina de que apenas o Cristo e não Pedro era o chefe da Igreja, e resistiu às promessas e ameaças que lhe fizeram e logo percebeu a situação que lhe aguardava. O cardeal Zabarella preparou um documento que exigia de Huss a retratação e ele respondeu com o apelo de Jesus: “Em suas mãos eu ponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um, não com base em testemunhos falsos e Concílios errados, mas na verdadeira justiça”.

Encarceram-no por muitos dias para que ele fraquejasse, mas ele continuou firme nas suas convicções. Ficou sob a guarda do Bispo de Constança, e depois lhe transferiram para o torreão do Castelo de Gottlieben, onde ficou aprisionado com correntes assim permanecendo por muitos dias e noites, sendo levado depois para o Convento dos Franciscanos. Em 6 de julho de 1415, foi proclamada sua condenação, sendo levado em seguida para a Catedral de Constança, e ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, tão somente para em seguida arrebatarem-lhe ambos, como sinal simbólico de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois disso, cortaram-lhe os cabelos fazendo-lhe uma cruz na cabeça, e em seguida colocaram-lhe um chapéu de papel, onde se lia a inscrição: “Hic est hoere siarcha” (Eis o herege).

Jan Huss então foi conduzido a um terreno vazio, despiram-no, amarraram-no a um poste, ajuntaram lenha em torno do poste e atearam fogo. Antes de ser queimado ele teria proferido a seguinte frase: “Hoje, vós assais um pato, mas dia virá em que o cisne de luz voará tão alto, que as vossas labaredas não mais alcançarão”. Em seguida ouviram-no então cantar – “Cristo, Fili Dei vivi, miserere nobis”. – Quando ele ia cantar a segunda linha, foi envolvido pelas chamas e pela fumaça e a voz morreu-lhe na garganta. Suas cinzas foram lançadas no rio Reno. E assim desencarnou queimado, aos 46 anos de idade, quem pregou contra a injustiça, a venalidade e a insinceridade, tendo enfrentado a fogueira com muita coragem.

Um ano após o martírio de Jan Huss, um discípulo seu também foi imolado na fogueira da Inquisição: Jerônimo de Praga, em 1416.

Séculos depois, esse Espírito reencarnaria na França como Hippólyte Leon Denizard Rivail, que ao conhecer o Espiritismo e fazer a Codificação da “Doutrina dos Espíritos”, adotou o pseudônimo de ALLAN KARDEC.

Bibliografia:
Marinei Ferreira Rezende
Jornal “O Imortal”- março/2009

Jc.
S.Luis, l5/04/2011

FREDERICO FIGNER

FREDERICO FIGNER

Frederico Figner nasceu no dia 2 de dezembro de 1866, em Teynska na Tchecoslováquia, então Boêmia que fazia parte do Império Austro-húngaro. De origem judaica, viveu no lar paterno os preconceitos de rejeição de sua raça contra o carpinteiro de Nazaré. Na verdade, Figner, como outros judeus não tinham religião alguma, e deixou a casa dos pais aos 13 anos de idade, em busca de seus ideais. Era um missionário que como outros que vinham cumprir sua missão no Brasil, durante longa existência como brasileiro, entre os melhores. Francisco Valdomiro Lorenz, nascido em Zbislav e chegado ao Brasil dois anos depois de Figner. Ambos vinham da pátria dos grandes mártires do Cristianismo como João Huss e Jerônimo de Praga, divulgar aqui os ideais superiores. Figner e Lorenz trabalharam na Federação Espírita Brasileira, que era recém-criada quando eles chegaram ao Brasil. Figner levava como modelo de conduta a tenacidade dos pais que eram um exemplo a imitar para vencer na vida. Uma tempestade violenta foi o único incidente da travessia do oceano, mas foi-lhe rude a luta para adquirir estabilidade econômica de sorte a manter-se e ajudar os pais e irmãos. Estados Unidos, México, América Central e, finalmente, América do Sul, foram seus campos de batalha econômica.

Em 1892 estabeleceu-se no Rio de Janeiro onde, entre outras coisas, fundou a famosa Casa Edison e ajudou a divulgar a máquina de escrever em todo o Brasil. Prosperou e conheceu uma jovem de virtudes e alma de artista, D. Esther de Freitas Reys, filha de família ilustre. Em 1897, Frederico e Esther fundaram o lar pelo matrimônio. Recebia ele o prêmio de suas grandes lutas de trinta anos, mas não sonhava com o repouso, que não era ideal de seu caráter vibrante. Desse feliz enlace nasceram seis filhos: Rachel, Aluísio, Gabriel, Leonilda, Helena e Leia, muito devotados ao seu pai. Foi no Brasil, e quando já negociante próspero, com loja comercial e industrial no Rio e uma filial em São Paulo, que Figner veio a conhecer o Espiritismo.

Nos primeiros anos do século vinte, Figner iniciou relações de amizade com Pedro Sayão, filho do doutrinador Antonio Luis Sayão, pai da cantora Bidu Sayão. Pedro Sayão, durante cerca de dois anos, lhe freqüentou a loja e palestrava sobre o Cristianismo e o Espiritismo, sem que Figner se impressionasse pelo assunto, porém, numa de suas visitas ao seu estabelecimento de São Paulo, Figner ouviu a dolorosa história de um seu empregado, cuja esposa se achava gravemente enferma e necessitada de melindrosa operação cirúrgica. Ao regressar ao Rio, ele pediu ao seu amigo Pedro Sayão que lhe obtivesse uma receita espiritual para a cura da enferma de São Paulo. A receita foi dada e a cura se processou sem a intervenção de médico. Foi esse fato que inclinou Figner a favor do Espiritismo. Impressionado com a cura da doente, Figner foi procurado, em outra ocasião, na sua loja por um pobre, pai de família desempregado, em penosa situação econômica. Ouviu-lhe o relato de sua situação, deu-lhe um pouco de dinheiro e disse-lhe que voltasse oito dias depois. Pela primeira vez na existência de Figner, ele fez um pedido ao Carpinteiro de Nazaré: “Se é como dizem os cristãos, que Tu tens poder, ajuda a esse pobre pai de família; arranja-Lhe trabalho e meios de sobrevivência!”. Oito dias mais tarde, voltava o homem com um sorriso no rosto e lhe falou feliz: “Já estou trabalhando e brevemente virei restituir seu dinheiro, Sr. Figner. Eu fui procurado por uma pessoa que me convidou para um emprego inteiramente inesperado”. Figner se impressionou e repetiu semelhantes pedidos, com resultados positivos. Em vez de pedir a Jesus, passou a pedir para Maria e igualmente os resultados não se faziam esperar. Encheu-se de fé que transporta montanhas e estudou o Cristianismo e a Doutrina dos Espíritos, e com os conhecimentos adquiridos, passou a consagrar sua existência ao serviço dos outros.

Não se sabe ao certo quando se deu essa conversão, mas em 1903 já se encontrava em atividades espíritas na Federação Espírita Brasileira. Por ocasião da “gripe espanhola”, em 1918, já estava com 14 doentes em seu próprio lar e ele mesmo adoentado e febril, passava os dias na Federação, atendendo a doentes e necessitados que iam lá em grande quantidade, buscar recursos para situações aflitivas. Sua existência durante longos anos consistia em ir pela manhã e a tarde à Federação tomar ditados de receitas de diversos espíritos, chegando às vezes a receber de 150 a 200 receitas por dia e a dar passes em numerosos doentes. Levantava-se ele, às cinco horas da manhã e, antes de ir para a loja, ia à Federação, de onde só saia quando terminava esse serviço de anotar as receitas. Às quatro horas da tarde, lá estava ele de volta para orar e dar passes em doentes. E curava mesmo os enfermos, pois seus “fregueses”, como ele mesmo os chamava na intimidade, cresciam sempre.

Como propagandista da Doutrina, manteve sempre uma seção no jornal “Correio da Manhã”, órgão em circulação no Rio de Janeiro. Em 1921 polemizou com o Padre Florêncio Dubois pela “Folha do Norte”, do Pará. Promoveu a publicação de muitos livros, custeando as edições. Com uma disciplina digna de louvores dividia seu tempo entre a atividade profissional e os afazeres espíritas, chegando a presidir vários grupos na sede da FEB e em seu lar. Viajando ao exterior buscou contato com o médium Willy Hope e encontrou-se na Inglaterra com Sir Arthur Conan Doyle. Em 1920 perdeu a filha primogênita Rachel, e sua esposa ficou inconsolável. Ouvindo falar da médium de materialização D. Ana Pedro, em Belém do Pará, decidiu-se a partir para o Norte e no dia 1º de abril de 1921, embarcou com toda a família. O que aconteceu naquelas sessões, acha-se relatado no livro do Dr. Nogueira de Faria, intitulado “O Trabalho dos Mortos”, pela senhora D. Esther Figner, que regressando ao Rio e assistida pela sua filha Leontina, escreveu relato minucioso do que ocorrera.

O serviço de Figner nas obras de assistência e no trabalho profissional o afastava muito do lar, mas isso não prejudicava o cultivo de um sincero e extremado afeto entre pai e filhos. Amavam-se com ardor e se respeitavam reciprocamente nas idéias e crenças particulares de cada um. Trabalhou e serviu abnegadamente até que a enfermidade o prendeu ao leito, poucos dias antes da partida para a espiritualidade. Completou 80 anos em 2 de dezembro de 1946, e em 19 de janeiro de 1947, às 20 horas, partiu para o mundo espiritual, deixando aberto caminhos de luz, sobre a
Terra que pisara por tanto tempo.

Bibliografia:
Marinei Ferreira Rezende
Jornal “O Imortal” – 08/2007

Jc. - S.Luis, 1ll/4/2011

sábado, 12 de março de 2011

CLÓVIS TAVARES

CLÓVIS TAVARES

Clóvis Tavares nasceu em Campos dos Goytacazes, no dia 20 de janeiro de 1915, dia de São Sebastião, no distrito de S.Sebastião. Daí o seu nome de batismo ser Sebastião Clóvis Tavares, embora sempre tenha sido tratado, em casa e em todos os ambientes, simplesmente por Clóvis. Desde a infância, demonstrou pendores religiosos. Era comum, nas plagas de S. Sebastião, ver seus irmãos jogando bola ou brincando de cabra cega e ele lendo ou rezando no oratório particular.

Ele afeiçoou-se ao padre da Igreja de S.Sebastião, chamado Émille Dés Touches, francês, de família nobre e abastada. Ele havia abandonado a sua herança para dedicar-se à vida religiosa, tendo decidido vir para o Brasil seguindo uma inspiração do Alto. Foi ele o primeiro professor de Francês e o primeiro orientador espiritual de Clóvis, que na adolescência, estudou no Liceu de Humanidades de Campos; integrou-se a um grupo de jovens idealistas que decidiram mudar o Mundo. Inscreveram-se no Partido Comunistas do Brasil e viveram um sonho de liberdade. Dois desses jovens eram Nina Arueira e Clóvis Tavares, que se enamoraram e tornaram-se noivos. Os dois viviam intensamente a vida partidária, sendo lideres de greves operárias e movimentos estudantis. Inesperadamente, Nina foi acometida de uma febre tifóide e Clóvis passa a fazer plantão ao seu lado, passando noites acordado, em vigilância, mas sem oração.

Por um desses mistérios da existência, ela conheceu já doente, um homem chamado Virgílio Paula, que a recebeu em sua casa para prestar-lhe tratamento. Era ele um profundo conhecedor de Teosofia e Espiritismo. Ela interessou-se inicialmente pela Teosofia; lê “Do Recinto Interno”, de Annie Bésant e decide, já no leito, renunciar à política partidária e conta a Clóvis a sua decisão. Este que estava também a discordar da direção partidária, quanto a rumos decididos que feriam a sua ética, passou a escutar de Nina as lições que ela ouvia do Vovô Virgílio. Este por sua vez, aos poucos foi introduzindo um pouco de Evangelho em suas conversas com Nina. Ela maravilhou-se com a visão de um Jesus Cristo amigo dos pobres e sofredores; amigo da Justiça e da Caridade e entregou-se de alma inteira, ao Evangelho, explicado pela racionalidade Espírita. Foram apenas alguns meses, mas ela desencarnou considerando-se espírita.

Após o seu desenlace é que Clóvis começou a ler os livros que ela lera no seu estágio derradeiro. E como ocorreu com Nina, ele também se apaixonou pela nova visão espírita. Quando leu pela primeira vez os versos de Olavo Bilac, Cruz e Souza, Fagundes Varella, Augusto dos Anjos, Castro Alves, João de Deus, Auta de Souza... se declarou espírita. E com o mesmo afinco que se dedicara há apenas alguns meses à política partidária, passa a militar ativamente no meio espírita. Começa a freqüentar o Grupo Espírita João Batista, dirigido pelo Sr. Virgílio de Paula e outros companheiros da primeira hora do Espiritismo em Campos. Em pouco tempo, Clóvis passa a realizar palestras doutrinárias que muito atraíram por sua fluência evangélica e pelo ardor do seu verbo.
Paralelamente a essas atividades, fundou uma escola de Doutrina Espírita para crianças, na casa da mãe da sua antiga noiva, a Dona Didi Arueira, e passaram a chamar essa casa de “Escola Infantil Jesus Cristo”. Mais uma vez, o inesperado ocorre. Os freqüentadores do Grupo Espírita João Batista, juntamente com os pais das crianças da Escola Infantil, afluíram para escutar suas palestras na casa de D. Didi. Decide então a diretoria do Grupo Espírita João Batista auto-dissolver-se e passar a integrar os quadros da nascente Escola Jesus Cristo, já sem o qualificativo de “Infantil”. Repetiu-se o mesmo que acontecera entre João Batista e Jesus. “É necessário que eu diminua para que Ele cresça”, e o Grupo João Batista dissolveu-se e os seguidores, passaram a seguir a Escola Jesus Cristo.

Iniciou-se uma Era nova para a Doutrina dos Espíritos no local, até então conhecido apenas pelas sessões mediúnicas. Com Clóvis, cresce em 1935, o Espiritismo da cultura e da prática da caridade, pois ele sempre priorizou na Escola Jesus Cristo, o serviço de amor ao próximo e o estudo doutrinário. A mediunidade ocupava, como até hoje, papel auxiliar. Ele sempre ensinou aos que buscavam ajuda, que, em primeiro lugar, deviam espiritualizar-se pelo estudo e pelo trabalho, para depois libertar-se das possíveis influenciações. Na Escola Jesus Cristo, Clóvis fundou dois orfanatos: um de meninas, dirigido inicialmente pela filha do Virgílio de Paula, a D. Inaiá de Paula, e outro para meninos, dirigido por ele mesmo e por seu companheiro de ideal, Medeiros Correia Junior, que mais tarde se tornaria Juiz de Direito. Fundou ainda um Culto de Assistência, onde um grupo de irmãos visitava duas favelas de Campos, para distribuição de gêneros alimentícios e para a realização de um culto do Evangelho no lar dos assistidos.

Fundou ainda a Sopa dos Domingos, com a ajuda dos irmãos portugueses Inocêncio Noronha, Bonifácio de Carvalho, D.Candinha e D. Mariquinhas; portugueses esses que sempre estiveram presentes na história da Escola Jesus Cristo. Surge ainda, por seu ideário, o Curso Elzinha França, para orientação espiritual às crianças. A escolha do nome Elzinha França deveu-se ao fato de que a Mocidade Espírita de Campos, da qual fazia parte a jovem Hilda Mussa, com quem se casaria mais tarde, e sua amiga Zenith Pessanha, visitava as famílias pobres da Escola Jesus Cristo, para mitigar os seus sofrimentos. Numa dessas peregrinações na favela, encontraram uma menina recém-nascida, abandonada. Como não havia na época, nenhum órgão oficial de amparo à criança e nem de longe se pensava no Estatuto da Criança e do Adolescente, decidiram trazer a menina para a Casa da Criança e deram-lhe o nome de Elzinha França. Apesar de Clóvis ter providenciado todos os cuidados médicos, a menor desencarnou em pouco tempo. Quando em uma de suas habituais viagens a Pedro Leopoldo para encontrar-se com Chico Xavier, obteve do médium a informação de que o visitava um espírito de muita luz, chamado Elzinha França. Clóvis Tavares, a princípio pasmo, contou ao médium quem era a menina, que Chico identificou como sendo uma professora que estava integrando a equipe espiritual de serviço na Escola Jesus Cristo, e que trabalharia na educação das crianças.

Na década de 50, passou a se corresponder com o sábio italiano Pietro Ubaldi, a
quem promoveu duas vindas ao Brasil, a última das quais, definitiva. Traduziu do italiano os seguintes livros do referido autor: “As Noúres”, “Ascese Mística”, “Grandes Mensagens”, “Fragmentos de Pensamento e Paixão”. Uma outra particularidade da Escola Jesus Cristo foi abrigar, na década de 60, uma escola de educação formal: O Instituto Allan Kardec. Paralelamente a essa atividade espírita, Clóvis Tavares lecionava História em duas escolas e Direito Internacional Público, na Faculdade de Direito de Campos. Foi autor de livros espíritas, renunciando, todavia, aos direitos autorais, pois aprendeu com Chico Xavier a doá-los às Editoras que se dedicavam à difusão doutrinária. Escreveu ele: “Sementeira Cristã”, “Vida de Allan Kardec para a Infância”; “Meu Livrinho de Orações”, “Os Dez Mandamentos”, “Histórias que Jesus Contou”, para o público infantil, “Vida de Pietro Ubaldi”, “Trinta Anos com Chico Xavier”, “Amor e Sabedoria de Emmanuel”, “Tempos de Amor”, “De Jesus para os que Sofrem”, “Mediunidade dos Santos”, para o público em geral.

Clóvis fundou ainda o Clube da Fraternidade, espaço artístico para a realização de jogos infantis, teatros e coros musicais nos domingos à tarde, numa época em que não havia televisão. Passou a visitar semanalmente os presos, recordando o ensino de Paulo aos hebreus: “Lembrai-vos dos encarcerados, como se vós mesmos estivésseis presos com eles”. (Hb. 13-3) – Uma vez por ano, pregava o Evangelho Consolador no cemitério, no dia 2 de novembro, iniciando uma prática consoladora e esclarecedora na terra dos goytacazes. Tornou-se amigo íntimo de Chico Xavier, com quem conviveu por 50 anos, o que é relatado nos livros do parágrafo anterior. Freqüentava com assiduidade as reuniões do Grupo Meimei, em Pedro Leopoldo. Viajou também para Belo Horizonte várias vezes, onde travou contato com Arnaldo Rocha, Joaquim Alves, Cícero Pereira e tantos outros que dignificaram a Doutrina dos Espíritos nas Minas Gerais e no Brasil.

Clóvis Tavares veio a casar-se, somente após 20 anos da desencarnação de Nina, e a jovem Hilda passou a ser também a sua fiel colaboradora nos trabalhos da Escola Jesus Cristo. Ela fundou um coro infantil, uma livraria, escreveu e dirigiu dezenas de peças teatrais adaptadas de contos clássicos da literatura mundial, como: “O Pequeno Príncipe”, “O Menino do Dedo Verde”, “O Pássaro Azul”, “Fernão Capela Gaivota”, “O Meu Cristo Partido”. Do seu casamento com Hilda, nasceram cinco filhos. Seu filho Flávio Mussa Tavares, em depoimento que embasa estes dados biográficos, registra: “Desencarnou papai no dia 13 de abril de 1984 exatamente uma semana antes, nascia o meu primeiro filho e seu primeiro neto, o Pedro. Sete dias após, no mesmo hospital e na mesma hora, meu pai é internado, e na cama onde fez a radiografia abdominal, segurando as minhas mãos, ele desencarnou. Em apenas sete dias, vivenciei intensamente a experiência de ser um ajudante de dois espíritos que atravessaram o Portal da Vida no sentido inverso: um se recorporizando na Terra e outro se despedindo deste mundo e reentrando na Espiritualidade”.

“Espero este ano, publicar “Saudade é o Metro do Amor”, que apresenta seis comunicações mediúnicas de meu pai, obtidas através do seu querido amigo Chico
Xavier, com quem ele mantinha uma relação de amizade que não pode ser medida pelos padrões humanos”.
Flávio Mussa Tavares

A Escola Jesus Cristo, em Campos, vive ainda intensamente a sua proposta de Espiritismo à luz do Evangelho de Jesus, reconhecendo que a Luz é sempre do Cristo, e é por Ele, que a Doutrina Consoladora existe, para esclarecer os seres humanos de uma forma racional e razoável, capaz de converter-nos psiquicamente em seres mais dignos de nossa existência no Planeta.



Bibliografia:
Livro “Trinta Anos com Chico Xavier”
“ “Escultores da Alma”
“ “A Morte Simples Mudança”
Jornal “O Espírita Mineiro”, maio/junho/2006


Jc.
S.Luis, 10/03/2011