domingo, 13 de novembro de 2016

A CORRUPÇÃO CULTURAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA




  O país vive um momento histórico, assolado pela corrupção  que nos atinge e nos coloca no pódio de uma crise sem precedentes nunca antes vista, e com rumos incertos onde vivenciamos dificuldades a cada dia. Nessa expectativa de “sairmos dessa”, nos resta a esperança de que ainda podemos sonhar com uma saída heroica, baseada na superação do brasileiro em escapar das dificuldades sem maiores lesões. É dito á tempos que “a ocasião faz o ladrão”, e é inegável a verdade desse ditado, mas seria, no caso brasileiro, só a ocasião para a pessoa política, a razão da corrupção? Para responder a essa pergunta, temos primeiramente que definir o que é corrupção.
Corrupção do latim  (: Corruptus – “despedaçado” ou em outra acepção, “pútrido”, é o ato de se corromper, ou seja, obter vantagem indevida, seja pelo abuso, por ação ou omissão, observando-se  a satisfação do benefício próprio, a despeito do bem comum. A corrupção não é só política, e nem sempre só envolve dinheiro. Existem três formas de se corromper:  1ª Pelo abuso; 2ª Pela omissão; e 3ª Pelo desvio.
O abuso, que é tido como normal pela sociedade brasileira hierarquizada pode ser representado pela frase: “Você sabe com quem está falando?”. Trata-se de um traço autoritário da sociedade brasileira. Ela funciona para demarcar diferenças e posições hierárquicas. O seu uso pode ser traduzido como: “respeite-me, pois não sou do seu nível”, ou ainda “nós não somos iguais”. A partir da famosa frase de Maquiavel: “Favori agli amici, nemici dela legge (aos amigos favores, aos inimigos a lei) representa bem esse abuso de um poder que deveria servir para  manter o bem comum, e é usado, na verdade, como pressuposto de superioridade daquele que o detém.
A omissão,  é, talvez, a forma de corrupção mais vista na nossa sociedade. Omitir-se é deixar de fazer ou dizer algo que deveria ser dito, deixando como certo, o errado prosseguir ininterrupto. Todo brasileiro se omite. Deixamos de denunciar tudo o que vemos de errado; deixamos de ajudar aqueles que necessitam de nossa ajuda; deixamos de devolver aquilo que sabemos que não é nosso, entre outras omissões comuns. Não só não denunciamos, mas até continuamos votando naqueles que se corrompem escrachadamente.
O desvio é relacionado ao abuso em partes. É quando devida função ou recurso, seja ele público ou privado, é desviado por aqueles que o administram para se beneficiarem. É como o administrador que desvia para si o patrimônio daquilo que administra, ou o político que dá cargos de confiança para parentes. É o uso do patrimônio alheio que administra para si.
Podemos relacionar as três modalidades de ação aos costumes tupiniquins modernos, que desobedecem todos os seus deveres, a favor de beneficiar-se; mas que sempre requer seus direitos  baseando-se no ordenamento jurídico. É como uma relação de dualidade entre o Legal e o Ilegal, ou do jovem delinquente que reclama dos abusos da polícia e também do criminoso que anseia pelos seus direitos humanos, e que é negado às suas vítimas.
Provavelmente ninguém parou para pensar quanto afeta na sociedade essa mentalidade anêmica, essa carência de preceitos morais e éticos, sempre em busca da vantagem própria. É a “Lei de Gérson” aplicada, talvez, uma frase infeliz do ex-jogador para o momento, mas que reflete em totalidade como funciona a política no Brasil, até porque fazer política não é exclusividade parlamentar, mas um dever de todo cidadão, segundo disposto no parágrafo único do Artigo 1º da Constituição Federal. “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
Aqueles que nos representam no Palácio do Planalto, nos Ministérios,  no Congresso e nas Autarquias, vieram de nós, por nós e para nós, e representam não apenas como pessoas políticas que nos governam, mas como membros do POVO BRASILEIRO, como nós, aos quais confiamos os nossos direitos, nossas garantias e nosso patrimônio; ou seja, se elas são corruptas, são frutos da nossa sociedade, infelizmente, ainda corrupta e “malandra”.
Fonte:                                                                                                      
Jornal “São Luís” – edição de agosto/2016
Autor: Felipe Pires Morandini
+ Pequenas modificações

Jc.
São Luís, 15/10/2016

domingo, 6 de novembro de 2016

MELANCOLIA, SERENIDADE, ELEVAÇÃO = FASES DO IDOSO





 Dedico este texto a um pai, que em grande parte está vivendo uma velhice bem vivida. Ele ainda tem que ajeitar algumas coisas, mas que não ajeite muito rápido, para não ir embora tão logo!
Eu já observei muitas pessoas próximas e não muito próximas envelhecendo, e penso poder fazer alguns relatos, tirar algumas conclusões e formular algumas hipóteses. É fato que a velhice é o caminho natural e obvio para a libertação da existência terrena, embora nem toda ela ocorra somente na velhice, colhendo as pessoas em qualquer idade, sendo esse caminho atual para todos.
Nessa libertação da existência terrena há um enfrentamento e é o momento máximo em que estamos face a face com nós mesmos, sozinhos  - porque esse ato é um ato solitário, mesmo se acontecer simultaneamente com outras pessoas. Tanto é verdade, que muitos relatos de quase-morte e outros tantos pós-morte, via mediúnica, falam do filme que se apresenta à nossa percepção, com todos os anos da nossa vivência e atos da existência inteira.
Então é um momento de suprema introspecção e a condição de idoso já começa a fazer um trabalho nesse sentido. Já pelo próprio fato de que o idoso, por mais ativo que seja (e é saudável que permaneça ativo, dentro dos limites que a idade impõe) sempre estará atuando menos no mundo, do que alguém no vigor da juventude ou da maturidade, em virtude da diminuição gradativa das forças vitais; um retirar-se lentamente do cenário social, e por isso, a mente se volta para si próprio.
Lembranças recorrentes da infância, fatos esquecidos durante a existência, saudades dos que se foram...  enquanto estávamos ainda na correria da sobrevivência, guardamos tudo isso na nossa memória, que nesta fase da existência, relaxam-se as amarras e vêm à tona muita coisa escondida de si ou que nem lembrávamos. Há também um acúmulo de dores e alegrias que constituem a bagagem emocional que se foi amontoando no decorrer dos anos: lutas, perdas, ganhos, frustações, mágoas, decepções, ingratidões; realizações, conquistas  e afetos... Isso é o que é a velhice, que se apresenta de forma mais ou menos restritiva por incapacitações ou doenças. Mas viver essa velhice é algo pessoal de cada pessoa.
Depende, em primeiro lugar, como se viveu a  existência e o que
se faz agora com o resto da existência que ainda temos. A ausência de remorsos graves é de início uma boa coisa, mas se estiverem presentes pequenos ou grandes arrependimentos, é hora de rever, refazer, pedir perdão e, sobretudo, perdoar-se, sabendo que foi o possível de ser feito e melhores ações ficarão para a próxima existência. A certeza da reencarnação nesse ponto é altamente confortadora, afinal não precisamos aprender nem nos desfazermos das nossas imperfeições, tudo de uma só vez, pois haverá outras oportunidades. Entretanto, é bom durante a presente existência, irmos logo resolvendo as pendências e desculpando e pedindo desculpas para não ficarmos devedores.
A melancolia ou a serenidade e até a depressão, levando até a  necessidade do uso de antidepressivos, depende da capacidade de resistência e superação de todo esse arsenal de mágoas e tristezas que fazem parte de todas as pessoas... de como sabermos nos elevar até o alto da montanha e enxergar tudo com uma perspectiva de eternidade, com elevação, com compaixão e com perdão. De como sabermos transformar dores e frustrações em experiências de vida, em ensinamentos que sejamos capazes de partilhar com os que amamos, de forma benevolente e sem imposições. De como tivermos aprendido (e se não aprendemos, corramos para aprender enquanto na existência) a amar com desapego e compreensão.
O fato de não querer se tornar dependente e, portanto, fazer um esforço  de se manter em pé, é também um bom antídoto para uma velhice muito degradada, tendo, porém, o cuidado para que isso não seja mais orgulho do que autoestima e a pessoa não acabe  negando que a velhice, é sim, um período de limitações e temos que aceitá-la com humildade e grandeza de alma.
Há três questões que ajudam a tranquilizar nessa fase:
1- A espiritualidade é capaz de nos fazer conectar com Deus, com a natureza, com nossos semelhantes e com nossa essência divina e  fazermos tudo o que é capaz para encher o coração de paz;
2- A sensação de continuar sendo útil, podendo ser a simples presença, um conselho, um afeto caloroso aos filhos, netos, familiares, amigos, é muito positivo, sendo melhor do que num asilo, isolado dos que ama, vivendo uma verdadeira tragédia;
3-  A música. Existem pesquisas que mostram o impacto produtivo
dessa arte nos neurônios, nas emoções e na qualidade de vida das pessoas, principalmente as músicas suaves que atingem os sentimentos; fazendo os idosos ficarem mais tranquilos e felizes.
A fragilidade física que se instala no idoso, se acompanhada por uma tristeza, por certas circunstâncias da própria velhice, e se ele se entrega a recordações amargas, a culpas e apegos, se não consegue desenvolver defesas de elevação moral, de perdão a si próprio e aos outros, de serenidade existencial e de pensamentos otimistas e recordações alegres, o desânimo e a desapego a existência, podem concorrer para abreviar a sua partida da Terra...

Fonte:
Jornal “Brasília Espirita” – nº 202
Artigo da autora: Dora Incontri
+ Pequenas modificações

Jc.
São Luís, 22/9/2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

MORTOS NA TERRA, VIVOS NA ESPIRITUALIDADE





 Bezerra de Menezes diz que, muitos dos que partem para a vida espiritual, finda a existência terrena, costumam ficar presos à matéria. Eles se encontram desencarnados, mas não libertos, invisíveis, mas não ausentes.  A oração e a leitura de uma página do Evangelho podem, sem dúvida, ajudá-los na sua nova realidade e a readaptação à vida espiritual. 
“O Evangelho Segundo o Espiritismo” nos fala de Sócrates que, da mesma forma que Jesus, nada escreveu, e como Jesus, ele teve a morte dos criminosos.  As duas últimas palavras de Sócrates aos seus algozes e juízes, foram: “Ou a morte é uma destruição absoluta, ou ela é a passagem de uma alma para outro lugar. Se ela é apenas uma mudança de morada, que felicidade será nela reencontrar aqueles que se conheceu a amamos”.
Nenhum sofrimento na Terra será comparado ao daquele ente que observa outro ente querido, sem vida, em grande silêncio. Entretanto, quando essa provação nos bate à porta, devemos reprimir o desespero e a mágoa, porque sabemos que os chamados “mortos”, são apenas ausentes na Terra, por viverem na Espiritualidade. Essa nova concepção da vida da alma, liberta o ser humano do medo da morte, dando-lhe uma nova compreensão e substitui na mente e no coração das pessoas, o velho temor e a antiga revolta contra as Leis naturais de Deus. O discípulo Paulo, em sua primeira epístola aos Coríntios, diz: “Planta-se o corruptível e nasce o incorruptível; enterra-se o corpo material e aparece a alma espiritual”.
Durante séculos, a morte era lembrada com o chamado “luto”, ou seja, até um ano depois do desenlace, a família vestia-se de preto. Quando alguém se encontrava com uma pessoa com tais trajes, se lhe dava os pêsames e rememorava-se a triste situação. Entretanto, Jesus sempre se referiu à morte como algo natural, como se fora um sono para despertar depois, em uma situação mais feliz; e chamava a atenção para a superioridade da alma – Espírito encarnado – que é eterna, sobre o corpo por ela usado em cada existência e abandonado como roupa velha que não lhe serve mais, e completa dizendo: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” - Mateus, Cap.11 vr. 28
Emánuel nos diz:  “Ante os que partiram na grande jornada, não permitas que o desespero tome conta do seu coração. Eles estão vivos e compartilham as suas aflições. Efetua por eles o bem que poderiam fazer e contempla os céus que nos falam da união sem adeus e ouvirás a voz deles no coração, a dizer-lhes que caminham felizes, em plena imortalidade.Tenham a certeza de que Deus que nos criou para nos amarmos mutuamente, jamais nos separaria  para sempre...”.
Essa é a fé que a Doutrina dos Espíritos ensina e conforta seus adeptos.
Jc.
São Luís,  2/11/2016

domingo, 30 de outubro de 2016

A EDUCAÇÃO E A INSTRUÇÃO






  É preciso não confundir a Educação com a Instrução.  A educação abrange a instrução, mas pode haver instrução sem a competente educação.  A Educação desenvolve os poderes do Espírito, não só na aquisição do saber, como também na formação e consolidação do caráter. A instrução, portanto, faz parte da educação, por isso é que se refere aos meios e processos empregados no sentido de orientar o ser humano, na aquisição de conhecimentos e de disciplinas.
A Instrução significa ilustrar a mente com conhecimentos sobre um ou vários ramos de atividades. O intelectualismo não supre o cultivo dos sentimentos. “Não basta ter coração; é preciso ter bom coração”, disse Hilário Ribeiro, educador emérito cuja competência pedagógica estava na altura da modéstia e da simplicidade que adornava seu Espírito.
“Não esperemos que os professores consertem as falhas na educação de nossos filhos. Em casa, devemos ensinar nossos filhos a: Cumprimentar, falar obrigado, ser limpo, ser honesto, ser correto, ser pontual, falar bem, não xingar, ser solidário, respeitar  as pessoas, mastigar com a boca fechada, não roubar, não mentir, ser organizado, cuidar das próprias coisas e das coisas dos outros. Na escola, se aprende: Artes, biologia, ciências, filosofia, física, geografia, gramática, história, línguas, literatura, matemática, português, química, sociologia, e é onde são reforçados os valores que os pais devem ensinar aos seus filhos”,  informa Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai.
Educação e instrução, razão e coração devem marchar unidos na obra da perfeição do Espírito, pois em tal importa o senso da existência.  Descurar a aprendizagem da virtude, deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência, é erro de funestas consequências. Não há muito tempo, o presidente dos Estados Unidos citou um julgamento da “Suprema Corte de Justiça” de Massachusetts, no qual, entre outros princípios, foi anunciado de que “o poder intelectual só e a formação científica, sem integridade de caráter, podem ser mais prejudiciais que a ignorância. A inteligência superior instruída, aliada ao desprezo das virtudes fundamentais, constitui uma ameaça”.
Convém acentuar que a consciência religiosa corresponde, neste particular, ao fator principal na formação dos caracteres. A expressão –consciência religiosa – ao invés de religião, para  que não se confundam as ideias. Religião há muitas, mas a consciência religiosa é uma só. Por essa designação entendemos o império interior da moral pura e imutável  ensinada e exemplificada por Jesus. A consciência religiosa importa em um modo de ser, e não em um modo de crer.
É possível que alguém objete: mas, a moral cristã é tão velha, e nada tem produzido de eficiente na reforma dos costumes.  É         verdade, mas não pode ser velho aquilo que não foi usado. A moral cristã é, em sua pureza e em sua essência, desconhecida da Humanidade. Sua atuação ainda não se fez sentir nas pessoas. O que se entende por Cristianismo é a sua contrafação. Dessa moral cristã é que está dependendo a felicidade humana sob todos os aspectos. O intelectualismo, não vai resolver os problemas sociais existentes no mundo.
Jesus apresentou-se perante a Humanidade, como Mestre e Salvador, ao dizer: “Eu sou o vosso mestre”. Daí, por que Jesus arrogou a si a denominação de Mestre, considerando aqueles que o acompanhavam e todos que seguissem os seus ensinamentos, como seus discípulos. A missão de Jesus é precisamente comprovar aquele asserto, vencer os obstáculos conquistando  a Humanidade. Essa obra,  sendo  de  redenção divina, porque visa libertar o ser humano dos liames que o predem a animalidade, cujos vestígios, nele, são patentes, é portanto, uma obra de educação. Jesus veio nos trazer a verdade e fez tudo quanto lhe competia fazer para o cabal desempenho dessa missão que o Pai lhe confiara, mesmo com o sacrifício de sua existência terrena.
Quanto aos compromissos que veio desempenhar neste mundo, nós o vemos claramente através das atitudes que ele assumiu na sociedade terrena. Que fez Jesus? Começou reunindo algumas pessoas simples, arrebanhadas das camadas humildes, e lhes foi ministrando lições e ensinos por meio de singelas parábolas, prédicas e discursos vazados em linguagem popular, cimentando com exemplos edificantes tudo o que transmitia. A novidade da sua escola consistia sempre na divulgação destes princípios: Todos os seres humanos são filhos de Deus; porque todos têm a mesma origem. Da paternidade divina, decorre a fraternidade humana, isto é, todos os seres humanos são irmãos. Portanto, devem amar-se reciprocamente agindo em tudo segundo a lei de solidariedade.
O mestre não fornece instrução: mostra como ela é obtida. Ao discípulo cumpre empregar o processo mediante o qual adquirirá a instrução. Ao mestre compete ainda dirigir e orientaras forças do discípulo, colocando-o em condições de agir por si mesmo na conquista do saber. Resta, portanto, que o ser humano, o discípulo, faça a sua parte para entrar na posse da verdade, essa luz que ilumina a mente, consolida o caráter e aperfeiçoa os sentimentos. Os que deixarem de preencher essa condição, continuam nas trevas, na ignorância, e nelas permanecerão até que peçam e procurem por essa luz.
Jesus veio nos trazer a redenção. É por isso nosso Salvador. Mas só redime aqueles que amam a liberdade e a luz e se esforçam por alcançá-la. Os que se comprazem na servidão das paixões e dos vícios não têm em Jesus um salvador. Continuarão como escravos até que compreendam a situação  em que se encontram, e almejem conquistar a liberdade.
A redenção, como a educação, é obra que se realiza gradativamente no transcurso eterno da vida; não é obra miraculosa que se realiza num dado momento ou numa única existência. O papel que cabe ao mestre é instruir e educar. Entendemos por educação o desenvolvimento dos poderes psíquicos que todos possuímos em estado latente, como herança havida D’aquele de quem todos nós procedemos. Pestalozzi define assim a matéria ora em apreço, dizendo o seguinte: “Educação é o desenvolvimento harmônico das faculdades do indivíduo.” Ao cultivarmos, esta ou aquela faculdade do Espírito, não devemos desdenhar as demais.
Verifica-se em geral, por parte dos pais, uma grande preocupação – até certo ponto louvável – sobre a educação dos filhos no que diz respeito á inteligência. Querem vê-los com um pergaminho, aureolados por um título que os habilite ao exercício duma profissão, a qual, não só lhes assegure a independência econômica – o quê importa em justa aspiração - mais ainda a riqueza, fama e glória.  O futuro da prole é visto desse prisma utilitário e vaidoso. Antes de tudo, os pais devem cuidar da educação moral dos filhos, deixando às inclinações e vocações de cada um, a escolha da sua profissão.
Há evidentemente uma ilusão nessa maneira de ver e proceder, porque, nós os pais, somos vítimas do egoísmo com que  nascemos. Queremos vê-los com o diploma e alvo de aplausos e louvores, dando-nos a falsa ideia de havermos cumprido perfeitamente o nosso dever com relação àqueles que a providência Divina nos confiou para orientá-los na sua caminhada pela estrada da existência. Não cogitamos do que concerne às qualidades morais, à formação e consolidação do caráter, em fazê-lo homem de bem, caridoso e honesto, com aquele mesmo interesse e afã que empregamos na ilustração do seu intelecto.  Preocupamo-nos muito mais com o cérebro do que com o coração. Fazemos tudo para enriquecê-lo de bens materiais, deixando-os, às vezes, pobres de valores morais e de sentimentos.
O que se dá é que geralmente se imagina que o ser bom, justo e verdadeiro, o ser sincero e amável não requer aprendizagem. Supomos que tudo isso seja coisa tão natural e comezinha que não constitui matéria que deve ser ensinada! Imagina-se que essa parte da educação, incontestavelmente a mais excelente,  há de efetuar-se por si mesma, à revelia de cuidados, que são dispensados a outras modalidades de educação.
Tal é o grande erro generalizado que é preciso corrigir. A ideia de geração espontânea é quimérica. Do nada, nada se tira... Tudo o que germina, germina de uma semente. Tudo que envolve, envolve dum germe ou embrião. Não podemos esperar que aflore na alma da mocidade, qualidades nobres e elevadas sem que, antes, tenhamos feito ali uma sementeira.
Todos os problemas do momento atual se resumem em uma questão de caráter: só pela educação podem ser solucionados. Demasiada importância se dá às várias modalidades do saber, esquecendo-se do principal, que é a ciência do bem. A crise em que se encontra o mundo é a crise de caráter, responsável por todas as outras crises. O momento atual reclama a ação de homens honestos, escrupulosos, possuídos do espírito de justiça e cientes das suas responsabilidades. Temos vivido sob o despotismo da inteligência, porém, devemos sacudir-lhe o jugo fascinador, proclamando o reinado do caráter, o império da consciência, da moral e dos sentimentos nobres.
Honestidade, espírito de justiça, noções do dever são como as artes, virtudes que se adquirem tal como é adquirido o saber neste ou naquele ramo de atividades. Tudo na existência depende de estudo, aprendizado, constância, experiência e trabalho. A sementeira do bem e da verdade, da justiça e do amor, nunca se perde. A obra da redenção humana é obra de educação, e Jesus é o divino educador...
A retórica deixou aos Tullios e aos D        emóstenes; a filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as matemáticas aos Ptolomeus e aos Euclides;  a medicina aos Apolos e aos Esculápios; e ainda, a jurisprudência aos Eolões e aos Licurgos; e para si, Jesus tomou só a ciência de tornar bons e salvar os seres humanos.
Fonte:
Livro “O Mestre na Educação”
Autor: Pedro de Camargo (Vinícius)
+ Pequenas modificações.                  

Jc.
São Luís, 22/8/2016





A LÍNGUA "ESPERANTO"





 Havia já três séculos que muitos sábios de primeira grandeza, como Comenius e Descartes, se preocupavam com a criação de uma língua internacional, para uso de todos os povos, e chegaram a idealizá-la muito bem: Deveria ser neutra, para não despertar ciúmes nacionais; ser fácil, para que todos pudessem aprendê-la perfeitamente. Quando chegou o momento marcado pela vontade do Altíssimo, surgiu a pessoa de Lázaro Luís Zamenhof que criou a língua Esperanto, para esperança da comunicação dos povos e que vem crescendo no mundo inteiro.
Zamenhof nasceu em Bialystok, na Polônia Russa, em 15 de dezembro de 1859. Era filho de Rosália e Marcos Zamenhof,  professor de geografia e línguas. Iniciou  em sua cidade natal o curso ginasial em 1869. O menino revelou-se uma criança pensativa e muito inteligente. O seu pai notou nele grande interesse em relação a idiomas e começou desde cedo, a dar-lhe lições e a exercitá-lo em línguas, percebendo que o aprendizado se fazia com muita facilidade. Na cidade (Varsóvia), eram quatro comunidades, 4 religiões, 4 alfabetos e 4 ódios, e o menino sofreu dolorosamente, pois o simples fato de alguém exprimir-se, já lhe conferia um rótulo, pelo qual  iria receber solidariedade ou desprezo. Assim, ele começou a sonhar e a idealizar uma língua mais simples, mais conveniente, para o uso atual. Ela deveria ser de aprendizagem rápida e acessível também ao povo e não apenas aos letrados.
Só depois de experimentos exaustivos e comprovações minuciosas com os estudos da gramática e vocabulários intensamente vividos e testados, foi que considerou pronta sua obra. Restava ainda um último detalhe: Como publicá-la,  se sua situação financeira era precária? De onde viriam os recursos? Um auxílio surgiu de onde ele menos esperava. Ao  conhecer Clara Silbernik, de Kovno. Seu futuro sogro, homem afeito à cultura, pai da senhorita Clara, com quem Lázaro acabaria casando-se, financiou  a publicação da obra, saindo da oficina gráfica o primeiro livro, em 26 de julho de 1887.
Era uma gramática com as instruções em russo e chamava-se: “LINGVO INTERNACIA”, O livro que contou com o apoio do grande escritor russo, Leon Tolstoi, saiu inicialmente em russo, depois em polonês Esse pseudônimo que na nova língua significava “DOUTOR QUE TEM ESPERANÇA”, com o decorrer do tempo, passou a ser usado por seus aprendizes, para denominar a própria língua: ESPERANTO,  contendo um prefácio, o alfabeto, as 16 regras gramaticais.
Os sofredores, particularmente aqueles que sofriam da cegueira, dedicavam uma grande veneração pelo bondoso oftalmologista de Varsóvia, ramo da Medicina em que Lázaro se especializou, e quando ele visitou Cambridge, para os festejos do 3º Congresso Mundial de Esperanto, se encontrou com muitos cegos esperantistas provenientes de outros países, todos alojados numa mansão ás custas de outro grande pioneiro esperantista, Theófile Cart. Zamenhof cumprimentou a cada um,  encorajando todos ao otimismo e recebeu ardorosos agradecimentos pelo idioma que lhes proporcionava uma claridade em seu mundo sem luz. Mas os cegos lhe pediram outro privilégio: queriam tocá-lo com as mãos e conhecer melhor aquele que nunca poderiam ver, e suas mãos que, de forma extraordinária traduziam pensamentos e emoções, tocaram respeitosamente o corpo pequeno e frágil, a barba, os óculos de lentes ovais e a cabeça calva do genial missionário polonês. Zamenhof,  emocionado se lembrou  da ocupação alemã, no ano de 1914, quando ele  muito abalado com a guerra mundial, pensou nas crianças judias cujos olhos foram vazados, na cidade natal de Bialystok.
Em Varsóvia, ele adquiriu uma doença cardíaca que foi se agravando e, no dia 14 de abril de 1917, com apenas 57 anos de idade, partiu para a pátria espiritual. No enterro do seu corpo, estiveram presentes os esperantistas de Varsóvia e de outros lugares e a população pobre do bairro judeu que ele tanto ajudou. Deixou sua esposa viúva e três filhos, todos mortos pelos nazistas em 1940. O seu corpo repousa no cemitério  israelita de Varsóvia, juntamente com o de Clara, amor de toda sua existência e sua incansável colaboradora...
Deus escolheu Lázaro Luís Zamenhof e o designou como missionário, para criar um idioma que vai dar fim a “Torre de Babel”, existente ainda no mundo, criando a fraternidade entre os povos, e, irmanando todos, por meio de uma língua única, que será falada e compreendida futuramente por todos os habitantes da Terra.  Atualmente ela é falada e usada como segunda língua em muitos países e já faz parte das línguas falada na Organização das Nações Unidas. Aqui no Brasil, ela é falada, ensinada e divulgada, nos meios espíritas e nos Congressos Espíritas que são realizados em várias partes do mundo, com a participação de muitos brasileiros.
O Esperanto não é uma língua estrangeira, como o inglês, o russo, o alemão, ou o chinês; ela é a língua neutra e comum a todos os povos. As línguas nacionais dividem os povos, formando a torre de Babel da lenda bíblica.  O Esperanto, ao contrário, une os povos em uma família mundial. Por isso, os Guias Espirituais não deixam de nos recomendar que façamos o aprendizado, o cultivo e a divulgação dessa língua internacional; o Esperanto.
Por graça de Deus, o Esperanto já é uma das línguas oficial na O.N.U., e já temos os livros espíritas publicados nessa língua, que estão iniciando sua missão no mundo, aproximando as pessoas de todos os povos e fazendo a unidade religiosa, porque  seus ensinos  são universais e eternos. Isso pode demorar ainda um pouco, devido á resistência em muitos países, embora funcione como uma segunda língua e não em substituição a língua do país, mas o tempo não conta diante a eternidade e os desígnios divinos.
O livro espírita em Esperanto é lido por espíritas e idealistas de todos os países, e é traduzido para outras línguas, porque ela é a língua-ponte mais fácil de comunicação para  os povos de todas as partes do mundo.  Aqueles que já aprenderam a língua e fazem uso dela, sempre estão a divulgá-la. Convidamos todos a conhecê-la e verão como é fácil, pois somente três meses serão necessários para aprendê-la...
Para conseguir os livros necessários ao aprendizado da língua, basta entrar em contato com o Departamento Gráfico da FEB,  Rua Souza Valente 17- Tel.21 3078-4747 cep.20941-040 – Rio de Janeiro – RJ. - Brasil   Ou na Federação Espírita Brasileira – Avenida L-2 Norte – Quadra 603 Conjunto F – Cep. 70830-030  Tel. 61 2101- 6161 - Brasília – D.F. – Brasil.

Jc
São Luís, 5/9/2016

domingo, 23 de outubro de 2016

NÃO DEVEMOS JULGAR NINGUÉM





 “Não julgueis para que também não sejais julgados; porquanto  com a medida com que julgardes, também sereis julgados”.    Jesus
Recentemente tomamos conhecimento  de um artigo, em que era alegado que os espíritas, quando no conselho de sentença, costumam absolver sistematicamente os réus.
Ignoramos se realmente tem sido essa a norma de conduta dos espíritas no Juri. Quanto a mim, declaro que, todas as vezes que servi como jurado, absolvi  e disso não estou arrependido. Por isso, que entendemos, em consciência, que muitos réus deviam ser absolvidos. No entanto, não pretendemos firmar a doutrina da absolvição incondicional.
Casos há em que, para evitar um mal maior, seria lícito votar de modo a conservar o acusado prezo, dadas as suas condições de perigo para a segurança dos demais. Assim procedendo, não estaremos julgando, mas acautelando a coletividade da qual somos parte integrante. Demais, quem são os criminosos  senão anormais, desequilibrados, enfermos da alma, numa palavra. Faça-se, portanto, com eles o que se faz com os doentes de moléstias infectuosas: devemos segregá-los da sociedade a fim de evitar o mal maior que possa fazer.
Esta medida é razoável, é humana, porque não há outra a tomar, uma vez que se preste aos segregados a devida assistência reclamada pelas suas condições, pois não há direitos sem deveres. Se a sociedade tem o direito de separar os doentes dos sãos, cumpre-lhe e dever de assisti-los.
Não é o criminoso que se deve combater: é o crime em suas várias formas, de acordo com a medicina que não combate o enfermo, mas a enfermidade, suas causas e origens. Enquanto a questão não for encarada sob esse prisma, o crime continuará a proliferar, perturbando a ordem e a paz da sociedade. Julgar? Quem somos nós para julgar nossos irmãos, se somos réus no tribunal de nossas consciências? Fazê-lo em nome da sociedade? Pois é a sociedade mesma  tal como está constituída, a responsável por grande parte dos crimes que em seu seio se cometem. As piores doenças são fruto do ambiente. Quando o meio é miasmático e deletério, as enfermidades se alastram, tornando-se elas, endêmicas. Tal é a nossa sociedade. A reincidência do crime é efeito da hipocrisia  e da materialidade reinantes no século.
O código pelo qual se regem as nações, ditas cristãs e civilizadas, precisa ser reformulado, pois, esse código, cogita exclusivamente da aplicação de penas, quando deveria tratar de curar a alma. A forca, a guilhotina e a Cadeira elétrica não resolvem o problema em questão, como atestam as estatísticas de criminalidade dos países onde aquelas penalidades vigoram. Eliminar a existência física do criminoso não lhe modifica o caráter, não lhe altera nada no seu nível moral. Não é ao corpo, mas é ao Espírito que cabe a responsabilidade pelos atos delituosos. Despertar-lhe a consciência, elevar o grau de sua sensibilidade moral, eis o único processo eficiente no tratamento de tais enfermidades. Esse processo chama-se  educação.
A sociedade viverá sempre às voltas com os delinquentes, enquanto não cumprir o dever que lhe assiste de educá-                                                              los. Até aqui, a sociedade baseando-se no parecer de criminólogos materialistas, invoca apenas o direito de punir, e por isso ela também vai sendo punida. Há de suportar as consequências do seu erro até que entenda que deve se modificar.
A Doutrina Espírita vem ensinar a Humanidade a reger-se não mais pelo código judeu ou romano, mas pelo código divino que reflete a justiça que ampara e a soberana vontade do Céu!  Ela também nos recomenda, como Jesus, que não julguemos, porque o julgamento que fizermos nos será aplicado mais severamente ainda, porque eles não conhecem a Deus e por isso lhes será pedido menos que vós que sabeis as suas leis. Não sabeis que há muitas ações que o mundo não considera sequer como faltas leves e que aos olhos de Deus são crimes? Deus permite que alguns criminosos estejam entre vós, a fim de que vos sirvam de ensinamento.
Quando os homens forem conduzidos às leis de Deus, não haverá mais necessidades desses ensinamentos, e todos os que permanecerem impuros e revoltados serão dispersados nos mundos inferiores, de acordo com as suas tendências. Que diria Jesus se visse um infeliz desses perto de si? Lamentá-lo-ia, e veria como um doente bem miserável, e lhe estenderia a mão. Ainda não podemos fazer isso em realidade, mas, pelo menos, podemos fazer uma oração por ele. O arrependimento pode tocar-lhe o coração, se orardes com fé. Ele é vosso irmão e sua alma transviada e revoltada necessita se aperfeiçoar; ajude-o, pois, a sair dessa situação, orando por ele. Triunfareis se a caridade vos inspirar e se a sua fé sustentar...
Se o amor ao próximo é o princípio da caridade, amar aqueles  que ainda permanecem na escuridão, é sua aplicação sublime,  porque esta é uma das maiores vitórias sobre a ignorância, o egoísmo e a maldade.  Ninguém sendo perfeito, tem o direito de julgar o seu próximo!

Fonte:
Livro: “O Mestre na Educação”
Autor: Pedro de Camargo (Vinicius)
Livro: “O Evangelho Segundo o Espiritismo”

Jc.
São Luís, 25/8/2016

FOLHAS ESPARSAS - 2ª Parte





 Querer é Poder?  A sentença goza de há muito, de foros de provérbio consumado. Mas, exprimirá de fato uma verdade?  Eis a questão. A nossa ver, empregaríamos o verbo saber em lugar do verbo querer, e diríamos, então: Saber é poder. Esta máxima e uma verdade absoluta.
Aquele que sabe pode, porém o que ignora não pode, ainda que queira. Há muita gente que procura com afinco realizar seu “querer”, por qualquer meio, desprezando precisamente o processo seguro do êxito: o saber. Daí os fracassos, o desânimo, a descrença e o pessimismo de muitos.
Jesus apresentou-se ao mundo no caráter de mestre, e, como tal, teve discípulos. Sua missão era educadora. Ser cristão é matricular-se nessa escola e aprender com ele a ciência do bem e da verdade. Instruir-vos, moralizai-vos; tal é o lema que se deveria gravar no pórtico dos modernos templos cristãos. “Pedis e não recebeis: não recebeis porque não sabeis pedir”, disse o Mestre. A questão, pois, é de saber.  Saber é poder, repetimos; aquele que sabe, pode.
Mãe.  Donde virá a magia que esse nome encerra? Mãe!...  Porque será que, somente ao pronunciá-lo, um sentimento profundo e santo de respeito nos invade a alma? Donde lhe vem o culto que se lhe presta e a homenagem que lhe rendem todos, mesmos aqueles cujos caracteres ainda se ressentem de graves senões? Porque será que a simples palavra  -- mãe, tão singela, tão humilde, que só três letras requer, tem o privilégio maravilhoso  de fazer vibrar os sentimentos mais nobres, por mais embotados que estes estejam?
O que há nesse nome de extraordinário não está  nas letras, mas no sentimento que ele inspira. Mãe quer dizer abnegação, afeto, desvelo, carinho, renúncia, sacrifício, -- amor numa palavra. Daí a origem de sua fascinação, de seu prestígio, de sua força e encanto.
Ser mão não se resume ao fenômeno fisiológico da maternidade. Ser mãe é possuir aquelas virtudes, e proceder em tudo consoante o influxo que das mesmas deriva. A legitimidade do título vem, pois, da moral e não do físico, da alma e não do corpo. Há mulheres que geram filhos sem jamais se tornarem mães. Outras há que são mães de filhos que nunca tiveram, a exemplo de Maria que passou a ser mãe de João, e este, seu filho, por indicação de Jesus.
As Três Afirmativas de Jesus.  Eu Sou o Caminho, porque já fiz o percurso que ainda não fizestes; posso, portanto, ser, como de fato sou vosso guia, vosso roteiro, vosso mestre. Ninguém vos poderá  conduzir ou orientar senão eu mesmo, porque nenhum outro, de todos os que vieram à Terra, jamais fez o trajeto que conduz ao Pai. Por isso vos digo: ninguém realiza os eternos destinos, senão me acompanhando e seguindo as minhas pegadas.
Sou a Verdade, porque não fale de mim mesmo,  não fantasio como fazem os homens que buscam seus próprios interesses e sua própria glória; só falo o que ouvi e aprendi com o Pai, agindo como seu oráculo, como seu verbo encarnado.
Sou a Vida, porque sou ressurgido, dominei a matéria, sou imortal, tenho vida em mim mesmo. Não sou como os homens cuja existência efêmera e instável depende de circunstâncias externas.
Nem Frio Nem Quente.  É do educador Hilário Ribeiro esta sentença bem sugestiva:  “Não basta ter coração, é preciso ter bom coração.”  Tal pensamento sugere outro, ainda que menos poético: “Não basta deixar o mal; é preciso fazer o bem.”
Há pessoas cuja existência, não oferecendo margem  para qualquer censura, não deixa também transparecer o mínimo vestígio de abnegação, de coragem ou de altruísmo. Tudo nesses homens obedece a um cálculo prévio e seguro. Seus atos são medidos, suas palavras destituídas de arroubo; são serenas como o arrulhar das rolas. Seus gestos são como o movimento de um pêndulo. Agem em tudo e por tudo consoante um programa preestabelecido, e de acordo com certo interesse vital de seu foro íntimo.
Outros homens há que são o reverso da medalha, isto é, em cuja existência se notam várias lacunas, em cujos procedimentos há falhas  sensíveis, mas ao lado desses senões, se descobrem rasgos sublimes de generosidade, traços de coragem, atitudes de heroísmo e exemplos de bondade que edificam.
Os primeiros são incapazes  de fazer o mal, como são incapazes de fazer o bem. Os segundos são capazes, tanto de fazer o mal como o bem. No entanto, podemos dizer, sem receio de errar, que estes últimos estão mais perto de Deus e da sua justiça, que os primeiros. A mensagem do anjo revelador do Apocalipse reza o seguinte: “Sei as tuas obras; já vi que não és frio ou quente. Oxalá fosse frio ou quente; mas és morno.”  Há homens que não são nem frio nem quentes, são também mornos. O caráter morno ou medíocre dificilmente se modifica. Trás as cordas do sentimento frouxas como aqueles dois clérigos da Parábola do Bom Samaritano, passando ao largo do viajor espoliado e ferido que jazia à beira da estrada.
O caráter ardente é capaz de transformações e grandes surtos de progresso. É o que se verifica com o convertido de Damasco. Quando Saulo era fanático, e, como tal, capaz das maiores iniquidades, foi convertido e como Paulo, revelou-se um herói na defesa da verdade, um mártir na propaganda da nova fé abraçada.
Maria de Magdala é outro exemplo de nossa asserção.  Era uma mulher de costumes dissolutos, uma pecadora; porém possuía um coração ardente, cujas fibras vibravam intensamente. Daí a sua transformação súbita, chegando a merecer as simpatias do Mestre. Por que se deu aquela radical mudança? Porque se tratava de uma alma vibrante, de um coração sensível capaz de se inflamar ao primeiro convite do Céu.
 A Túnica Inconsútil.  A túnica usada por Jesus era inconsútil: não tinha costuras. Vemos nessa veste do Senhor um símbolo que se aplica à sua Doutrina. O Cristianismo é um corpo doutrinário sem remendos, sem peças justapostas. É um todo  harmônico, inteiriço, perfeito. A moral de Jesus não tem aspectos divergentes, não tem ambiguidades, não tem contradições. É uma moral pura, sã, completa, imaculada. Ele não emitiu sons discordantes, não enunciou frases dúbias, não articulou palavras ocas, não produziu coisas confusas. Foi claro, conciso, positivo e firme.
Donde vêm, então, as intermináveis cisões entre os credos que militam e dizem participar do Cristianismo? De onde parte essa confusão, existente no seio dessas igrejas, que se dizem cristãs, adotando doutrinas e princípios que não foram ensinados por Jesus? Donde vem essa rivalidade entre aqueles que deveriam ser exemplos de cordura, de harmonia e paz? Certamente a rivalidade, a confusão, vem da ignorância, do orgulho e do preconceito dessas igrejas que do Cristianismo, adotaram somente o título. Tem origem na ambição, no egoísmo do ser humano que tudo procura amoldar às exigências insaciáveis de seus mesquinhos interesses.
Enquanto as religiões continuam a se degladiarem, querendo cada uma se sobrepor as outras, estarão com isso,  demonstrando não haverem atingido o ideal sublime  da religião do amor. A túnica do príncipe da paz, não tem costuras, sendo o símbolo da união integral e perfeita, e a imagem da harmonia e confraternização irmanando os seres humanos numa só e única família.
A Luz de Todos os Tempos.  Em tempos idos, usava-se para iluminação o azeite recolhido em recipientes desengonçados aos quais de dava o nome de candeeiro. A luz que dele se irradiava  era fumegante, baça e fétida. Impregnava  a atmosfera de fumo e de odor nauseabundo. Mais tarde, passou-se a empregar para o mesmo fim o querosene do petróleo. Os lampiões, aparelhos elegantes possuíam melhoramentos apreciáveis como a mecânica destinada a graduar a chama; substituiu os candeeiros.
Descobriu-se depois, no correr do tempo, o processo de extrair do carvão de pedra o carbureto de hidrogênio que substituiu o petróleo, e foi empregado tanto na iluminação pública como residencial. Mas ainda não era tudo. O mundo continuou marchando na conquista do melhor. Aparece, finalmente, a eletricidade destronando o gás. A luz desta sobrepujou com vantagens indiscutíveis:  Era clara, límpida, inócua, e inodora. O gás foi relegado por sua vez. A eletricidade passou a ser o sol de nossas noites.
Ora, se em matéria de luz artificial se verifica um progresso contínuo, sucedendo-se os sistemas numa ascensão  para melhor, não há de suceder o mesmo no que respeita à luz espiritual? Se iluminar o interior não será, por acaso, um problema mais sério e mais importante que iluminar o exterior? Afastar as trevas do cérebro e do coração não será trabalho mais valioso que afastar as trevas que nos envolvem por fora? Como então descuidar da conquista do melhor, no gênero de luz espiritual, se tudo foi feito para alcançar o melhor no gênero de luz material? Se, deixamos o azeite pelo petróleo, desde para o gás e depois pela eletricidade, por que então não fazer o mesmo com relação aos velhos dogmas  que herdamos dos nossos antepassados?
Que a Humanidade tateia na tenebrosa escuridão da ignorância, do vício e do crime, quem ousará negá-lo? Por que fazer tudo pela luz que perece, e nada, ou quase nada, pela luz que vivifica? Volvamos, portanto, nossas atenções para a luz espiritual; busquemo-la, com o interesse de quem se acha no escuro, e que tem necessidade da luz de verdade, e seremos saciados.
Devemos nos desvencilhar dos dogmas arcaicos, dos preconceitos
e da crendice boba, das atitudes dúbias e hipócritas, das mentiras convencionais  e procuremos  obter uma luz cada vez mais intensa e brilhante, para iluminar nossa existência e nossa vida espiritual.
Evolução. A vida é sempre vida seja qual for á forma através da qual se oculte. Já existi como pedra, já vivi como  planta, hoje vivo como homem, amanhã viverei como espírito, e, no futuro, viverei como anjo. Vim do pequeno, caminho para o grande. Se vivo agora é porque vivi outrora e viverei para sempre.
Se noutras épocas eu tive outro nome, pertenci a outras famílias, habitei outras cidades, fui diferente, que importa? Eu nasci, senti, pensei, sofri, gozei, amei, tal como faço atualmente. Perdi minha individualidade? Não!  Minha individualidade é o meu ser, o meu “eu”, sede da minha inteligência, da minha razão, da minha consciência e dos meus sentimentos como espírito que sou. O que perdi outrora, não foi minha individualidade, mas a aparência e a veste com que então me servi no corpo físico.
Nesta nova existência, a minha aparência já se modificou. Casos há em que os pais desconhecem os filhos quando ausentes por muito tempo, tais as mudanças operadas em seu físico. Basta que permaneçam, por muito tempo, separados de nós para que notemos profundas alterações em seu exterior. A vida é a manifestação da vontade suprema de Deus; ela é instável enquanto se apresenta em aspectos materiais; é eterna quando, ressurgindo da carne, se perpetua como Espírito.
Negar a imortalidade é negar a própria existência. Se eu vivo, como não viverei depois? Mas e a morte? Se a morte tem poder para me destruir, como se explica eu ter morrido muitas vezes e não ter, contudo, sido aniquilado? Dirão os que não acreditam na imortalidade, que eu estou delirando!  Pois bem, expliquem-me, então, como é que trago e conservo comigo lembranças do meu passado? Tudo o que vive, viveu e viverá novamente; morrer é libertar-se do corpo físico e passar de um estado para outro; é despir uma forma (veste) para revestir outra, subindo de uma escala inferior para outra superior. “Nascer, viver, morrer, renascer ainda, progredindo sempre, tal é a Lei”.
Salvar é Educar.  Jesus é o Mestre, e como tal veio ao mundo educar a Humanidade para salvar o homem, através da educação. Imaginar-se a obra da salvação, separada da educação, é utopia dogmática incompatível com a orientação de Jesus.
Ser cristão não é uma questão de modo de crer: é uma questão de caráter. Não é o batismo, nem a filiação a uma religião que faz o cristão; mas o caráter íntegro, firme e consolidado no trabalho de autoeducação e de amor ao próximo.  A sociedade contemporânea necessita de uma força purificadora que a levante da degradação e do caos em que se encontra. Essa força deve atuar de dentro para fora, do interior para o exterior melhorando os sentimentos, despertando a razão e a consciência moral dos seres humanos. Tudo o mais são paliativos, quimeras, que jamais resolverão os graves problemas do momento atual.
O Cristianismo puro, tal como Jesus pregou e exemplificou, será a força que há de reformar a sociedade agindo nos corações e nos lares. É do coração renovado, é do lar convertido em templo de luz e de amor que surgirá a aurora de uma nova sociedade para a Humanidade. . .
O Bom Senso.   O pedreiro no desempenho do seu labor lança mão do prumo e do nível; o navegante tem os olhos na bússola que lhe dirige o caminho. Manejando o leme, aparelho simples e de pouca aparência, o timoneiro imprime a direção singrando a imensidão dos mares. Graças aos movimentos do pêndulo, os relógios marcam, com exatidão, as horas do tempo.
Da mesma sorte, existe algo no ser humano que orienta seus passos, que determina a natureza de sua conduta, que regula seus passos, suas palavras e seus sentimentos: é o bom senso. Sem esse predicado, tão modesto que qualquer pessoa pode possuir, o ser humano é o pedreiro sem prumo e nível,  o barco sem leme,  o navegante sem bússola e o relógio sem o pêndulo. O bom senso  é que valoriza as qualidades do espírito. Que valor tem a inteligência, o saber e a erudição, sem uma dose, ao menos, de bom senso?
Por que há pessoas que ganham pouco e vivem bem, enquanto outras ganham muito e vivem mal?  É porque aquelas têm, e estas não têm o bom senso necessário para equilibrar a receita com a despesa. A própria fé, despida do bom senso, ao invés de elevar o crente aos paramos da luz, precipita-o nas confusões do fanatismo.
A capacidade de ajuizar e discernir com acerto, o critério, o bom senso, em suma, é um predicado suscetível  de ser desenvolvido como qualquer outro, dependendo da educação do nosso espírito. O que denominamos inteligência, razão, consciência, vontade, bom senso, etc., não passa em realidade, de manifestações do espírito, que é tudo no ser humano. A Doutrina dos Espíritos, restaurando o verdadeiro Cristianismo, é a religião do Espírito. Flammarion, apelidando Allan Kardec de “bom senso encarnado”, falou como um verdadeiro profeta.
Os Filhos de Deus.  A qualidade de filho pressupõe a de herdeiro. Os filhos herdam dos pais; herdam em todo sentido: -- moral e material. Do físico, herdam traços fisiológicos que recordam os pais. Da moral, pela convivência, pela educação e pelo exemplo, herdam predicados e virtudes. É por isso que certas crianças, logo à primeira vista, despertam nas outras pessoas a lembrança de seus pais. Essa aparência, às vezes, acha-se tão em harmonia com o astral dos pais que parece fundir-se na figura do filho.
Segunda a palavra evangélica, o ser humano torna-se filho de Deus somente depois que aceita e põe em prática a moral divina revelada por Jesus. Deus é Espírito, e em espírito e verdade deve ser evocado. Como pode, portanto, o homem ser filho de Deus sem que reflita a imagem espiritual do Pai? Como pode ser filho de Deus se ainda não herdou os predicados e atributos que exprimem o caráter da Divindade?
Como pode o homem ser filho de Deus – que é puro Espírito – se ele é todo animalidade nada deixando transparecer de espiritual? Em verdade, como acertadamente ensina o Evangelho, o ser humano só se tornará filho de Deus, quando seguir nas pegadas do Mestre Jesus e se decidir a respeitar e praticar, (ou, ao menos tentar), as leis divinas que seu Filho Bem Amado, as ensinou e também exemplificou, durante sua jornada terrena. Até chegar a esse estágio, o homem será apenas uma criação de Deus. . .
Fonte:
Livro “Nas Pegadas do Mestre”
+ Acréscimos e supressões

Jc.                                                                                                       São Luís, 28/7/2016