terça-feira, 1 de março de 2016

A VIOLÊNCIA




Hoje em dia a violência está em evidência. Não se vê outra coisa, não se ouve outro comentário. Diante da crônica diária que nos apresenta o rádio, os jornais e os filmes mostrados nas televisões e na Internet, a enfocar com vistas à audiência ou ao mercantilismo, o desespero, os maus exemplos, o vício, a violência e o crime espalhados nas grandes e pequenas cidades, praticados com requintes de perversidades; torna-se mais que imperativo, fazer-se alguma coisa no sentido de combater as causas de tão terríveis males. E quais são essas causas?  Respondemos: A ignorância é a principal delas, seguida do egoísmo e da falta de moralidade, decorrente da falta de religiosidade das pessoas. E no quadro da ignorância, arriscamos alguns exemplos para reflexão de todos nós: 1º- A ignorância de Deus. Temos ligeira noção de Sua existência, porém não paramos para refletir que somos obra Sua, e por isso, temos o dever e a necessidade de sermos bons; 2º- A ignorância de nós mesmos, o que somos, de onde viemos, para onde vamos, e, a razão e finalidade de nossa presença no mundo; 3º- A ignorância da pessoa do próximo. Se também ele é filho de Deus, é nosso irmão e temos deveres para com ele; 4º- A ignorância até mesmo do significado de alguns termos como, lar, educação, sociedade, nacionalidade e humanidade. 5º- A ignorância finalmente, do sentido do termo religiosidade, que não é mero culto de adoração, mas de vivência do espírito de caridade, amor e fraternidade.

Não será o simples ato de se benzer, tomar um passe, ler um salmo, que nos levará a nos tornarmos melhores. É preciso a nossa modificação, e esta, deve começar por dentro de nós mesmos, como bem disse Jesus, substituindo os maus pensamentos pelos bons, evitando as palavras maldosas, afastando gradativamente os vícios, maus atos e exemplos, lutando contra as próprias imperfeições, para alcançarmos à melhora moral e espiritual, melhorando dessa forma o mundo, na jornada para o Pai Celestial.

Por que há tanta violência no mundo? – A violência atual é própria de um mundo de expiações e provas, onde estão reencarnando milhões de espíritos em estágios primitivos de evolução, juntamente com espíritos mais evoluídos. Esses espíritos atrasados ainda se deixam dominar por seus instintos e, quando impulsionados pela necessidade material e outras razões, cometem crimes porque não têm consciência do bem e do mal. Além disso, o desconhecimento da vida espiritual, o materialismo ainda reinante e a indiferença pelos sentimentos dos outros, também colaboram para o desgoverno emocional e moral de muitos que se deixam envolver pelo mal.

E por que a mídia exibe tanta violência? – Porque grande é o número de pessoas que lêem, ouvem, assistem, gostam e dão audiência. Um programa, uma reportagem ou uma notícia, só é destaque porque têm audiência constante; se não houvesse audiência não haveria patrocinadores e o que quer que fosse apresentado seria descartado.  A banalização da violência, principalmente nos jornais, nas televisões e na Internet, reforça condutas agressivas, levando a um aumento do número de crimes, além de ensinar e incentivar a vingança e outras barbáries. As cenas violentas, as notícias criminais, as lutas, os tiros e jogos violentos apresentados pela televisão, transmitem mensagens ao subconsciente de que a violência, a crueldade e a vingança são atos “normais”.  Para quem sente prazer em ver tragédias que são repetidas insistentemente, assistir filmes violentos ou novelas com suas baixarias e programas apelando para o sexo, salientando tudo o que não serve como exemplo digno; o bem, é apenas uma convenção social que não faz parte, ainda de seus valores. Afinal, quando o “mocinho” bate e mata melhor, ele não se iguala ao bandido?

No lar, a violência física (bater, ferir e matar) é a forma mais brutal, mas ela também se manifesta entre familiares, através de palavras ofensivas, de ódio, gritos, castigos, tapas para educar, palavrões e situações de imposição, sendo utilizada até a força física às vezes. E, como exemplos negativos, as novelas estão cheias de discussões, brigas, desrespeito, planos de vingança e outras baixarias mais. É preciso identificar os programas que incentivam e banalizam a violência, que acabam envolvendo a família numa vibração negativa e prejudicial. Se a audiência desses programas diminuírem significativamente, porque não nos afinamos com eles, serão modificados ou sairão do ar por faltas de público. Queremos lembrar que, quem assiste, tem prazer e comenta a violência, está fornecendo vibração negativa para que mais violência se materialize. Ninguém é obrigado, pelo fato de ter uma televisão, a assistir toda essa baixaria que as emissoras querem nos impingir.

Como autoeducação e disciplina moral, é possível deixar de sintonizar e comentar o mal, escolhendo melhor o que entra em nosso lar através dos jornais, do rádio, da televisão e da Internet. Utilizando o livre-arbítrio, cada ser humano escolhe o que deseja ver, ouvir, comentar, pensar e fazer, colaborando para um mundo menos violento, com o envolvimento de todos e agindo em favor de uma paz duradoura entre os seres humanos. Uma montanha é constituída de pequeninos grãos de areia, o mar é feito de minúsculas gotas de água; a reforma do mundo começa com as ações de cada pessoa que queira contribuir para melhorá-lo.

Também é essencial investirmos em educação moral e intelectual, oportunizando condições de existência digna para todos, sem achar que isso é tarefa apenas do Governo. Somos responsáveis, direta e indiretamente, por essa violência, ao aceitarmos passivamente tudo o que acontece, sem ao menos protestarmos ou trabalharmos para tentar modificar essa situação.

A revista “Veja”, trás uma reportagem de Consuelo Dieguez, em que mostra com fotos e comentário, a vida de dois irmãos nascidos e criados em bairros violentos da periferia da cidade do Rio de Janeiro. Conta-nos a história de Haroldo, que tomou aversão pelo crime e trabalha duro para ajudar a família, e de André, que foi seduzido pela vida de bandido; preso e condenado a 28 anos de reclusão, por roubo de carros e homicídios. André é frio ao comentar e tentar justificar os assassinatos que cometeu. “Quem mata é Deus; a gente só faz os buracos de balas”, diz ele com tranqüilidade de causar espanto, sem se incomodar com a indignação de quantos ouvem suas palavras.

Histórias como essas são corriqueiras nos bairros pobres e nas favelas das grandes cidades. Do mesmo lugar de onde parte um batalhão de infratores, iludidos por uma existência fácil, parte também um exército muito maior de jovens trabalhadores que lutam para sobreviver e conseguir uma existência melhor. Por que, em uma mesma família carente, um jovem envereda pelo caminho do crime, enquanto outros irmãos levam uma vida correta, apesar de todos terem enfrentado as mesmas situações adversas?

Antigamente o problema da violência era analisado por duas óticas. Para uns, o criminoso era produto unicamente da pobreza. Para outros, a pobreza nada tinha a ver; dependia da vivência e dos exemplos recebidos. Recentemente, uma pesquisa realizada pela médica Simone Gonçalves de Assis, da Fundação Oswaldo Cruz, mostra que as duas análises simplificam o problema, não resolvendo a busca de soluções para o assunto. Não há dúvidas de que a miséria é um fator desestabilizador que pode levar à violência, bem como a vivência e os exemplos. Porém, se apenas uma parte dos jovens das comunidades carentes vira marginal, esse é um sinal de que muitos outros fatores interferem na formação do caráter violento; do contrário, todos os jovens estariam inapelavelmente condenados ao crime. Com a pesquisa, foram encontrados novos caminhos que conduzem o jovem ao crime. O trabalho que foi premiado pelo Unicef, transformou-se no livro recém-lançado, cujo título é: “Traçando Caminhos em uma Sociedade Violenta”.

O que foi apurado que leva ao crime? – 1º A falta da figura paterna. Os filhos que convivem menos com os pais costumam ter um modelo masculino fraco, e na falta desse convívio tendem a se perder; 2º A falta de atenção e carinho. A falta de vínculos afetivos fortes com os pais e outros membros da família contribui para o desequilíbrio emocional; 3º A falta de harmonia e de religiosidade na família faz com que o jovem se sinta inseguro, contribuindo para o seu afastamento do lar.

E o que faz com que o jovem nas mesmas condições se afaste do crime?  Em primeiro lugar: Afeto e cuidados. Atenção dada na infância ajuda a construir uma personalidade mais equilibrada. Quem não recebe e não tem amor, não sabe dar; 2º Limites: Regras e orientações claras na infância estabelecem a educação e noções de limites de direitos e deveres, bem como do que é certo e errado, para o resto da existência. 3º Modelo de comportamento: A existência da uma figura positiva, como um pai, uma mãe ou mesmo um professor, cria parâmetros de bom viver. 4º Religiosidade: A religião contribui para o reforço dos valores morais, refreando instintos e elevando os sentimentos de fraternidade e amor entre as pessoas.

Além do que foi apurado na pesquisa efetuada com 60 jovens que cometeram delitos graves e cumprem pena em prisões e instituições para menores, e, com seus irmãos que não tinham cometido atos violentos, foi comprovado que o problema, em grande parte, está nas relações familiares. Em 80% dos lares pesquisados, os pais são separados ou as mães são solteiras. O problema maior é que nos lares pobres, além da ausência do pai, e das conseqüências emocionais, pesam também as financeiras. As mães, obrigadas a trabalhar fora para sustentar a família, deixam os filhos na maioria abandonados. As crianças, por esse motivo, acabam sendo criadas sem nenhum cuidado e afeto, orientação ou disciplina. Como vivem, na maioria, em comunidades pobres e violentas, são facilmente atraídas para o mundo do crime. Um deslize um dia, outro dia um pequeno furto, e o caminho para a marginalidade está aberto.

Outro fator apurado é que os irmãos mais novos tendem a se envolver muito mais facilmente com o crime. A explicação é que os irmãos mais velhos começam logo a trabalhar para ajudar a mãe; isso faz com que desenvolvam a noção de responsabilidade que os protegem do mundo do crime. Os filhos mais velhos geralmente se sentem na obrigação de fazer o papel do homem da casa. Outro aspecto comprovado, tão grave quanto à ausência do pai, são os efeitos da violência sobre as crianças, no lar. As conseqüências da combinação da negligência com a agressão física, nas crianças com até 10 anos de existência, poderá desenvolver e perpetuar sintomas agressivos, tornando-a deprimida e incapaz de se ligar afetivamente. É impressionante, que 90% dos delinquentes entrevistados, não demonstrassem ter sentido a menor pena por suas vítimas, inclusive as que eles mataram.

Ainda que se atribua à família grande parte de todo o desajuste, não se pode negar também, a grande contribuição que a família desempenha na formação digna dos seres humanos, e, nem desprezar as características pessoais de cada ser. O médico Lauro Monteiro atendeu a vários casos de crianças que eram consideradas como “pestes” e “ruim da cabeça”, pelos pais, e por esses motivos, rejeitadas, ele comprovou que na verdade, muitas delas estavam deprimidas, carentes e inseguras.

 Embora a humanidade terrena esteja ainda muito distante do ideal e permaneça no seu seio contundentes vestígios da barbárie de outrora, é evidente reconhecer que estamos em progresso moral. Os registros históricos mostram que essa humanidade que hoje se vê chocada com os crimes considerados hediondos, como a brutalidade, a violência e as agressões a pessoas humildes; outrora, essa mesma humanidade comparecia frenética aos circos romanos para assistir ao martírio dos cristãos, queimados vivos ou estraçalhados pelas feras. Em nome da lei, praticavam-se cruéis episódios de torturas e lapidações em praças públicas; eram costumeiras as crucificações que impunham terríveis sofrimentos aos condenados; em nome de Deus, as fogueiras da Inquisição, queimaram e destruíram milhares de pessoas, com o testemunho impassível e festivo das multidões, que se  deliciavam. Ainda em épocas recentes, escravos eram mortos a chibatas nos troncos deste nosso país...

Entretanto, mesmo com o avanço intelectual da humanidade, é ainda muito acanhado o desenvolvimento do senso moral. É natural, portanto, que no seio das sociedades mais adiantadas, sejam encontrados seres ainda tão cruéis, quanto os bárbaros do passado.

Os Espíritos que orientaram o trabalho de Allan Kardec, a esse respeito, assim se posicionaram: “São, se quiserdes, que da civilização só têm o exterior; lobos selvagens em meio a cordeiros. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados estão encarnando entre pessoas adiantadas. Mas, desde que a prova é demais pesada predomina a natureza primitiva.” Kardec nos assevera ainda em nota à pergunta 754 de “O Livro dos Espíritos”: “Em estado rudimentar, todas as faculdades existem na pessoa. Desenvolvem-se, conforme lhes sejam mais ou menos favoráveis as circunstâncias. A excitação dos instintos materiais abafa, por assim dizer, o senso moral; assim como o desenvolvimento do senso moral enfraquece pouco a pouco as faculdades puramente animais.”

O ponto positivo que se pode detectar no momento em que vivemos, está justamente nas inúmeras manifestações de indignação e inconformismo, quando tais fatos ocorrem. Isso demonstra que a sociedade já não aceita mais conviver com a barbárie. O ser humano então buscará os meios de construir uma sociedade mais justa, civilizada e feliz, onde a Doutrina dos Espíritos lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para alcançar tal objetivo. Compete à sociedade, afastar do convívio das demais pessoas, aqueles que transgridem suas normas; porém é também sua obrigação, implementar os meios de atender às exigências sociais e promover a educação moral das pessoas. Nessa tarefa, nenhuma doutrina oferece melhores esclarecimentos do que a Doutrina Espírita.

Estamos hoje, após séculos de esforços, formando correntes de paz; equipes de proteção à natureza e criando órgãos destinados a amparar os que sofrem. Por isso, não podemos aceitar a opinião de certas pessoas que dizem ser a vida de hoje só violência, sofrimentos e guerras. Sem dúvida, não faremos vista grossa ante a realidade; ainda estamos mais próximo do bruto que do sublime; mas podemos viver com otimismo vendo sempre o lado bom das coisas.  Diz Emmanuel que “Somos hoje qual árvores que apesar das raízes cravadas na terra, possui galhos e flores voltados para o céu”. É assim que precisamos ver os dias: um mundo de possibilidades, variando apenas o ângulo pelo qual o olhamos e o esforço que fazemos para melhorá-lo.

O Mestre certa vez disse: “Conhecereis a Verdade e ela vos libertará.” Sejamos fortes para ver e ouvir tudo, mas retendo em nosso íntimo, apenas o bem, o belo, o útil e o produtivo. A nossa participação no mundo material é para o exercício da paz e da nossa evolução espiritual, razão porque devemos manter a tempestade pessimista fora da nossa vivência.

O estudo do Evangelho leva todas as pessoas a se amarem como irmãos e a encontrarem a comunhão, a resignação e a soluções afetivas para os problemas da dor e dos conflitos que infelicitam a existência na Terra. O estudo do Evangelho permanente e a observância dos seus ensinamentos, poderão nos ajudar a vencer o mal maior que é a ignorância, e nos fazer uma nova pessoa. Paulo já nos dizia na epístola aos Coríntios:  “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convêm”.

Atingimos o tempo do cumprimento das coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. O progresso é uma das leis da Natureza e todos os seres da Criação, a ele estão submetidos pela bondade de Deus. A própria destruição que parece o fim das coisas, não é senão um meio de atingir, pela transformação, um estado de coisas mais perfeito. A Terra, seguindo essa lei, esteve material e moralmente num estado inferior ao que está hoje, e atingirá muito em breve, um degrau mais avançado, tornando-se um mundo de regeneração, onde as pessoas serão mais felizes, pelo expurgo dos espíritos inferiores para outros mundos, e a chegada de espíritos mais evoluídos para colaborarem com o progresso, porque a lei de Deus, nela imperará.

Tenhamos, pois, confiança em Deus, que tudo preside, certos de que tudo está sob controle e dentro da programação  superior,  ao  imaginável  por qualquer um de nós, lembrando ainda que, não estamos dispensados de fazer tudo ao nosso alcance, no combate ao mal e na implantação do reino de amor e fraternidade na Terra.

Que o Senhor nos livre de cairmos nas tentações inferiores...


Bibliografia:
Revista “Veja”
Livro “Traçando Caminhos em uma
Sociedade Violenta”
“Livro dos Espíritos”


Jc.

São Luis, 14/07/1997

Refeito em 23/02/2016

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