domingo, 10 de janeiro de 2016

KARDEC E SUA VISÃO DO FUTURO




 Ao fazermos uma análise da personalidade de Allan Kardec, buscando conhecer-lhe a cultura, aliada à profunda identificação com o Evangelho, não devemos ter por objetivo apenas homenagear-lhe a memória. Devemos vê-lo com alguém que veio para cumprir uma promessa de Jesus. Devemos avaliar-lhe a estatura espiritual, não apenas para nosso encantamento, mas a fim de nos conscientizarmos da nossa condição de beneficiários da sua obra, desse acervo imenso de esclarecimentos que marcaram efetivamente uma nova etapa na história da evolução humana.

É necessário pensarmos em Kardec na sua época, a fim de avaliar-lhe o avanço no tempo, em relação ao pensamento dominante de então. Precisaríamos todos nós, ter a possibilidade de nos transportar, de retornar ao passado, a fim de sentirmos a época, com seus costumes e, principalmente, com suas limitações. Só assim poderemos observar com justeza o avanço do pensamento de Kardec em relação aos seus contemporâneos, e até de muitos dos atuais pensadores das searas religiosas, políticas e sociais.

A Igreja Romana, com a Inquisição que em Portugal terminou, por decreto da Regência, em 1821 – ainda impunha terrivelmente o seu poder. Nos países ditos católicos, não havia separação entre o Estado e a Igreja. Para termos uma ideia do poder, é só lembrarmos que em 9 de outubro de 1861, na Espanha, foram queimados em praça pública, 300 obras espíritas, legalmente importadas da França, no chamado “Auto da Fé de Barcelona”. Em 1864, a encíclica “Quanta Cura” condenou a tolerância religiosa. E esse empenho em manter o poder não foi só no século XIX, pois em 1906, duas encíclicas do papa Pio X, denominadas “Vehementes nos” e “Gravissimi Officii”, condenaram a separação entre o Estado e a Igreja.

Na Espanha, em 1931, houve a laicização do poder civil, com a limitação dos poderes da Igreja. Infelizmente, em 1953, durante a ditadura de Franco, mediante concordata com a Igreja, voltou  a Igreja Católica a ser declarada religião única da nação espanhola. Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, em pleno século XX, foi fechada a Federação Espírita Portuguesa, e todos os seus bens foram confiscados. Na França, o clima era um tanto diferente. É só tomarmos conhecimento das perseguições e os ataques sofridos por Allan Kardec.

Entretanto, apesar da forte pressão dominadora exercida pela Igreja, no sentido de ser mantida a sua versão do Cristianismo, durante o século XX, em algumas partes da Europa ocorria uma libertação quase rebelde de muitos intelectuais, em relação às pregações religiosas, que já não mais conseguiam convencê-los. O descompasso entre a religião e a ciência se tornava cada vez mais agudo, ensejando um desencanto que levou muitas pessoas lúcidas, à tomada de posições eminentemente materialistas, criando o ambiente para o surgimento do Positivismo, doutrina que visava à superação dos estados teológico e metafísico, negando tudo o que não fosse fisicamente mensurável, e preparando o terreno para o materialismo do século XX.

No campo social, a mensagem religiosa servia apenas para contestar o egoísmo vivenciado pelos poderosos, sem que houvesse a mínima ação no sentido de amenizar a desumana e angustiosa situação das classes trabalhadoras, principalmente  dos  operários.  É dessa  época a famosa frase  atribuída a  Karl
Marx: “A religião é o ópio do povo”.  E realmente o era, pois se constatava facilmente a imensa distância que havia entre a mensagem simples, fraterna, amorosa e atuante de Jesus, e aquilo que era oferecido como o Cristianismo pela Igreja Romana, totalmente comprometida com o poder temporal.

Kardec não se curva à Igreja, mas não adere ao materialismo seco e destrutivo, como tantos pensadores do seu tempo. Sua visão de missionário permite-lhe discordar daquilo que a Igreja oferecia como verdade e possibilita-lhe uma proposta religiosa a ser experimentada principalmente fora dos templos. Uma religião a ser vivida em clima de liberdade, tanto na área do sentimento, quanto da razão, conforme os ensinamentos e exemplos de Jesus. Diante da situação, Kardec revela-se como teólogo ao dialogar com os Espíritos Superiores a respeito de Deus, demonstrando independência e superioridade de pensamento em relação aos seus contemporâneos, quando formula a pergunta: “Que é Deus?” – Isso dito numa época em que grandes pensadores estavam ainda atrelados à idéia de um Deus antropomórfico, portador de limitações humanas, quanto à forma e aos atributos.

O Codificador demonstra que sua visão de Deus é cósmica, e está em perfeita consonância com os avanços da Astronomia, que, caminhando à frente das religiões, já demonstrara àqueles “que têm olhos de ver” que o Universo conhecido era maior do que o Deus ensinado por elas. Entretanto, sua concepção científica da grandeza cósmica de Deus não o impediu de resgatar a figura do Pai justo, providente, amoroso e infinitamente misericordioso, conforme ensinado por Jesus, contrapondo-se frontalmente à criação nefasta dos teólogos: o inferno das penas eternas, dentro do contexto cristão. Revela o Codificador a sua condição também de educador ao examinar com impecável lucidez temas como o Céu, o Purgatório e Inferno, na obra “O Céu e o Inferno”. Entretanto, se abriu as portas do Inferno, demonstrou que as do Céu não se abrem à custa de ofícios religiosos encomendados, de legendas “post mortem”, mas sim, através do esforço individual, intransferível e consciente de cada um, conforme sentenciou Jesus ao dizer: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me”.

A reencarnação, rejeitada e ridicularizada àquela época, mereceu-lhe análise clara, profunda e irretorquível, em tese que o futuro que vivemos hoje, tem consagrado como vitoriosa, de vez que, até o presente, não existe nenhum trabalho sério que a conteste. Pelo contrário, com o passar do tempo avolumou-se os trabalhos acadêmicos que a comprovam. Demonstra com clareza a imortalidade da alma, não apenas como artigo de fé, amparada em dogmas, mas no campo da experimentação científica, através do resgate do exercício da mediunidade, prática que seria objeto de estudos levados a efeito na área acadêmica, primeiramente sob o nome de Metapsíquica, e, bem mais tarde, de Parapsicologia.

Revelou-se sociólogo eminentemente cristão ao dialogar com os Espíritos sobre questões sociais, pondo em evidência temas que outras religiões só décadas mais tarde viriam a discutir. Pela primeira vez o relacionamento entre capital e trabalho é tratado no meio religioso, com sérias advertências àqueles que, abusando do poder temporário, exige excessivo trabalho a seus inferiores, o que era comum na Europa, as jornadas de trabalho excederem a doze horas. Também pela primeira vez na história do Cristianismo, é criado um ambiente para que Espíritos Superiores advirtam os seres humanos, em nome de Deus, a respeito da responsabilidade no emprego do poder. “Todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha a seus inferiores, porquanto, assim fazendo, transgride a lei de Deus”.

Enquanto todas as vozes religiosas se calavam, Kardec inquire  os  Espíritos sobre o direito do trabalhador, de repousar depois de ter dado o vigor de sua existência em trabalho: “Mas o que há de fazer o velho que precisa viver e não pode trabalhar?” Os Espíritos respondem: “O forte deve  trabalhar para o idoso. Não tendo este família a sociedade deve fazer as vezes deste. É a lei da caridade.” Só 31 anos depois do aparecimento de “O Livro dos Espíritos”, foi que a encíclica “Rerum Novarum”, em 1891, revelou algum interesse do meio católico para o tema. Relativamente à escravidão, existente ainda no Brasil e outros países, os poderes religiosos também se mantinham calados, sem erguer a bandeira abolicionista, por estarem ainda comprometidos com aqueles que se beneficiavam com o trabalho escravo. Contra esse ignominioso domínio de um ser humano sobre outro, manifestaram-se os Espíritos, falando em nome de Deus, graças ás perguntas feitas por Kardec, que, com isso, inseriram conceitos de moral religiosa num campo eminentemente social.

Nove anos antes da publicação da obra “Sujeição das Mulheres”, que é tida como uma das molas propulsoras do movimento feminista, Kardec já havia publicado o diálogo que manteve com os Espíritos Superiores e comentários seus, analisando a igualdade dos direitos do homem e da mulher, enquanto as demais correntes cristãs mantinham e ainda mantêm em seu próprio seio, posições altamente discriminatórias, em que a mulher continua subalterna, malgrado os exemplos dignificantes deixados por Jesus.

Kardec ao perguntar aos Espíritos: “Será contrário à lei da Natureza o casamento, isto é, a união permanente de dois seres?”, o Codificador demonstra conceituar o casamento como ato eminentemente moral, mútuo compromisso assumido no âmbito da consciência de um homem e de uma mulher, acima de toda e qualquer benção sacerdotal ou da assinatura de um documento civil. Evidenciada por Kardec há mais de um século, essa visão que se tem hoje, quando cada vez mais prospera o entendimento de que ninguém casa ninguém; as criaturas se casam, e só elas são responsáveis pela manutenção do vínculo livremente estabelecido. Esclarece o Codificador que libertando a criatura dos grilhões criados por uma benção sacerdotal – pretensamente dada em nome de Deus – por outro lado chama-lhe a atenção para os compromissos assumidos perante o altar de sua própria consciência. O valor que Kardec atribui ao casamento está perfeitamente explicado no comentário feito ao tratar do assunto: “A abolição do casamento seria, pois, regredir à infância da Humanidade e colocaria o ser humano abaixo de certos animais que lhe dão o exemplo de uniões constantes”.

Numa época em que as religiões não discutiam o papel da família, por julgá-la bem estabelecida em função de sacramento em nome de Deus – embora em alguns casos, até mesmo contra a vontade de quem a recebia, - Kardec antevendo atitudes e futuros questionamentos, analisa e discute com os Espíritos Superiores o papel do instituto familiar, obtendo respostas esclarecedoras dos Mentores, situando a família como núcleo insubstituível da educação humana, núcleo formado não em função de uma evolução social, mas decorrente de designo divino. A Doutrina Espírita já tinha resposta antecipada às duras contestações que viriam décadas mais tarde, quando regimes totalitários pretenderam instituir um modelo de educação da criança pelo Estado e, mais tarde ainda, através das propostas de “vida livre” levadas a efeito pelos “hippies” e os que lhe partilharam as idéias.

Ao assumir a posição de veemente combate contra a pena de morte,  - enquanto setores religiosos se mantinham silenciosos ou mesmo coniventes - Kardec tira o “não matarás” de dentro dos templos, levando-o à discussão no penal e social, antecipando-se, em décadas, a campanhas que surgiriam bem mais tarde. O imenso abismo existente entre a Ciência e a Religião, pelos estudos de Copérnico e Galileu alargou-se ainda mais com a publicação alguns anos depois do surgimento de “O Livro dos Espíritos”, e posteriormente, da obra “A Origem das Espécies” de Charles Darwin. Coube a Alan Kardec o papel histórico de reconstruir uma ponte luminosa, ligando a Ciência e a Religião. Contestando o Criacionismo, põe em evidência a evolução do Espírito, que faz o seu progresso ao mesmo tempo em que demonstra um dos atributos de um Ser Perfeito: a Justiça.  Todos partem de um mesmo ponto, dotados da mesma potencialidade evolutiva, conforme ensinaram os Espíritos: “É assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao Espírito mais evoluído, que também já foi um átomo”.

Não se pretendeu aqui fazer uma análise exaustiva da obra de Kardec, nem de sua capacidade como filósofo, educador, sociólogo ou teólogo. Buscou-se enfocar apenas o avanço do seu pensamento, em relação aos seus contemporâneos. Kardec transcendeu sua época, enxergando além dos interesses, da cultura, do meio social e religioso em que conviveu. Se o Professor Hippolyte Leon Denizard Rivail tivesse publicado suas obras sem revelar os diálogos com os Espíritos e o seu aspecto religioso, por certo a França o teria incluído entre seus filósofos, conforme já o fizera com seus grandes educadores.

No decorrer deste novo milênio, quando o ranço religioso e o academismo enfatuado se fizerem menos presentes, e quando não mais estiverem tão distanciados das verdades do Evangelho Puro, Kardec certamente será estudado nas universidades e será descoberto como um gênio do século XIX, e serão criadas diretrizes educativas de tempos novos. Nessa ocasião, terão dificuldades em situá-lo numa área do saber humano, em face do domínio revelado por ele no campo da sociologia, do direito, da educação, da filosofia e da teologia.

A marca inquestionável da sua condição de grande missionário é o fato de o seu pensamento não estar preso ao lugar e a uma época. Seu pensamento vigoroso projeta-se no futuro, numa antevisão terrena dos caminhos da Humanidade. Guardadas as devidas proporções, é o mesmo fenômeno que se deu com Jesus que, transcendendo os conhecimentos, as aspirações e a própria cultura da época, fez abordagens de assuntos incomuns e deixou ensinamentos e diretrizes evolutivas para os séculos vindouros...  


Referências:
“O Livro dos Espíritos” item 1;3  - item 684;4 –
item 685-a;5 – item 695;6 – item 696;7 – item 540.
“Novo Testamento” Mt, 16;24 – 5;16.

Bibliografia:
José Passini
Jornal “O Imortal” – Janeiro/2012


Jc.
São Luís, 13/3/2012
Refeito em 24/11/2015

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