sábado, 31 de outubro de 2015

A MORTE OU A LIBERTAÇÃO?






  O mundo avança rápido em suas conquistas, nas mais diferentes áreas do conhecimento, entretanto, o velho mistério que envolve a morte, não perde sua atualidade. É certo que a visão do ser humano vem se ampliando no entendimento desse difícil processo, mas ainda anda longe de uma visão realista que amenize os conflitos. O fenômeno da “morte” sempre intrigou o ser humano, sempre motivos de preocupação de todos, nas mais diferentes culturas do mundo. Os gregos acreditavam que os espíritos seriam julgados por Minos, filho de Zeus, começando aí a idéia de julgamento. Os romanos acreditavam que no Orco (inferno para eles) divindades infernais puniam as almas cheias de pecados e que maltrataram outros seres, começando também o “faze aos outros, o que queres que te façam”. Para Maomé, havia sete andares de céu e sete infernos, para atender as diferenças tanto de virtudes como de erros.  Buda, finalmente afirma que “o bem é resultado do que fomos e que a morte é um agente da vida que exige renovação contínua e transformações incessantes”.  Essa é a nossa visão atual...

A Doutrina dos Espíritos, fala de Sócrates, filósofo grego, dizendo que ele nada escreveu, assim como Jesus que não deixou nenhum escrito. Ambos tiveram a morte dos criminosos, vítimas do fanatismo, por terem atacado as crenças tradicionais, e colocado á virtude real, acima da hipocrisia e dos dogmas; em outras palavras, por terem combatido os preconceitos religiosos. As últimas palavras de Sócrates, ditas aos seus juizes e algozes, foram: “de duas uma; ou a morte é uma destruição, ou ela é a passagem da alma para outro lugar. Se a morte é uma mudança de morada, que felicidade nela reencontrar aqueles que se conheceu!  A hora é de nos deixarmos; eu para morrer, vós para viver.” Também Jesus, ao sentir se aproximar a hora de se libertar do corpo, profere as palavras: “Pai perdoa-os porque não sabem o que fazem” e finaliza dizendo: “Está consumado.”

A Gênese, da Doutrina dos Espíritos, vindo depois do desenvolvimento científico, trouxe a vantagem de objetivar o problema da sobrevivência, submetendo-a aos processos de verificação e pesquisa científica, acabando com os chamados “mistérios da morte”, demonstrando que a alma se liberta do seu corpo físico de modo natural, quanto á larva se transforma em borboleta.

Paulo, o apóstolo dos gentios, em sua primeira epístola aos Coríntios, disse: “Planta-se o corruptível, e nasce o incorruptível; enterra-se o corpo material, nasce o corpo espiritual...” Quando observamos o corpo de uma pessoa querida sem vida, devemos reprimir o desespero e a mágoa, porque sabemos que os chamados “mortos”, estão apenas ausentes da Terra, vivendo atualmente na Espiritualidade. Essa nova concepção, de que a vida continua, liberta o ser humano do medo de morrer; dá-lhe uma nova compreensão, eliminando o velho temor e a revolta contra as leis criadas por Deus.

Existem para quem não sabe dois tipos de morte, conforme as palavras de Jesus: na passagem em que um moço diz ao Mestre que deseja segui-lo, entretanto, pede que Ele lhe permita primeiro, ir enterrar o seu pai que acabara de falecer, tendo Jesus lhe respondido: “Deixa aos mortos, enterrar os seus mortos; tu, porém, vem e segue-me.” Explicação: Os primeiros mortos eram aqueles que desconheciam os ensinamentos que Jesus transmitia, ou seja: estavam mortos para as coisas da vida espiritual; (diz-se até que uma pessoa quando não tem conhecimento de um assunto, está morto para o mesmo) os segundos mortos, são os que falecem fisicamente. Como aquele moço já conhecia os ensinos de Jesus estava vivo quanto a esse conhecimento, o que não acontecia com os seus parentes, que não conhecendo as lições do Mestre, estavam vivos fisicamente, porém mortos para as verdades que Jesus ensinava.                                     

Porém, se a morte física elimina o corpo, para muitas pessoas que desconhecem a realidade, nós espíritas sabemos que o corpo é formado de elementos diversos: O oxigênio, o hidrogênio, azoto, carbono, ferro, etc.. Pela decomposição do corpo físico, esses elementos se dispersam, para servir à formação de novos corpos, de tal sorte que uma mesma molécula, de carbono, por exemplo, terá entrado na composição de muitos milhares de corpos diferentes, de maneira que talvez em seu corpo atual existam moléculas que já pertenceram a homens das primitivas idades do mundo; que essas mesmas moléculas orgânicas que absorvemos  nos alimentos, vêem possivelmente de outros corpos, e assim por diante. Dessa maneira, a Doutrina dos Espíritos acabou com a morte, pois todas as células do nosso corpo físico vão animar novas formas de vidas.  A alma por sua vez, liberta da sua roupagem material, continua viva, fazendo parte agora, do mundo espiritual, porquanto é uma centelha divina imortal.

 São muitas as razões do medo da “morte” que sempre nos acompanha. Umas, estão associadas a lembranças arquivadas na memória espiritual, outras, associadas à imagem do julgamento, apresentados como divino, de céu, purgatório e inferno, destinos inventados pelos teólogos que fizeram nossos tormentos no passado. A isso, acrescente-se a associação da palavra “morte” com a palavra “fim”, que traz o pavor do nada. A soma disso tudo, inspira em muitas pessoas o sofrimento, pela possibilidade de enfrentá-la, o que é inevitável para todos nós, apesar de não a desejarmos. È comum á busca da religião, ampliando nossa benevolência o que nos torna mais fraternos. Também acontece a transferência do afeto dedicado à pessoa que partiu para outras pessoas desamparadas. Quase sempre essa dor impulsiona-nos à fraternidade.  Lucinda Araújo, mãe do cantor Cazuza, é um exemplo; passou ela a dedicar-se às crianças portadoras do vírus HIV, o mesmo que levou seu filho para a Espiritualidade.

Essa situação traz em si, grandes mudanças, não só para o espírito que se transfere para outra dimensão de vida, mas também para os que ficaram saudosos. Há em geral, mudanças no comportamento de toda a família, em vista da adaptação sem a pessoa que partiu. Uns se fecham, ficam introvertidos, acabrunhados; outros extrovertem-se repentinamente. Algumas crianças chegam a imitar o parente que partiu. Há os que tentam fugir das lembranças do ausente, mudando de endereço e até de cidade. Só mais tarde percebem que a dor ou a tristeza os acompanha aonde forem, porque elas se situam dentre e não fora da pessoa. Alguns trabalham excessivamente, tentando esquecer o acontecimento. Há ainda os revoltosos, que blasfemam contra Deus e afastam-se da religião, quando deveriam a ela mais se achegarem, dando espaço à revolta, por não aceitarem o Determinismo Divino. Há ainda, casos de mães que enlouqueceram, venerando retratos de filho/filha que partiu.  Porém, com as mensagens que chegam dos desencarnados, confortando os corações de seus pais, lhes pedem que não se entreguem à dor e ao desânimo, por estarem vivos, e os aconselham a cuidar das dores de outros sofredores, para amenizar as suas próprias dores. Uma jovem recém-desencarnada pediu à sua mãe, numa mensagem, que não falasse e se lembrasse dela como pessoa morta, porquanto ela  se sentia péssima, quando ouvia tal referência a ela, porque se via viva e feliz ao lado do marido que partiu como ela no mesmo acidente que os vitimou.

Entretanto, para muitos, a morte física é vista como algo terrível e representada de forma apavorante, com o aspecto de um fantasma ósseo, que traz uma foice fatídica ao ombro. A propósito, existe uma história que diz: Essa morte dirigindo-se para uma cidade, encontra-se com o Prefeito que partia para uma viagem, e lhe diz que levaria 30 dos seus cidadãos. Após alguns dias, retorna o Prefeito à cidade e toma conhecimento de que 130 habitantes haviam morrido. Encontrando-se, novamente com a morte, perguntou-lhe o Prefeito, porque levara mais pessoas, tendo ela respondido: “De fato, vim buscar apenas 30 pessoas; as outras 100 morreram foi de medo...”

Essa narrativa nos dá uma idéia do trauma que o ser humano sempre teve em relação à morte física. Esse medo sempre foi cultivado ao longo da história da Humanidade. Para algumas religiões e religiosos, a morte física é um sinônimo de separação eterna, com sofrimentos inenarráveis para a maioria que irá para o inferno, e, alegria indescritível, para uma minoria que será salva e irá para o céu. Imaginemos uma mãe que vai para o céu e vê uma filha ir para o inferno. Ela pode viver feliz no hipotético céu sabendo que sua filha sofre no inferno? O momento culminante acontece quando o caixão desce à sepultura, refletindo a dor dos familiares e amigos, ainda desconhecedores da vida na espiritualidade. Era até comum e ainda existe em vários paises, o hábito de contratar mulheres “especializadas” para chorarem e acompanharem o velório, chamadas de “carpideiras”. Durante séculos era guardado o “luto”, até um ano após a família vestia-se de preto. Quando se encontrava uma pessoa com tais trajes, dava-se os pêsames e a tragédia era relembrada o que causava mais sofrimento.

O Eclesiastes diz: “A tempo de ganhar  e de perder; tempo de guardar e desfazer”. Muitas são as perdas; perdemos o seio da mãe, os amigos da infância, a professora do jardim, a escola maternal, a primeira namorada, o sonho do amor perfeito... Perdemos a inocência, perdemos o objeto estimado, o cãozinho adorado, o diploma almejado, o concurso desejado. Perdemos o emprego, os pais e até o corpo físico, a existência terrena, e assim mesmo, temos dificuldades de diferenciar o efêmero do eterno. Somos às vezes, cegos e surdos aos apelos divinos e depois reclamamos quando às adversidades nos visita.

Os seres humanos têm reações semelhantes quanto á perda ou possível perda: Negação – Não é comigo, não vou perder o emprego, não perderei os que amo... Raiva – Não deveria acontecer comigo, não faço mal a ninguém, por que este castigo? Barganha – Deus, se eu conseguir isto ou aquilo, se eu não perder... Eu faço... (isto e aquilo) em troca.  O filho para o pai: se você  me deixar fazer o que quero... Pai para o filho: se você me atender... Depressão – Não vou conseguir... O meu dia está péssimo. Aceitação – “Senhor, faça-se em mim a Tua vontade”, Maria de Nazaré; “Faça-me instrumento da Vossa Vontade”, Francisco de Assis;  “Está consumado”, Jesus.

Jesus sempre se referia à morte física com extrema naturalidade, como se fosse um sono para um despertar depois, em uma situação mais feliz. Na passagem denominada “Os doze e a sua missão”, o Mestre chama a atenção para a superioridade incomparável da alma – espírito encarnado – que é eterna, sobre o corpo por ela usado em cada existência, e abandonado como roupa usada que não lhe serve mais, e diz ainda: “Não temais os que matam o corpo físico e não podem matar a alma.”  Mateus C-2:28.

Os primeiros cristãos assimilaram esse ensinamento, e, quando a caminho dos martírios que lhes eram impostos, alcançavam á arena onde seriam sacrificados, em cânticos de alegria e louvores, convictos de que a morte significava a libertação e o regresso a um mundo melhor, onde estava Jesus...

Por que algumas pessoas parecem caminhar para a morte, enquanto outras dela escapam de forma aparentemente milagrosa? As pessoas que não acreditam na Providência Divina, interpretam essas situações como obra do acaso, pura fatalidade. Nós espíritas, sabemos que o acaso não existe e que os acidentes são utilizados pelo Criador, pelas Suas sábias Leis, como meios das pessoas resgatarem seus débitos. Jesus nos alertou que sofremos as conseqüências do mal, de forma semelhante a que praticamos contra nosso semelhante. Um exemplo que ilustra bem esta situação é a de João Batista. Quando viveu como o profeta Elias, mandou degolar 450 sacerdotes de Baal, conforme se lê em I Reis C-l9: 40. Quando viveu como João Batista, passou pela mesma prova ou situação – foi degolado por ordem de Herodes e resgatou seu débito para com a Lei Divina.

Como cristãos esclarecidos, devemos abandonar a tal figura da morte, que não foi Jesus quem ensinou, mas pessoas com interesses que inventaram para tirar proveito. A passagem para a vida espiritual é como um “sono”, disse Jesus, e serve para nos libertar da prisão do corpo físico e restituir à alma, a sua liberdade. Essa passagem para a Espiritualidade nos coloca em contato com os nossos entes queridos que foram para lá  antes de nós. Com essa certeza, a passagem deixa de ser algo terrível, para se tornar em algo tranqüilizador, e até certo ponto, desejável, quando de existência sofrida e muito prolongada.

O instante e a forma de partida para a espiritualidade só Deus sabe quando será a exceção fica por conta dos suicidas que optaram pelo desenlace antes do tempo fixado, o que lhes será muito penoso. Quando, porém, chegar o dia da nossa partida do mundo material, nada poderá impedir que partamos e aí estão os exemplos de recém-nascidos, crianças, jovens e adultos, partindo antes de idosos. Espíritos que partiram se comunicam confirmando que dormiram para despertar aos poucos, na Espiritualidade. Atravessaram a barreira do mundo material, ao encontro da sua realidade de espírito, na plenitude da Infinita Bondade e Justiça de Deus. Nessa passagem, duas condições podem ocorrer ao espírito:  1º - O espírito não possuindo virtudes e tendo praticado o mal, é  levado por outros espíritos inferiores, para regiões de sofrimentos, e lá despertando do sono, são martirizados, até que se façam merecedores da misericórdia de Deus; 2º - Possuindo o espírito virtudes, e tendo praticado o bem, é levado por Benfeitores Espirituais para lugares onde reina a paz.

O grande físico Ernesto Bozzano, na obra “A Crise da Morte”, observa alguns critérios na passagem do espírito para o mundo espiritual, a saber: a- Todos os espíritos afirmam estarem com a forma humana; b- Terem ignorado durante algum tempo, que não estavam mais na Terra; c- Haverem passado pela prova da recordação dos acontecimentos da existência ora encerrada; d- Terem sido acolhidos na Espiritualidade, pelos espíritos dos seus familiares, que partiram antes;  é- Haverem passado  por uma fase de sono; f- Terem se achado num meio harmonioso (no caso de espíritos com virtudes) e num meio tenebroso (no caso de espírito sem virtudes);  g- Terem reconhecido que estavam em um novo mundo, real, semelhante ao mundo terreno; h- Haverem aprendido que, na espiritualidade, o pensamento é a força criadora que reproduz o ambiente de suas recordações;   i- Terem sabido que o pensamento é a forma de comunicação espiritual, embora alguns espíritos se iludam julgando conversar  com palavras;  j- Terem comprovado que podem se transferir de um lugar para outro, ainda que muito distante, apenas pela sua vontade;  e, finalmente, terem aprendido que os espíritos seguem para o plano espiritual que conquistaram por motivo da lei de “afinidade e merecimento”.

No “Livro dos Espíritos”, na pergunta 153, Allan Kardec indaga: “Em que sentido se deve entender a vida eterna?” Resposta dos Espíritos Superiores: “É a vida do Espírito que é eterna; a existência do corpo é transitória e passageira.” Como Nicodemos, sabemos que o corpo depois de velho não pode voltar ao ventre materno. Assim podemos entender:  Ao nascer (encarnar) o espírito assume a matéria;  ao passar pela morte física (desencarnar) o espírito liberta-se do corpo; ao renascer(reencarnar) o espírito assume um novo corpo, de conformidade com o ensino de Jesus a Nicodemos, cumprindo a Lei Divina de evolução, no caminho de sua felicidade definitiva, prometida pelo Mestre.

Após estes esclarecimentos, eu pergunto: Quem morre?  Quem tem medo de morrer?  Nós morremos ou passamos para outro modo de vida?  Como já sei que sou imortal, eu que sou individualidade espiritual e não corpo, tomo a liberdade de afirmar que sou eterno, eu, que falo por intermédio deste corpo  nesta existência e que vocês estão vendo, sei que quem morre (transforma-se) é apenas o corpo material que assumi nesta encarnação. Eu espírito, neste corpo envelhecido, após me libertar dele voltarei para o mundo real da espiritualidade, onde encontrarei os entes queridos que já se foram antes de nós. A verdade é que somos um espírito imortal usando um corpo, e não um corpo com uma alma. Assim sendo, quem pensa quem fala quem comanda os movimentos e as ações do corpo, é o espírito, o ser inteligente, imortal; o corpo é apenas o instrumento, o executor dos estímulos e ordens do espírito; igual a uma máquina elétrica que recebe os impulsos da eletricidade para funcionar; melhor dizendo: O corpo representa a lâmpada elétrica que só serve quando recebe a eletricidade; o espírito representa a eletricidade que anima a lâmpada. Com o tempo, a lâmpada, igual ao corpo, se deteriora se desfaz, mas a eletricidade não acaba com a lâmpada. O que fazemos então: Colocamos nova lâmpada e a eletricidade passa a dar vida a esse novo corpo.  Entenderam?

Se assim sabemos, por que temer a morte física, se esta não nos pode atingir, atuando somente no corpo físico que nos serve? Assim como alguns parentes já nos precederam na viagem para a espiritualidade, assim também um dia teremos que retornar a nossa realidade na espiritualidade. A vida futura na espiritualidade aguarda a todos nós, espíritos bons, maus, indiferentes, sensíveis, amorosos e dedicados aos semelhantes, ou capazes dos maiores crimes e torpezas.  O Pai de todos nós, o Criador do Universo, ama a todos nós sem exceção de nenhum filho, mas sua Justiça alcança também a todos, não com o objetivo de premiar ou condenar, mas fazendo retornar aos mesmos as conseqüências naturais das ações praticadas, boas ou más.

Vivamos, pois, sem o medo da chamada “morte” porque ela não existe; o que se processa é a passagem de uma dimensão para outra. Um dia mais cedo ou tarde, teremos que nos libertar do corpo material que usamos e retornar ao plano espiritual, onde a nossa vida continua... “Nascer, viver, morrer e renascer, tal é a Lei Divina”, ensina Kardec. Contemplemos o firmamento em que mundos incalculáveis nos falam da união sem adeus, em plena imortalidade, sabendo que Deus que nos criou com amor para nos amarmos mutuamente, jamais nos separaria para sempre...

                                                             
Que o Senhor nos afaste esse temor e nos proporcione a Sua Paz.

                                              
Bibliografia:
“Livro dos Espíritos”                                                                         
Acréscimos e modificações.

Jc.
Em 8/l0/07.
Refeito em 28/10/2015




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