domingo, 4 de outubro de 2015

A J U S T I Ç A





 Em passado não muito distante, a forca e a guilhotina, eram instrumentos utilizados pela “justiça” arbitrária dos homens, para ceifarem as existências de criminosos e de outros indivíduos que incomodavam as autoridades perversas e dominadoras. Hoje a paisagem é quase semelhante, em decorrência da promiscuidade moral, que ergue motéis para encontros rápidos e sem compromissos com o amor, ampliando o contágio das enfermidades devastadoras, como a sífilis, HIV e outros fatores degenerativos, em cujos êxitos muitos julgam encontrar o que atribuem ser a felicidade, por lhes faltarem ideais de maior profundidade.

Antigamente os campos ficavam despovoados de homens e de famílias que acorriam às grandes cidades, em busca de oportunidades e subempregos. Atualmente ocorre o mesmo fenômeno, porque pessoas em grupos, procurando uma ocasião que nem sempre lhes chega, se transferem para as cidades, formando favelas de horror e residindo debaixo de pontes e viadutos, ou ainda em casebres miseráveis feitos de papelão. Totalmente desprezados pela sociedade, entregam-se aos efeitos dos vapores alcoólicos e pelos tóxicos de fácil consumo, enveredando nos crimes mais variados e sendo vítimas de chacinas que chocam pela sua brutalidade.

As autoridades que os deveriam socorrer, concedendo-lhes cidadania e dignidade, os mantém em esquecimento e desprezo, e por incomodarem com as suas condições de extremas penúria e miséria, os visita somente nos períodos pré-eleitorais, quando os enganam com o cinismo, apresentando discursos irônicos nos quais prometem trabalho, saúde, educação, moradia, justiça, etc., que sabem nunca se realizarão, mas que também não tem importância, porque são esquecidos e o fantasma da fome, da prostituição, do analfabetismo, do crime, continua convivendo com eles.

As raízes da miséria sócio-econômica estão fincadas no egoísmo predominante, que é o responsável pela desgraça moral que domina a maior parte da sociedade, que somente pensa em si, na sua comodidade, nos seus banquetes, transformando o seu próximo em animal de carga para servir-lhes. Nesses abismos aos quais são atirados, à sombra da ignorância, não se dão conta da própria desdita, nem sequer aspiram por nada melhor, pois, foram exauridos de forças e de sentimentos, o que os impede de pelo menos sonhar com uma situação menos infeliz, reagindo à condição primária a que foram atirados.

Assim agiram os dominadores das massas, nas mais variadas épocas da humanidade. Matam primeiro os ideais, convencem os miseráveis de que são inoperantes e de situação inferior, o que não lhes permite romper os grilhões que os prendem. Esquecem-se esses exploradores das massas, a inexorável marcha do tempo trazendo os fenômenos orgânicos que os levam às doenças degenerativas da velhice e a morte que os alcança inapelavelmente... Deixam pegadas de ódio e, porque temidos, são detestados, porque foram poderosos,
não possuíam amigos, mas sim bajuladores que desejavam beneficiar-se da transitória situação.

Iniciada, porém, a saga dos “direitos humanos”, a cidadania começou a desenhar novas alternativas para o ser humano, que merece viver com dignidade,  cabendo ao Estado zelar pela sua existência. A liberdade é a maior benção pela qual devem desejar os seres humanos e as nações, preservando-se da libertinagem e do abuso, que sempre sucedem aos grandes momentos de libertação de qualquer tipo de escravidão e dependência. Para que seja efetivada, é indispensável que exista a consciência da justiça, que responde pelo equilíbrio legal e moral da sociedade. Como exemplo, vejamos a história de sabor oriental cujo título é: Mohamed – O Justo.  “Ele era um monarca  muçulmano que julgava os casos segundo a ótica do livro sagrado. Cerca vez meditava  passeando em seus jardins, quando teve sua atenção despertada por uma balbúrdia. Acercou-se da cena e viu uma mulher em andrajos. Estava ela sentada no chão e chorava. Com ela havia algumas frutas. Seu Grão-Vizir acusava-a. Ante o quadro, Mohamed indagou do seu ministro sobre os acontecimentos, sendo informado de que aquela mulher havia furtado frutos do pomar real, e isto era um crime. Mohamed dirigiu-se à mulher e perguntou-lhe sobre a acusação. Ela respondeu dizendo que tinha um filho muito doente em casa à beira da morte, faminto como seus irmãos. Desesperada, ela saiu a mendigar, nada conseguindo. Foi então à feira para, pelo menos, recolher as sobras naturais, mas nesse dia nada sobrou ou foi descartado. Retornando ao lar, sem conseguir nada, passou pelo pomar real e observou várias frutas no chão, que por certo não seriam aproveitadas. Sabia ela ser proibido colher frutas naquele pomar e que poderia ser punida, mas, sua angústia e necessidade lhe forçou a essa atitude. Pensando nos filhos, recolheu algumas frutas do chão em sua saia e foi apanhada cometendo o crime.

Inteirado de que a sentença era a morte por apedrejamento, propôs Mohamed que a execução fosse feita no local onde o crime tinha sido praticado. Seu ministro argumentou que ela deveria ser apedrejada no templo, local sagrado onde estavam depositadas as pedras para tal ato, e que ali onde se encontravam não havia pedras.  Mohamed então apanhou as pedras preciosas que adornavam suas vestes, sugerindo aos demais que fizessem o mesmo, e ele começou a lançar suas jóias contra a criminosa, os demais, relutantes, o acompanharam no gesto. A mulher estupefata não compreendeu e, aturdida, ouviu seu Soberano dizer-lhe que recolhesse todas as pedras que lhe eram jogadas e que as vendesse para dar de comer aos seus filhos, e, cumprida a sentença, ela estava livre a partir daquele momento; que Alá a abençoasse...”    

A justiça para ser benéfica, deverá centrar a sua atenção nos valores morais, evitando brechas que sirvam a alguns “homens da lei”, quando a serviço dos poderosos, dos “colarinhos brancos” e dos criminosos, em detrimento dos fracos. Tomando com parâmetro o Decálogo recebido por Moisés, e na Lei do amor preconizada pelo Mestre judeu, a Justiça deveria ser um modelo de dignidade e honradez para todas as criaturas, porque elaborada com a finalidade de construção de uma sociedade feliz e justa, na qual não faleça a esperança de viver, nem prolifere a miséria social, sem exclusão de raça, de ideologia filosófica e de expressão, de partido político e de religião. O cidadão consciente da sua responsabilidade perante a existência e o mundo, desempenhará o seu papel com elevação e respeito, que se edificará em padrões de honestidade e de paz.

Em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec na pergunta 873, indaga dos Espíritos Superiores: - O sentimento de justiça está na Natureza ou resulta de ideias adquiridas? – Resposta: - Tanto está na Natureza, que vos revoltais ao pensamento de uma injustiça. O progresso moral desenvolve, sem dúvida, esse sentimento, mas não o dá: Deus o colocou no coração do ser humano. Eis porque encontrareis frequentemente, entre os homens primitivos e simples, noções mais exatas da justiça, que entre os que têm muito saber. Na pergunta 875, Kardec volta a indagar: - Como se pode definir a justiça? – Resposta: - A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.  Indaga ainda Kardec: - O que determina esses direitos? – Resposta dos Espíritos Superiores: - Duas coisas os determinam: a lei humana e a lei natural. Tendo os homens feito leis apropriadas aos seus costumes e ao seu caráter, essas leis estabeleceram direitos que puderam variar com o progresso dos conhecimentos. Vede se vossas leis de hoje, sem serem perfeitas, consagram os mesmos direitos da Idade Média. Esses direitos que vos parecem monstruosos pareciam justos e naturais naquela época. O direito estabelecido pelos homens, portanto, não está sempre conforme a justiça. Ele regula certas relações sociais, enquanto que, na vida particular, há uma imensidade de atos que são unicamente da alçada do tribunal da consciência.

Hoje, a justiça e feita por intermédio de vários tribunais, que, no entanto não deixam de praticar muitas injustiças, porque a jurisprudência atual é favorável aos criminosos nas leis brasileiras. Em virtude dessas leis falhas alguns “advogados” se servem de artifícios para colocar de volta as ruas, criminosos que deveriam cumprir as penas que lhes foram impostas pelos tribunais. As suas vítimas são as eternas esquecidas e abandonadas pelo Estado. Enquanto os seres humanos forem imperfeitos, a justiça dos homens será falha, gerando benefícios injustos para uns e grandes injustiças para muitos. A todos os que sofreram e sofrem as injustiças dos homens, resta ainda á esperança de que a Justiça Divina, mais perfeita e justa, faça valer a justiça para todos os que foram injustiçados e que dela necessitam. . . Jesus certa vez, falando da justiça disse: -  “A cada um será dado, segundo as suas obras”.

Bibliografia:
 “O Livro dos Espíritos”
Jornal “O Imortal”

Jc.
S.Luis, 12/03/2006
Refeito em 27/12/2010

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