quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SE A ALMA NÃO É PEQUENA






  Em o Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta:  “Pode o Espírito apressar ou retardar o momento da sua reencarnação?” Resposta dos Espíritos Superiores: “Pode apressá-lo, por um ardente desejo; pode igualmente distanciá-lo, recuando diante da prova. Nenhum, porém, assim procede impunemente, visto que sofre por isso, como aquele que recusa o remédio capaz de curá-lo”.

Nem sempre as pessoas fazem o que querem; nem sempre querem o que fazem. A criança gostaria de ficar brincando. Os pais lhe impõem a escola em seu próprio benefício. O doente não tem nenhuma disposição para internar-se no hospital, longe do convívio dos familiares. Porém é inadiável a internação para a cirurgia que vai debelar o mal que se agrava. O operário preferiria o descanso. Impossível, porque a família depende de sua atividade profissional. O condenado não se sente a vontade ficando na prisão. Não obstante, há uma penalidade a ser cumprida...

Algo semelhante ocorre na experiência reencarnatória indispensável recurso evolutivo no estágio em que nos encontramos.  Retornaremos ao corpo físico, inúmeras vezes, até que nos tornemos aspirante à angelitude. Assim, espíritos imaturos estimariam permanecer “numa boa”, evitando as limitações da matéria, com suas complicações, problemas e angústias existenciais... Até mesmo os mais esclarecidos, encaram com certa relutância, o retorno, embora conscientes de que, como disse Camões, “reencarnar é preciso”. O Espírito sente-se tão inseguro, reluta tanto que chega a rejeitar a nova encarnação que lhe é oferecida, ao disparar ele próprio, problemas fetais que podem resultar no aborto. Esta fuga ao compromisso acontece particularmente, no início da gestação, quando são frágeis os laços que o prendem ao corpo. A gestante não chegará a perceber, julgando-se às voltas com mero atraso no ciclo menstrual.

Há casos em que se consuma a reencarnação, mas o Espírito recusa-se à nova existência, como se buscasse esconder-se, provocando o aborto. Concluímos então, que reencarnar não é tão simples como ligar uma tomada. Existem vários fatores que precisam ser harmonizados. Imperioso, sobretudo, é trabalhar os pais para que se disponham ao encargo, evitando o grave problema que é:  a rejeição.

Façamos aqui um pequeno intervalo neste comentário e vamos acompanhar uma jovem senhora que vai buscar o resultado do teste de gravidez. No papel que lhe é entregue, destaca-se o desenho de uma cegonha carregando um sorridente bebê, simpática maneira escolhida pelo laboratório para transmitir-lhe a notícia de que será mãe. – A jovem ao ler o resultado, exclama: “Meu Deus!   Outro filho!   Vai complicar!” –   A reação do pai é ainda pior: -  Culpa  sua! Bem avisei que não deveria interromper o uso das pílulas. A jovem responde: - E eu deveria continuar engordando igual a porco confinado? - Por que não fez você a vasectomia como recomendou o médico? – O ambiente esquenta e os cônjuges agridem-se verbalmente trocando acusações...

Pobre espírito que vai reencarnar!...  Como se sentirá? Um enjeitado, sem dúvida. Será difícil retirar daquele Espírito, a idéia de que é considerado um intruso; alguém que veio em hora imprópria para atrapalhar, sem pedir licença. Com que sentimento aquela alma vai viver no mundo, se já é rejeitado antes mesmo de nascer? Seus pais que deveriam lhe dar atenção, carinho e amor, deverão continuar a ter repulsa por esse entezinho que deveria lhes trazer alegria e felicidade, porém, é como uma criança indesejável que vai chegar ao mundo.

E quanto a nós, qual teria sido a nossa motivação para o retorno ao corpo, em nova existência? Não é difícil  definir, basta analisar como encaramos a existência. Gastamos nosso tempo a reclamar do cotidiano? Damos guarida a mágoas e irritações? Resvalamos para estados angustiantes e depressivos?  Desentendemo-nos facilmente,  com as pessoas de nossa convivência? Julgamo-nos esquecidos e desamparados por Deus? – Se a resposta a estas indagações for afirmativa, provavelmente estamos numa encarnação “compulsória”. Reencarnamos na “marra”, como diz o ditado popular. Mas podemos mudar essa situação, considerando que é irrelevante como chegamos.  Importante para nós é saber o que nos compete fazer e fazer bem durante a nossa existência terrena.

Nesse particular, a Doutrina dos Espíritos tem muito a nos oferecer, ensinando-nos, sobretudo, que a nossa existência, será exatamente o que dela fizermos. Por opção diária nossa não seja a Terra, para nós, uma jaula, uma prisão, um hospital. Procuremos ver nela uma sempre e abençoada escola/oficina, onde nos compete valorizar todas as experiências, em favor de nossa evolução espiritual, como ensinou Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”.

Trabalhos, esforços, lutas e sacrifícios a que somos chamados na Terra, desde o simples varrer de uma casa até às funções mais complexas, tudo vale a pena, se desenvolvermos em nossa alma a grandeza necessária para enxergarmos a oportunidade de fazer sempre o melhor e o bem. Diz André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier:  “Comece o dia à luz da oração. O amor de Deus sempre está presente e nunca falha”. Temos assim, a melhor maneira de iniciar as lutas diárias. Em Deus está nossa força, nosso estímulo, nossa grandeza d’alma, para que valorizemos a hora que passa, fazendo tudo com amor. Fundamental é que não busquemos simplesmente os favores do Céu. Não façamos a oração de quem pede, mas a oração de quem oferece serviço. Quem pede, encontra eventualmente o Senhor, mas o que serve sempre está ao lado d’Ele. Por isso, Francisco de Assis, que entendia de oração, assim dizia nas suas preces:

Senhor,
Fazei de mim, um instrumento de Sua paz!
Onde houver o ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
Onde houver erros, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver a tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz !

Mestre,
Fazei com que eu procure menos
Ser consolado, que consolar,
Ser compreendido, que compreender,
Ser amado, do que amar. . .
Pois
É dando que se recebe,
É perdoando, que se é perdoado, e
É morrendo, que se nasce para a vida eterna! . . .




Bibliografia:
“O Livro dos Espíritos”
Fernando Pessoa
André Luiz
Richard Simonetti


Jc.
S.Luis, 07/03/2007
Refeito em 2/8/2015

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