domingo, 6 de abril de 2014

MANDELA, SUA EXISTÊNCIA E SEUS EXEMPLOS DE VIDA




  A incrível jornada do líder sul-africano – da clandestinidade à Presidência, passando por 27 anos na prisão – deixa um legado inestimável para todos nós. O sul-africano Nelson Mandela abraçou e simbolizou como poucos, em toda a história da humanidade, o espírito de conciliação, nos momentos finais do século XX.
A última década do mais sangrento século da história, que viu o comunismo morrer na Europa e com ele a Guerra Fria, que dividia o mundo em duas metades, que se ameaçavam mutuamente. Israelenses e palestinos trabalhando para caminhar para a paz; católicos e protestantes da Irlanda do Norte aos poucos abandonando as armas, em favor da convivência harmoniosa. Ditaduras militares e conflitos davam lugar, na América Latina, à festa da democracia; banhos de sangue na antiga Iugoslávia e na África eram recebidos por um sentimento de indignação e duas palavras: “Nunca mais”. Muitos eram os cenários, mas ninguém soube incorporar em suas ações o significado da palavra conciliação como Nelson Rolihlahla Mandela.
Ele veio ao mundo em 1918, como Rolihlahla, neto de um líder do povo thembu. O nome Mandela foi-lhe dado anos depois, por um professor de uma escola metodista por ocasião do seu batismo. O líder revolucionário, que se tornou o primeiro presidente negro num país de esmagadora maioria de sua raça, após passar 27 anos na prisão, por seu ativismo político, foi um pacificador – porém, essencialmente, um encrenqueiro. Desde cedo Mandela mostrou-se um inconformado, especialmente com algo que testemunhava dia a dia: injustiça.  Estudou Direito e, como homem das leis, lutou para que se tratassem com igualdade todos os seres humanos. Ele não concordava com as injustiças e as imorais regras impostas pela elite branca em seu país, sob o abominável nome de apartheid.
Sua existência pessoal foi movimentada, com três casamentos – o último deles com Graça Machel, viúva do líder moçambicano  Samora Machel. Como presidente ele não era um santo nem um líder incapaz de erro, pois falhou ao não envolver seu país na luta contra a Aids, causa que abraçou depois que saiu do cargo. Ele atingiu, porém, uma grandeza rara. Sua morte ocorrida no dia 5/12/2013) com 95 anos de idade, em Johannesburgo (África do Sul), não apagará ensinamentos que ele deixou de importância para políticos e cidadãos. Àqueles que o ouviram, Mandela ensinou muito – lições que agora precisam ser lembradas e abraçadas como objetivos, na busca por mais qualidade de vida e justiça para todos.
Em 1980, Nelson Mandela era, para muitos sul-africanos, apenas um mito, pois na prisão desde 1963, ele estava incomunicável, distante de jovens que sonhavam com um grande líder negro africano que simbolizasse a autonomia, a independência e o fim do colonialismo europeu. Libertado em 1990, foi eleito presidente em 1994, tendo permanecido no governo por quatro anos. Uma das primeiras medidas ao chegar à Presidência foi formar a Comissão da Verdade e da Reconciliação. Foi constituído para organizar, a CVR, uma lista de 25 candidatos e selecionados 17, sob a presidência do arcebispo Desmond Tutu, ganhador do Nobel da Paz. A Comissão ouviu vítimas de violações dos direitos humanos, cometidas pelo Estado. O processo foi o maior gesto de Mandela em favor da paz entre negros e brancos. Saídos de um regime que os tratava como animais, os negros poderiam ter se lançado a uma violenta vingança. Nas mãos de um líder populista e irresponsável, a África do Sul poderia ter sido palco de um colossal banho de sangue. Era o que Mandela mais temia. Ele queria reconciliar o país, não perseguir os derrotados. “Dizia ser impossível ter uma África do Sul boa, se não fosse boa para brancos e negros”. Esse princípio que serviu para a África é útil para o mundo todo. Divididos em etnias, credos, política e definições de comportamento, muitos ainda são vítimas da violência organizada no preconceito. Sensato, prático e defensor apaixonado do ser humano, Mandela pregou a convivência respeitosa mesmo entre aqueles que não se achavam iguais... Como ele não cansou de mostrar, a humanidade é uma só.
Ele poderia ter facilmente conquistado um segundo mandato, mas preferiu apoiar a candidatura de seu vi-presidente, Thabo Mbki. Mandela sabia que, a perpetuação de lideres no poder, era um dos maiores erros cometido por nações africanas após sua libertação do domínio europeu. Em fevereiro de 1980 Robert Mugabe vencia as primeiras eleições  de um Zimbábue livre. Hoje, 33 anos depois ele continua sendo governado pelo mesmo Mugabe. José Eduardo dos Santos governa Angola desde 1979, o mesmo ano em que tomou posse o atual presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Mbasogo.  Mandela preferiu fortalecer a democracia ao invés de tornar a África do Sul dependente do seu carisma político. Fora do governo, ele usou sua influência para enfrentar exatamente a mazela representada pelos conflitos étnicos e políticos. Sua intervenção foi vital para a paz no Borundi, que mediou a partir de 1999, após décadas de conflito entre tutsis e hutus.
“Mandela ensinou que o melhor caminho para a paz é o perdão é o entendimento e se houvesse na África mais líderes como Mandela, capaz de lidar e dialogar com o inimigo, haveria menos conflitos” afirma Ryan Irwin, professor de história da África  na Universidade de Nova York. O Brasil ganharia muito se tivesse um Nelson Mandela em sua história ou se alguém incorporasse os seus ensinamentos na política. Mandela ensinou a conciliação e a negociação, pois confrontos e enfrentamentos não funcionam. Mandela buscou o diálogo com seus adversários e apertou a mão do presidente Frederick De Klerk que o aprisionou e com quem dividiu o Prêmio Nobel da Paz. Hoje, duas décadas no governo, o partido que derrotou o apartheid agarra-se ao poder, é manchado pela corrupção e perde apoio popular. Cada vez que o nome do presidente Jacob Zuma era citado, uma vaia ecoava pelo estádio, na cerimônia de despedida do maior líder da história da África.
O cientista político José Paulo Martins Junior da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca a ausência do espírito de revanchismo de Mandela. “Ele enfrentou sempre uma oposição muito forte de quem estava no poder e, quando assumiu a governança não encarnou o revanchismo”. Ele assimilou muito mais a importância de pôr em prática projetos de redução das desigualdades, relativas aos problemas sociais. Mandela também inspirou aqueles que sabem o valor da educação, uma das maiores carências brasileiras. “Educação é a mais poderosa arma que se pode usar para mudar o mundo, e se o Brasil aprendesse essa lição, já teria um futuro muito melhor”, dizia Mandela.
Fonte:
Reporteres:
Rodrigo Turrer e Rogério Simões
Revista Época -  9/12/2013
+ supressões e pequenas modificações
Jc.
São Luís, 9/01/2014

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