domingo, 12 de maio de 2013

JUVENTUDE ABANDONADA

Vive a sociedade brasileira dias de tormento e dúvidas, ante o desamparo a que relega parte de seus membros, deixando-os sem pão, sem teto, sem saúde, sem instrução e sem assistência. Fala-se muito sobre esse problema cruciante, em uma sociedade cada vez mais carente, onde a fome, o desemprego, a precariedade educacional, a falta de maturidade responsável de grande parte dos pais, fazem com que essas pequenas criaturas estejam largadas à própria sorte, com destinos cada vez mais incertos. A verdade é que muitos pais e mães não querem “esquentar” na tarefa realmente cansativa e absorvente de educar seus filhos. É muito mais cômodo deixá-los ao Deus dará, do que orientá-los; com eles conversar, dar-lhes exemplos de boa moral e de retidão de vida. Estes seres são chamados de órfãos de pais vivos. 

Com efeito, as dificuldades econômicas da existência, tão cruciantes nos dias atuais, por vezes não permitem um maior entrosamento entre pais e filhos, porque os genitores estão absorvidos nas obrigações profissionais, na obtenção do pão de cada dia. Contudo, outros pais existem que, embora não lutem com estes problemas financeiros, dão aos filhos os melhores brinquedos, as mais caras roupas, as mais modernas coisas, mas, na verdade, não lhes dão atenção, aquela assistência afetiva, amorosa, nem ouvem as coisas pequenas que são importantes na formação do comportamento sadio da criança e do adolescente, configurando-se assim, a personalidade de pais que abandonam seus filhos. Outro elemento decisivo na formação da criança é a escola. Ali se destaca a figura do professor(a) que, antes de ser um mero transmissor de informações, deve ser um agente de educação moral, complementando a tarefa dos pais. É de lamentar, entretanto, que nos últimos anos, o educador esteja tão desprestigiado, auferindo salários tão aviltantes. As autoridades responsáveis, por outro lado, não oferecem à escola melhores condições de instrução, pelo menos na parte informativa, na transmissão de alguns rudimentos de profissionalização. 

Entre o lar e a escola, existe a rua, e por rua não me refiro apenas ao logradouro público. Refiro-me também às bancas de jornais, com revistas pornográficas; ao cinema com filmes de violência, sexo e crimes; e além disso, aos programas de televisão, cujas imagens apresentam o desrespeito aos valores morais, o sexo debochado, a violência, os crimes e ainda, programas recheados de palavrões e grosserias. Por rua, entendam-se, os exemplos de corrupção e impunidade reinante em muitos administradores das coisas públicas e políticos sem qualquer moral. Poder-se-ia perguntar o que se vem realizando no sentido de dar a essas crianças, um amanhã mais seguro, tranqüilo e feliz? 

Entretanto, se olharmos para o horizonte, observamos que o abandono, a vagabundagem, a violência, a criminalidade, o descaso e a indiferença, ainda estão sobre o caminho desses milhares de seres, que reencarnam para suas últimas oportunidades de resgate de suas dívidas para com a Lei Divina, e estão envoltos ainda em tão densas sombras. São crianças que, cedo deixam seus lares, são lares que ainda na madrugada da existência, põem porta á fora seus meninos. Meninos e meninas ainda sem nenhuma experiência que resolvem se mudar para calçadas e ruas das cidades frias de sentimentos. Enquanto a sociedade estaciona para discutir razões e soluções que nada resolvem e nem modificam, a miséria econômica social e política dos nossos tempos atinge crianças e idosos abandonados. Em retribuição, as crianças se tornam marginais embebidos de sentimentos destrutivos, cobrando caro pelo descaso. Vingam-se contra a sociedade, tornando-se violentos e mais violência gerando. 

Pequenos furtos iniciam uma existência que pode vir a ser violenta e cruel. Muito cedo vem a prática sexual e muitas meninas aprendem que podem ganhar dinheiro com o próprio corpo e se prostituem. Outras, levadas por propaganda enganosa que mostra pessoas “felizes”, começam a beber desejosas de alcançar tais condições. De copo em copo, logo se tornam dependentes e viciadas no cigarro e nas drogas. A família torna-se pouco a pouco, uma referência distante. As lembranças são, por vezes, traumáticas devido a agressividade e espancamentos sofridos. Algumas crianças não têm nem mesmo essa lembrança, porque não tiveram uma família. Os valores morais vão sendo perdidos nos furtos e roubos, nas brigas, na prostituição e nas mortes de companheiros. Agora, as regras do jogo da existência são outras. Não importe existir nessa situação ou morrer. 

A sociedade como um todo não é apenas indiferente, mas tem medo. As pessoas temem pela própria segurança e pela segurança de seus filhos, que podem morrer por um tênis um relógio ou um celular. Além disso, a visão de crianças sujas, maltrapilhas, outras fumando, cheirando cola, abordando pessoas para pedir dinheiro ou oferecendo seus corpos por alguns trocados, incomoda e muito as pessoas... É verdade que existem muitas instituições onde outros pequenos seres são abrigados e recebendo alimento, carinho, amor, esclarecimento evangélico, mas, a quantidade dos carentes é tão grande que essas instituições são como pequenas ilhas num grande oceano. 

Entretanto, a responsabilidade é dos governos que não se sensibilizam com a situação em que se encontram essas crianças, e também, grande é a responsabilidade das mães, cujos filhos foram abandonados e se encontram perdidos nas ruas. Gostaríamos de perguntar a essas mães, quantas vezes, desde a mais tenra idade, elas falaram aos seus filhos de Jesus, do seu Evangelho, dos seus ensinamentos, do respeito ao semelhante, da luta pelas coisas honestas, do trabalho dignificante? Quantas vezes, à hora de dormir, formularam uma prece, uma oração pedindo ao Pai Celestial pelo seu filho e pela família? Quantas vezes procuraram através de exemplos próprios, ensinar um procedimento de moral elevado? Talvez, com tais procedimentos desde a infância, seus filhos tivessem evitado os vícios, a delinqüência, os furtos e a criminalidade. Seriam menos meninos nas ruas e mais nas escolas, nas oficinas de trabalho aprendendo ofícios, tornando-se melhores cidadãos do amanhã, melhores pais, ajudando a transformar a sociedade e o País. São muitas as providências a serem tomadas, mas qualquer delas que dê início às ações de solidariedade, sem dúvida, é das primeiras. Para ser efetivo, entretanto, é preciso abranger a sociedade como um todo. Dela, como também dos governos, se espera ações definitivas e não atitudes que aumentem a vergonha do ser humano de ser um miserável. A sociedade como um todo, onde nos incluímos, é chamada a dar solução do problema dos nossos menores abandonados. 

Sabemos o quanto a Doutrina Espírita tem lutado nesse campo de trabalho, mas diante de uma tarefa tão grandiosa, devemos dobrar esforços para que haja nos bebês futuros, a propagação do Evangelho de Jesus, pois não podemos esquecer que Ele mesmo nos disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim”. Ele não mentiu e sabemos muito bem disso. Lutemos, portanto, para passar essa fé, essa certeza aos nossos filhos, às crianças que estão abandonadas, às mães que não conhecem o Evangelho e aos pais que procuram fugir da responsabilidade de suas tarefas. Recordemos ainda Jesus quando nos recomendou: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, pois o Reino dos Céus, é daqueles que se lhe assemelham”. O movimento espírita possui experiência no trabalho com as crianças, há mais de um século, oferecendo-lhes quase sempre sem nenhum auxílio governamental, o lar que lhes falta, o pão que alimenta a sopa que lhes nutre a educação e o ensino evangélico que torna crianças desamparadas de hoje, em cidadãos de bem no amanhã. 

Sabemos também que a criança de rua, abandonada, sem teto, sem lar, sem carinho, está longe de ser aquela criança indicada por Jesus, para servir de exemplo, como sabemos ainda que o passado foi o causador de um presente tão difícil e sofrido. Ouçamos, entretanto, a recomendação do nosso querido Emmanuel, quando nos adverte: “É de responsabilidade dos pais, procurar eliminar as más tendências dos filhos de existências passadas; ensinar coisas boas, pois é uma página em branco a ser gravada. Devemos todos quebrar esse elo de desordem, ensinando o Evangelho”. Devemos levar o esclarecimento às mães, para que ao criarem seus filhos, sejam sempre as medianeiras de Deus, transmitindo-lhes as sementes da fé, os exemplos de moral elevada, de caridade, de amor ao próximo, a fim de que sejam abençoadas, promovendo e auxiliando o progresso espiritual de seus filhos. Lembremos sempre que a boa semente de hoje, será o fruto abençoado do amanhã. 

Como enfrentar o desafio da criança carente e abandonada? A melhor maneira é começar. É certo que muitos não conhecem a história da Universidade Mackenzie. Ela começou quando uma educadora notou, na rua em que morava, um grupo de crianças vadias. Ela que fazia muito bem broas de milho, pôs-se a atrair os meninos e dar-lhes o alimento. Depois de certo tempo, disse que só daria broas às crianças que viessem no domingo para ouvirem-na falar do Evangelho de Jesus. Tempos depois, ela estabeleceu também que só teria acesso à aula de Evangelho, para depois comer, quem soubesse ler e escrever. E como eles não sabiam, ela pôs uma mesa no fundo do quintal e abriu uma escola de iniciação alfabética. Hoje ela é a Universidade Mackenzie, em São Paulo. 

Outro exemplo: Uma americana de nome Mary Jane, era negra, ganhou uma bolsa de estudos e, ao se formar, não tinha alunos, nem escola para ensinar. Ela então reuniu três caixotes vazios num depósito de lixo e começou a ensinar as crianças a ler e escrever. Depois, necessitando construir uma escola foi até o magnata Henry Ford e 

o mordomo atendeu, disse-lhe: “Quero falar com o senhor Ford.” O mordomo que também era negro, respondeu: “Mas ele não recebe negros!” – Ela reagiu bem alto: “Eu tenho uma entrevista marcada com o senhor Ford, por telefone. Eu sou Mary Jane”. – Ouvindo-a, Ford disse para ela: “Entre senhora” – Quando ela entrou, ele exclamou surpreso: - “Eu não sabia que a senhoras era negra! O que a senhora deseja de mim?” – Mary Jane respondeu: “Desejo que o senhor me ajude a construir a minha escola”. Ela então o levou ao depósito de lixo e disse-lhe: “Eu quero que, com o seu dinheiro, o senhor arranque daqui (e apontou para a sua cabeça) e coloque a escola ali no terreno”. Ele então lhe deu vinte mil dólares. 

Essa mulher construiu a sua escola e educou até o ano de 1969, milhões de negros americanos. Certa ocasião ela estava numa cidade do Sul, onde a intolerância racial era muito grande e teve uma crise de apendicite. Foi levada a emergência do hospital e colocada na mesa cirúrgica. Quando o médico entrou e viu quem era, disse: “Operar uma negra?” E saiu da sala. Ela então pôs a mão no lugar dolorido, olhou pela janela e orou: -“Acho que o Senhor só me deu essa apendicite para me desafiar. Se o Senhor me ajudar a sair desta,, eu Lhe prometo que nunca mais morrerá ninguém de apendicite pelo crime de ser negro, porque eu não deixarei”. Em seguida levantou-se, foi embora e ergueu uma Faculdade de Medicina. Foi uma das histórias mais linda do século. Ela foi conselheira da UNESCO e da ONU para assuntos raciais, e um vulto venerado no mundo. 

Divaldo Franco, espírita, médium, orador, começou a Mansão do Caminho, em Salvador-Bahia, mais ou menos da mesma maneira. Conta ele que um dia, observou que na rua, havia muitos meninos que não estavam na escola e não comiam. Foi criada então para eles, uma sopa. Passaram a vir os meninos e suas mães. Depois de um ano, foi estabelecido que somente tomava a sopa quem estivesse limpo. Como no bairro havia deficiência de água, passaram a tomar banho na Mansão. Passaram depois a dar sandálias às crianças. As que perdiam as sandálias não tomavam a sopa. Depois foi determinado que só tomava a sopa quem estudasse. Começaram com vinte estudando e hoje são uns trezentos meninos. Ao fim do ano, os de melhor aprendizado, são matriculados na Escola Jesus Cristo. Diz Divaldo que tinha lido a história de Mary Jane. Hoje, a Mansão tem duas mil e quinhentas crianças internas, semi-internas e externas; uma escola de enfermagem e sendo construída uma escola de magistério. 

Meimei, pelo médium Chico Xavier, mandou uma mensagem da criança ao homem: “Construíste palácios, entretanto se me largas ao relento, é possível que a noite me enregele de frio. Multiplicaste os celeiros de cereais, contudo, se me negas lugar à mesa, receio morrer de fome. Levantaste universidades maravilhosas, mas se me fechas a porta da educação, porque eu não possuo o ouro, posso abraçar o crime sem perceber. Criaste hospitais gigantescos, no entanto, se não me defendes contra a enfermidade, descerei bem cedo à tumba da morte. Proclamas o bem por base da evolução, todavia, se não tens paciência para comigo, porque eu te aborreça, certamente cairei na armadilha do mal, como ave desprevenida, na gaiola do caçador. Em nome de Deus, que dizes amar, compadece-te de mim, que sou criança. Ajuda-me hoje, para que eu te ajude amanhã. Ama-me, para que eu possa aprender e depois amar os outros. Não te peço o máximo, apenas o mínimo do que podes me dar, para que eu possa viver e aprender a viver...” 

Procure interessar-se pelas crianças, que são o futuro do mundo. Quantos cárceres estão cheios devido à falta de amor para com as crianças. Não se esqueça de que o pior criminoso foi um dia uma criança pura e inocente como todas as outras, carente de amor. Você que é mãe, que recebeu uma linda flor do céu para cultivar na Terra, ligue-se ao Pai Celestial, que ele a sustentará sempre em suas lutas. Faça para essas criaturas de Deus, que dependem de você, o mesmo que você gostaria de receber dos Anjos do Bem. 


Que Jesus nos ilumine, para que possamos guiar essas almas para o caminho do bem, do amor e da felicidade. 

Bibliografia: 
Doutrina Espírita 
Mary Jane 
Divaldo Franco 
Meimei 
Livreto “Minutos de Sabedoria” 

Jc. 
S. Luís, 13/01/2009 
Refeito em 10/05/2013 

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