segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A MALEDICÊNCIA




                       A   MALEDICÊNCIA

“Se ouviste algum comentário desagradável, sobre determinada pessoa, assume a função de extintor do comentário infeliz, porque a transmissão de assunto desse tipo não tem qualquer significação construtiva”.
                                          (Emmanuel,  livro “Calma” página  84)

Certa vez um homem chegou até Sócrates e disse: - Quero te contar algo importante a respeito de um amigo teu! – O sábio disse-lhe:  - Espera um pouco; fizeste passar essa informação pelas três peneiras? – Quais três peneiras?  - Então escuta bem! A primeira é a peneira da VERDADE. Estás convencido de que tudo o que me queres dizer é verdade?  - Não exatamente; somente a ouvi dos outros - respondeu o homem. – A segunda peneira é a da BONDADE.  Meio sem jeito o interlocutor respondeu: - Devo confessar-te que não. – A terceira peneira é a da UTILIDADE. Pensante bem se é útil o que vais me contar do meu amigo?  - Útil também não o é!  - Então - disse-lhe Sócrates – se o que pretendes contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem útil, é melhor que o guardes apenas para ti.
Caso Sócrates tivesse dado sequência à conversa iniciada pelo homem, ambos teriam simplesmente repetido, o que já vem fazendo a maioria da humanidade há milênios – ouvir e passar adiante os comentários negativos sobre o comportamento alheio; nada mais que isso.

De fato, é com facilidade e desembaraço que falamos das pessoas tudo o que queremos, sem critério algum e sempre na ausência delas. É próprio das conversinhas galoparem em disparada, como se quisessem chegar à frente, espalhando apressadamente o veneno, deixando em situação embaraçosa todos os que são alvos das línguas e dos ouvidos maldosos. O difícil depois, para as vítimas, será a recuperação das situações psicológicas e morais, a fim de continuarem a viver normalmente, distantes dos olhares desconfiados e indagadores.

Já se diz até que as fofocas são redes públicas secretas, o que não deixa de ter o lado verdadeiro. Circulam da vizinhança às ruas, da escola ao clube, dos tabloides à cidade, invadindo a internet. Porém, na maioria das vezes, não se tem informação exata de quem inicia as intrigas e nem de quem as mantém, às vezes  por  um  longo  tempo.  Ou seja, todos ficam  sabendo dos comentários, mas ninguém se responsabiliza por eles. Cruéis e frios, os difamadores não são capazes de atender sequer aos apelos de compaixão das pessoas boas e moderadas, em favor de quem atravessa a tormenta. De tão insistentes em seus modos macabros, só param quando esgotam todos os recursos de que usam e quando estão convencidos da vitória. Findo o intento, retiram-se em silêncio do campo de ação, não deixando qualquer suspeita, para armarem novas ciladas contra outras pessoas. Só mesmo o nosso Deus Compassivo para suavizar as dores de quem sofre tais comentários e constrangimentos.

Essas situações desagradáveis lembram a figura de Dorotéia, personagem interpretada pela atriz Laura Cardoso, na telenovela Gabriela, que foi exibida recentemente. A história se passou na Ilhéus de 1920, lugar em que essa personagem era temida por suas maldades. Sempre se dizendo defensora da moral e dos bons costumes da cidade, em cuja causa se baseava para julgar-se no direito de espionar e fiscalizar a vida dos moradores daquele litoral baiano. Sempre querendo informações dos acontecidos, chegava ao ponto de convocar as beatas para vigiar os passos de quem ela supunha em erro, não poupando sequer a intimidade da família. Descobrindo alguma coisa de alguém, logo ela aprontava um escândalo espalhando tanto o pavor quanto á discórdia entre a população. Sem dúvida, era uma pessoa complicada e atormentada, embora em sua beatice se declarasse fervorosa e leal a Deus.

E na boa intenção de trazer algum ensinamento, foi que desta parte da novela, foram extraídas as seguintes indagações:  Existem Dorotéia iguais nos movimentos religiosos? Quem se afirma cristão tem o direito de se meter na existência das pessoas? Quem guarda consigo o interesse sincero de ser uma pessoa de bem, pode viver arquitetando mexericos para prejudicar o seu próximo? –  O ideal superior do verdadeiro cristão, inclusive o espírita, que luta contra suas imperfeições, é o de ajustar-se aos elevados ensinamentos do Evangelho, agora revelado em toda a sua grandeza pela Doutrina dos Espíritos.

Empenhar esforços para educar nossas conversações, escolher melhor as nossas sugestões e interpretarmos prudentemente as palavras que nos chegam aos ouvidos, são hábitos saudáveis aos quais devemos nos entregar confiantes. Com essa consciência formada, podemos extinguir  os malefícios do disse me disse, evitaremos qualquer julgamento precipitado e viveremos harmonicamente na sociedade, o que fazia Sócrates, mostrando suas qualidades e outras virtudes, próprias dos Espíritos elevados. Quanto a Dorotéia, vamos entender que “quem leva e traz, nunca deixa paz”, conforme o provérbio português.  No que diz respeito a nós, somos capazes de conviver pacificamente com as pessoas, se silenciarmos as coisas inúteis, para não lesar ninguém e a nós mesmos.

Afinal, quando uma boca cala um comentário maldoso, um ouvido é poupado; quando muitas se calam, muitos ouvidos deixam de ser contaminados. Cabe a nós decidir se iremos vivenciar o exemplo equivocado da beata de Ilhéus, ou o modelo exemplar do sábio ateniense.


Bibliografia:
Gustavo Silvério
Jornal “Brasília Espírita”
+ modificações e supressões.


Jc.
S. Luís, 02/02/2013

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