domingo, 19 de agosto de 2012

O TRABALHO

O TRABALHO O trabalho é uma lei? – “O trabalho é uma lei da natureza e por isso mesmo é uma necessidade”, respondem os Espíritos Superiores a Kardec, na pergunta 674 de “O Livro dos Espíritos”. Uma das ilusões do ser humano é a de confundir felicidade com o ócio; paz de espírito com ausência de responsabilidade; isto porque, desde a mais remota antiguidade, criou-se um conceito errôneo de trabalho; atitude servil de quantos caísse em submissão, aos conquistadores do poder temporal. O fraco ou o tolo tornavam-se escravos e a eles era imposto o trabalho, assim como as mulheres, reservando-se os braços dos senhores e dos maridos, para a inércia dourada. Daí confundir-se felicidade com inatividade. O escravo e a mulher sonhavam com a felicidade que só era desfrutada pelo seu senhor, enquanto eles trabalhavam, trabalhavam... De tal maneira esta idéia ficou arraigada no espírito humano que as religiões ortodoxas apresentavam o céu como uma região de beatitudes, onde as almas eleitas se compraziam no descanso eterno, não obstante o Mestre haver dito: “Meu Pai trabalha até agora e Eu trabalho também” ( João 5:17 ) Jesus, nosso exemplo maior, sempre trabalhou. Desde menino ajudava José, seu pai, que era carpinteiro. Mais tarde, muitos anos depois, passou a trabalhar ajudando aos necessitados do corpo e da alma, pregando a sua doutrina de amor para todos, levantando os caídos, curando os doentes, fossem eles, paralíticos, cegos, leprosos, enfim, todos os que tivessem algum problema, encontravam em Jesus, a solução. A vinda de Jesus não representou apenas um marco divisor no calendário, mas também revolucionou o conceito de trabalho. Enquanto, antes Dele, o trabalho era sinônimo de escravidão, a Sua filosofia vem ensinar que o trabalho é roteiro justo de emancipação e de elevação tanto material como espiritual. As pessoas sempre gostariam de ser ricas; possuir bens materiais e posições de destaque; satisfazer suas necessidades e vontades, mesmo as mais supérfluas; enfim, usufruir de todas as vantagens que a riqueza pode proporcionar. Porém, poucas são as pessoas que se lembram de falar também da caridade que poderiam fazer aos necessitados, da ajuda que poderiam prestar a orfanatos, creches, asilos e outras instituições beneficentes, se Deus atendesse a todos os seus apelos. A primeira coisa que fariam os que ficassem ricos de uma hora para outra, mesmo aqueles que trabalhavam para se manter, seria abandonar o serviço, esquecer o trabalho, adotar a ociosidade e passarem a gastar como se a fortuna não fosse acabar. Muitos acham que o trabalho é uma injustiça e por isso acham-se sempre injustiçados, esquecidos por Deus, ficando a se maldizerem, tornando-se eternos insatisfeitos por não aceitarem a situação que elas mesmas escolheram, na espiritualidade, antes de assumirem nova existência na Terra. Tornam-se pessoas invejosas dos haveres colocados à disposição de seus semelhantes, passando a viver em constantes frustrações e desânimo. Essas pessoas só olham para os que estão em melhor condições, ás vezes, escravos dos seus haveres (“...onde estiver o teu tesouro aí também estará o teu coração”), estes, sem tranquilidade, sem paz, preocupados em não perder ou não roubarem o que amontoaram; e elas esquecem de que existem pessoas que estão em situação inferior a sua, em piores condições, onde se contam milhões de irmãos, pessoas que não tem um trabalho; um teto para os abrigar, outras não tem o pão para saciar a fome; pessoas cegas, surdas, deformadas, paralíticas; pessoas que se encontram sofrendo nos hospitais, nos manicômios, nos leprosários, nas prisões, as vezes esquecidas e abandonadas pelos próprios parentes, porém resignadas e confiantes nas “Bem-aventuranças” prometidas pelo nosso Mestre Jesus. É pela benção do trabalho que podemos atender dentro da Lei de Deus, as nossas necessidades e esquecer os pensamentos que nos perturbam, os assuntos amargos, no enriquecimento de nossa existência, ajudando e amparando o nosso próximo. Ocupando a mente, o coração e os braços nas tarefas dignificantes, estamos exercitando a fraternidade, adquirindo o tesouro da simpatia e colaborando com a Divina Providência, no nosso próprio aprimoramento espiritual. Se Deus tivesse isentado o ser humano do trabalho, seus membros ficariam atrofiados; se o tivesse isentado do trabalho da inteligência, seu espírito teria permanecido na infância do conhecimento, no estado de instinto animal; por isso, lhe fez do trabalho uma necessidade, e lhe disse: “Procura e acharás, trabalha e produzirás, dessa maneira, será o filho das tuas obras; delas terás o mérito e serás recompensado segundo o que tiveres feito...” Diz o “Evangelho Seguindo o Espiritismo” que a máxima: “Ajuda-te, e o céu de ajudará”, é o princípio da lei do trabalho e, por conseguinte, da lei do progresso, porque o progresso é filho do trabalho, que coloca em ação as forças da inteligência. Na infância da Humanidade, o homem só aplica sua inteligência à procura de sua alimentação, dos meios de se preservar das intempéries e de se defender dos que lhe podem causar mal; mas Deus lhe deu, a mais do que ao animal; o desejo de melhora, e é esse desejo que o impele à procurar os meios de melhorar sua condição, que o conduz às descobertas, às invenções e a ciência, que lhe proporciona o que lhe falta. Mas o progresso que cada ser humano cumpre individualmente durante sua existência. é bem pouca coisa; como então a Humanidade poderia progredir sem a preexistência e a existência do espírito? Se o espírito, após uma única existência fosse embora e não voltasse, a Humanidade se renovaria sem cessar com os elementos primitivos, e não haveria razão para que o homem hoje fosse mais avançado do que nas primeiras idades do mundo. O espírito, ao contrário, voltando com o progresso oriundo do seu trabalho e adquirindo em cada existência mais e mais conhecimentos, passa da barbárie à civilização material, e desta à civilização moral e espiritual. Caberia à Doutrina dos Espíritos, que desenvolve e explica a filosofia de Jesus, estabelecer a diferença entre o trabalho que liberta e o que escraviza. “Não vale agir por agir” diz Emmanuel. O assaltante considera trabalho, o planejamento e a execução de um assalto. O ladrão considera um trabalho, quando furta coisas do seu semelhante. As regiões infernais vibram repletas de movimento. Nelas há espíritos que lideram muitos outros espíritos mais fracos, que se afina com eles no devotamento ao mal. Trabalhos assim colocam seus executores na condição de devedores diante da Lei Divina, porque responderão não só pela omissão do trabalho, como também, pelas atividades mal conduzidas. A Doutrina dos Espíritos nos ensina que todos nós, juiz ou lavrador, médico ou operário, professor ou marinheiro, estamos todos enquadrados naquela parábola dos talentos, de que se serviu Jesus, para chamar-nos ao exame de nossas responsabilidades perante os empréstimos que nos foram concedidos pelo Senhor da Vida. Cada espírito recebe, no plano em que se encontra certa quota de recursos para viver, honrar a obra Divina e engrandecê-la. Acontece, porém, que muitas das vezes, desbaratamos os talentos recebidos, contraem débitos que, na contabilidade da vida, serão cobrados mediante leis justas e imutáveis. Por isso, quando questionarmos quanto à insatisfação do trabalho que a existência nos impõe, busquemos a resposta para a nossa indagação, na Lei de Causa e Efeito, dentro dos princípios da reencarnação. Nós só seremos livres para escolher o trabalho que desejamos, quando fizermos do nosso trabalho um instrumento de libertação. Há o trabalho obrigação e o trabalho vocação e abnegação. Nas contingências naturais da existência terrestre, o espírito encarnado é compelido a esforço incessante para o sustento do corpo físico. Recolhe de graça, os raios solares que vivificam a vida na Terra e os recursos nutrientes da atmosfera; entretanto, é preciso suar e sofrer trabalhando em busca das proteínas e das vitaminas que lhe asseguram a manutenção orgânica. Ao lado do trabalho-obrigação que nos permite a renumeração, podemos realizar o trabalho-abnegação que nos dá o prazer de servir. A abnegação começa onde termina o dever. Qualquer trabalhador, em qualquer área de atividade, pode dar um pouco além do dever. A alegria, a gentileza, a paciência, são doações que fazemos além do trabalho-obrigação. O trabalho-obrigação mantém as pessoas e transforma o mundo; O trabalho-abnegação modifica as pessoas melhorando a humanidade. Pelo primeiro, o ser humano faz progredir o mundo, enquanto ele mesmo se aprimora em inteligência, caminhando para frente, na horizontal. Pelo segundo, transforma-se a si mesmo, caminhando na vertical, em direção ao Criador. O trabalho constitui a marcha da evolução espiritual. Assim, todos os espíritos encarnados e desencarnados, em qualquer grau de hierarquia em que estejam do maior ao menor, têm suas atribuições no grande mecanismo do Universo; somos todos úteis ao conjunto, ao mesmo tempo em que beneficiamos a nós mesmos. Em toda parte da criação, a atividade se faz presente; no mundo espiritual não existe a inútil ociosidade que muitos supõem. Daí a afirmação de Jesus: “Meu Pai trabalha até agora e Eu trabalho também”. Richard Simonetti, no livro “De papo pro ar”, faz a seguinte observação: “Num Universo dinâmico, onde tudo vibra em movimento de trabalho e progresso, desde o verme, que nas profundezas do solo o fertiliza, aos mundos que se equilibram no espaço, eis o ser humano, o mais evoluído do planeta Terra, a confundir a felicidade com o não fazer nada, e querer a paz com a ausência da responsabilidade. Daí a sua dificuldade em ser feliz. Está ele fora do ritmo do Universo”. O trabalho é lei da vida. Cada ser realiza as tarefas que lhe são possíveis por sua condição. Quem não trabalha não progride; permanece sempre na mesma situação, sem realizar nada de bom ou de útil. Mas não basta apenas cumprir sua obrigação e realizar a tarefa que lhe compete, é importante trabalhar com dedicação com amor, procurando fazer tudo bem feito, casando a vocação com a profissão. Certamente receberá de Nosso Pai o salário do trabalhador de boa-vontade, cuja renumeração será bem maior do que aquela que recebe como pagamento pelo suor dispendido. Por isso, jamais alguém deve se sentir sem condições para executar alguma tarefa, ajudar alguém, ou cooperar nas obras do bem. Desde que não esteja doente, ou impedido de trabalhar, todos devem se dedicar a uma profissão nobre e digna. Não devemos menosprezar o trabalho do nosso irmão, por mais humilde e simples que seja, porque todo serviço feito com amor é abençoado por Deus. O que seria de nós se não existisse o agricultor? – O carregador, o motorista, e o comerciante? - A cozinheira, a costureira e a professora?- O recolhedor de lixo (gari) ou até mesmo o coveiro? – Seria o caos... Todas as atividades são necessárias ao bem comum. Elas se completam para que o ser humano possa sobreviver e progredir. Devemos sentir orgulho de nossa atividade, seja ela qual for. Deixemos os sonhos de grandeza fácil que só nos pode levar aos abismos do sofrimento, e vamos lembrar que o trabalho nos afasta de três grandes males, que são: O vício, a doença e a necessidade. Sobre o trabalho, lembro aqui uma pequena passagem de minha existência: Após muitos anos de trabalho, resolvi tirar uns dias de férias para fugir da rotina, como qualquer ser humano. Pois é a rotina de se fazer todo dia a mesma coisa, que nos leva a entediar até mesmo o trabalho que fazemos; mesmo aquele que juntamos a vocação com a profissão, que nos faz realizar as coisas com carinho e amor. Pois bem, tomamos o trem que vai de São Luis para Carajás e fomos conhecer as cidades de Açailândia e Imperatriz. Durante o tempo em que estivemos viajando no trem, olhando a paisagem, me chamou a atenção, um fato que sempre tinha olhado, mas que nunca me detivera para analisar. Refiro-me a vegetação existente no percurso da viagem. E veio então à minha mente, a pergunta: Por que existia mato e não pomares repletos de frutos ou mesmo árvores frutíferas? Por que a Providência Divina ao fazer a vegetação, não preferiu as árvores que dessem fruto em lugar de mato? Procurei uma explicação. A resposta não se fez esperar e veio na forma de intuição: Se houvesse em lugar de mata, que nos proporciona o oxigênio e possibilita refrescar a terra e o ar, apenas árvores frutíferas, o ser humano se limitaria a colher os frutos e se alimentar, nada mais fazendo até que lhe faltasse o alimento e ele pereceria por falta do hábito do trabalho de plantar e extrair da terra, o alimento necessário a continuação da sua existência. Em seguida, descobri a parte mais interessante do assunto. Para que o ser humano progredisse, através do trabalho, o Determinismo Divino criou a mola propulsora da humanidade, que se chama... “barriga”. Esta, quando deseja ser saciada, impele o ser humano a sair em atividade, a fim de conseguir satisfazê-la. Se não fosse essa obrigação, o ser humano ainda estaria vivendo no tempo das cavernas. Então, obrigado pelo estômago, o ser humano sai em busca do que possa se alimentar, e trabalhando, vai encontrando e conseguindo os meios de sobreviver; fazendo do seu esforço mais compensatório, surge o progresso. O receio do “amanhã” não ter como satisfazer as necessidades da “barriga”, o faz previdente, trabalhando um pouco mais para o presente e o futuro incerto. Pensa como fazer o seu trabalho menos difícil, e cria as invenções que lhe possibilita maior produtividade, menos esforço e melhores condições de vida. Dessa maneira, vivendo em comunidade, e cada um fazendo o que necessita para sua existência, vai progredindo e pelo espírito de fraternidade para com as outras pessoas, o seu espírito também progride. Eis porque, devemos agradecer ao nosso Pai Celestial, a oportunidade que nos dá do trabalho; pois é pelo trabalho digno, pela oração cheia de fé e pela caridade para com nossos irmãos, que nos aproximamos de Deus, e conquistamos o direito de sermos chamados também de filho bem-amado. Se já estamos cientes da imortalidade ( porquanto o espírito continua e o corpo vai se decompor na terra) que o conhecimento espírita nos proporciona, já temos também o apelo constante da existência: trabalha, trabalha! Porque se não trabalharmos, o nosso corpo se atrofia, as doenças se apresentam e o processo de envelhecimento se acelera, levando-nos prematuramente ao túmulo, trabalhemos então com alegria. “A cada um, será dado segundo suas obras”, aqui na Terra como na Espiritualidade. Bom trabalho, portanto, desejo a você meu irmão. Bibliografia: Novo Testamento Livro “Pensamento e Vida” Evangelho Segundo o Espiritismo + acréscimos Jc. S. Luís, 1998 Refeito em 08/08/2012

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