terça-feira, 3 de maio de 2011

MARIA DE NAZARÉ

MARIA DE NAZARÉ

O nascimento de Jesus, foi assim: No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, à uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. E, entrando o anjo onde ela estava lhe disse: “Alegra-te muito favorecida! O senhor é contigo”. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significava esta saudação. Mas o anjo lhe disse: “Maria, não temas; por que achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem deve ser dado o de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo”. E ela, antes de ter coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.

Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto pensava nessas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo”. Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel” (que quer dizer: Deus conosco).

Anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando ele atingiu doze anos de idade, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Terminados os dias de festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém sem que seus pais o soubessem. Sentindo a sua falta, passaram a procurá-lo e não o encontrando, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, ele estava no templo, assentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Logo que seus pais o viram, sua mãe lhe disse: “Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estávamos à tua procura.” Ele lhes respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” – Eles, porém não compreenderam as palavras que lhes dissera e desceram para Nazaré.

Alguns anos depois, houve um casamento em Caná da Galiléia e achava-se ali Maria, a mãe de Jesus e ele que também foi convidado. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada á minha hora”. Então, ela falou aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. E Ele, atendendo sua mãe, fez a transformação da água em delicioso vinho.

Em outra ocasião, Jesus falava ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”. Ele, porém, respondeu ao que lhe trouxera o aviso: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, disse-lhes: ”Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai Celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão. Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perfídias humanas, observando o filho que ali estava na hora extrema; sua lembrança regredia ao passado em recordações. Lembrava as circunstâncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Izabel, sua prima, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência de Deus se tornara incontestável nos menores detalhes de sua existência. Naquele instante supremo,
revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o cântico de glória daquela noite inolvidável. Através do véu espesso das lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho estremecido. Nas menores coisas, reconhecia a intervenção da Providência Celestial; entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais aflitivas interrogações. Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos, quando o conduzia à fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Frequentemente, ela ia buscá-lo nas ruas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu. Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas conduziam à carpintaria de José!...

Lembrava-se bem de que, um dia, a divina criança guiara a casa, dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladrões do vale de Mzhep. E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irmãos. Muitas vezes, ela comentara a excelência daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorado filhinho. Depois do caricioso ambiente doméstico, era a missão celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram, paralíticos que retomavam os movimentos, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e amor que se saciavam na sua lição de infinita bondade. Que profundos desígnios haviam conduzido seu filho adorado à cruz do suplício? Uma voz amiga lhe falava ao espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de Deus, que precisavam ser aceitas para a redenção divina das criaturas. Seu coração rebentava em tempestades de lágrimas irreprimíveis; contudo, no santuário da sua consciência, repetia a sua afirmação de sincera humildade: “Faça-se na escrava a vontade do Senhor!”

Voltando a realidade, no Monte Calvário, em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria sentiu que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros. Virando-se, deparou com a figura de João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele sofredor coração maternal. Maria deixou-se enlaçar pelo apóstolo querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos tormentos. Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em extremo desalento. – “Meu filho! Meu amado filho!...” – exclamou a mãe, em aflição diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduzível. Jesus pareceu meditar no auge das suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos lhe disse: - “Mãe, eis aí teu
filho!... ” – E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno ao apóstolo, disse-lhe: “Filho, eis aí tua mãe!” – Desse instante em diante, o apóstolo a tomou para sua casa.

Maria envolveu-se no véu de seu pranto doloroso, e o evangelista compreendeu
que o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra. Entendeu que no futuro, a claridade do Reino de Deus, revelaria aos seres humanos, a necessidade da cessação de todo egoísmo e que no santuário de cada coração, deveria existir a mais sublime e abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, como também para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação deveria permanecer a fraternidade real, para que a assistência recíproca se praticasse na Terra, sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante.

Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre foi arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras. . .

Após a partida de Jesus, e a separação dos apóstolos que se dispersaram por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Batanéia, onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho. O tempo continuou a passar, silencioso e triste, para a angustiada saudade de seu coração. Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em ásperas discussões, entre os seus seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços sangüíneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência. Na Galiléia, os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e desertos.

Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Caná se transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior. Sua existência era uma devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério. Jesus na manjedoura, cercado pelos animais, naquele ambiente de muita luz e paz, e do primeiro beijo que deu, feito de muito carinho? Nazaré lhe voltava à imaginação, com as suas paisagens de felicidade e luz. Parecia vê-lo em suas recordações felizes e repletas de esperança, Jesus lhe prometendo o júbilo de sua presença e participando das suas agradáveis recordações.
A esse tempo, João, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéia, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe, o refúgio amoroso da sua proteção. Maria aceitou o oferecimento com imensa satisfação. E João lhe contou a sua nova situação. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as idéias cristãs ganhavam terreno nas almas devotadas e sinceras. Não esquecera as recomendações do Senhor e, no íntimo, guardava aquele título de filiação como alta expressão de amor fraternal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos. Ele leva-la-ia consigo, e ambos andariam na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia dela a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Explicava ele, que demorara a vir, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem abrigar; entretanto, lhe fora doado uma casinha pobre, ao sul de
Éfeso, num promontório, de onde se avistava o mar. Estabeleceriam ali um pouso e refúgio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os espíritos de boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor fraternal. Maria aceitou alegremente. Instalaram-se no seio amigo da Natureza e ao cabo de algumas semanas, aquele local se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as recordações de Jesus eram cultuadas por pessoas humildes.

A notícia de que Maria se encontrava agora, entre eles, espalhara um clarão de esperança por todos os sofredores. Enquanto João pregava na cidade, ela atendia no pobre santuário doméstico, aos que a procuravam exibindo-lhe suas doenças e necessidades. Essa choupana passou então a ser conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”. O fato tivera origem quando um leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe beijou as mãos, reconhecidamente e exclamou: “Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santíssima!” Esse título criou raízes em todos os espíritos. E João consolidou o conceito, acentuando que o mundo lhe seria sempre grato, pois fora por seu intermédio que o Emissário de Deus pudera vir ao mundo para suavizar os sofrimentos. Na sua humildade, Maria se esquivava às homenagens, mas aquela confiança filial era para sua alma um delicioso tesouro para seu coração. Diariamente, acorriam os desamparados, suplicando a sua assistência espiritual. – “Minha mãe – dizia um dos mais aflitos – como poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonada na estrada da vida...” – Maria lhe enviava um olhar de bondade e dizia: “Isso também passa! Só o amor de Deus é bastante forte para nunca passar, como eterna realização de amor celestial”. Seus conselhos abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviando o pensamento obscuro dos mais acabrunhados. O tempo foi passando e a velhice não lhe acarretara nem cansaços nem amarguras. A certeza da proteção divina lhe proporcionava ininterrupto consolo.

De súbito, recebeu notícias de que um período de dolorosas perseguições se havia iniciado para todos os que fossem adeptos da doutrina do seu filho Jesus. Alguns cristãos fugidos de Roma traziam a Éfeso, as tristes informações. Em obediência às ordens, os cristãos eram presos, destruídos os seus lares e jogados nas prisões, e nas festas públicas, seus corpos eram dados como alimento a feras insaciáveis, em horrendos espetáculos. Maria entregou-se às orações, como de costume, pedindo a Deus por todos aqueles que estavam em angústias e sofrimentos por amor ao seu filho. Assim, enlevada, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte. – “Minha mãe, venho fazer-te companhia e receber tua benção”, exclamou o recém-chegado. Ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que inspirava profunda simpatia. O pedinte lhe falou do céu, confortando-a delicadamente. Ela então pensou que mendigo seria aquele que lhe acalmava as dores secretas da alma; nenhum lhe surgira até então para dar; eles sempre vinham para pedir. Onde ouvira noutros tempos aquela voz meiga e carinhosa? – Seus olhos se umedeceram de ventura, sem saber explicar a razão de sua emoção. – Foi quando o visitante anônimo lhe estendeu as mãos generosas e lhe falou com profundo amor: “Minha mãe, vem aos meus braços!” Nesse instante ela fitou as mãos que se lhe ofereciam e viu nelas duas chagas, como as que seu filho recebera na cruz e, imediatamente, grande alegria lhe tomou o espírito e ela exclamou: “Meu filho! Meu filho! O que te fizeram!...” Ele, beijando-lhe as mãos, disse em tom carinhoso: “Sim, minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que seja no meu reino a Rainha dos Anjos...” – No dia seguinte, João e dois outros humildes cristãos, que tinham chegado, assistiam aos últimos instantes daquela que lhes era a devotada Mãe. Maria já não falava, e numa expressão de serenidade, ainda esperou a ruptura dos últimos laços que a prendiam à existência material.

Experimentando a sensação de estar se afastando do mundo, desejou rever a Galiléia com os seus sítios preferidos. Bastou a sua vontade para que ela fosse conduzida à região do lago de Genesaré. Aquelas águas mansas, filha do rio Jordão, haviam sido as cordas sonoras do cântico evangélico. Maria se lembrou dos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que haviam ficado no vale das sombras, à espera das claridades do Reino de Deus. Em poucos instantes ela penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, em Roma, onde centenas de cristãos sofriam padecimentos atrozes. Maria se aproximou de um por um, participando de suas angústias e orou com sentimento e confiança. Os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido. Maria havia aliviado seus corações e, antes de partir, desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene. O que possuía ela para lhes dar? Deveria suplicar para Deus, a liberdade para eles? Mas Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve. Então ela rogou que lhe dessem a possibilidade de deixar entre aqueles sofredores a força da alegria.

Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto sofrido e triste, lhe disse ao ouvido: “Canta, minha filha” Tenha bom ânimo!... Vamos converter as dores da Terra, em alegrias para o Céu...” a triste prisioneira não soube compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração e ela ignorando a razão de sua súbita alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando suas amarguras em consoladora esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que também estavam presos nos cárceres, aguardando o glorioso testemunho de cristãos, seguidores de Jesus.
Em seguida, a bendita entre as mulheres foi conduzida ao Reino do Mestre e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave lembrança da Mãe Santíssima. Por essa razão, irmãos queridos, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas famílias religiosas, não vos esqueceis de fazer silêncio no seu coração, fazendo uma oração para receber da Rosa Mística de Nazaré, o seu perfume e a sua proteção!...


Bibliografia:
Evangelhos de João, Lucas e Mateus
‘Livro “Boa Nova” (Espírito de Humberto de Campos)


Jc.
S.Luis, 23/4/2011

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