sábado, 29 de maio de 2010

HEREDITARIEDADE

HEREDITARIEDADE

Os pais transmitem aos seus filhos a constituição física. Transmitiram também, algum valor moral ? – Não ! – Porque diferentes são as evoluções dos espíritos, uns dos outros. Vários provérbios ressaltam a idéia de que os filhos reproduzem efeitos e qualidades dos pais: Tal pai, tal filho... Depende do ângulo em que observamos o assunto.

Quanto à estrutura física, é notório que funciona a hereditariedade. Filho de pais obesos, dificilmente poderá ser manequim, assim como filho de pais magérrimos, jamais será lutador de sumô. É preciso levar também em consideração, o nível social. Pessoas de QI elevado obtêm maior sucesso profissional, garantindo melhor situação financeira. Consequentemente, seus filhos serão bem nutridos, terão melhores escolas, existência mais saudável e várias opções de esporte e lazer. Tudo isso favorece o desenvolvimento intelectual, melhorando o desempenho profissional.

O mesmo não se pode dizer, quanto à moral. Não herdamos a bondade ou a maldade; o altruísmo ou o egoísmo; o vício ou a virtude de nossos pais. Esses valores não estão contidos nos genes, nem se condicionam à estrutura ou desenvolvimento do corpo físico. Constituem, eles, patrimônio do Espírito que reencarnou. Existe, porém, a influência dos ensinamentos, dos exemplos e do meio em que se encontra. A criança é mais sensível aos exemplos do que das orientações que recebe e também ao pressionamento do ambiente em que vive; mas essa influência é relativa, mesmo porque a evolução moral opera-se de dentro para fora, a partir da disposição íntima de cada pessoa, em lutar contra suas imperfeições e deficiências.

Por isso, os filhos revelam suas próprias características, sua maneira de ser, às vezes em oposição ao lugar em que vivem e aos exemplos que recebem. A melhor demonstração disso está no próprio lar. Numa família de cinco filhos, com os mesmos pais, o mesmo ambiente, os mesmos cuidados, as mesmas condições, são todos eles diferentes entre si, como os dedos das mãos. Há um carinhoso, o outro que é agressivo; há o que gosta de mentir, outro que não gosta de engodo; há o fascinado por sons estridentes e outro que prefere música suave. Há o ávido por aventuras amorosas, enquanto outro é comedido no relacionamento afetivo; há o que gosta de estudar e um outro que não se liga aos estudos. A moral e a evolução é a carteira de identidade do espírito, através de seus patrimônios, de suas experiências, de suas ações, em existências passadas, revelando-nos o estágio de elevação em que se encontra.

Existem famílias, onde os pais e filhos têm comportamento imoral, dispostos sempre a lesar os semelhantes. Isso às vezes acontece, não por herança moral, mas por influência do ambiente; mais ainda, por afinidade. Uma família de bandidos é constituída por espíritos inferiores que têm essa tendência. Outra família de gente honesta e digna é integrada por espíritos evoluídos. Existe ainda o caso da “ovelha negra”, espírito atrasado, acolhido no seio da uma família ajustada, com o propósito de ajudá-lo a progredir, como também há o caso da “ovelha branca” nascida entre marginais, espírito evoluído, na tarefa de sacrifício, com seus exemplos dignos, em favor dos familiares.

Algo semelhante ocorre com relação à vocação, sem subordinação a fatores hereditários ou ambientais. Desde a infância, a criança revela tendências e habilidades para determinadas atividades que surpreendem os adultos. É indispensável que os pais ajudem os filhos a desenvolverem e seguirem suas inclinações, no casamento da vocação com a profissão. Quando isso não ocorre, temos verdadeiros desastres. Maus médicos que seriam excelentes advogados; maus músicos que seriam ótimos fazendeiros; maus administradores que se dariam muito bem como professores; maus contadores que seriam bons engenheiros, e assim por diante.

Como os pais, na grande maioria das vezes, são os verdadeiros e melhores amigos dos filhos, não devem deixar de ouvi-los, ampará-los e estimulá-los nas suas aptidões, a fim de que eles se tornem bons profissionais, evitando serem trocados pelos falsos amigos que acabam levando-os para o mau caminho, do fumo, das bebidas alcoólicas e das drogas. É nessa hora que os jovens devem ser fortes e agir seguindo os conselhos dos pais, sem a preocupação com possíveis críticas ou rejeições de outros jovens. Já dizia Jesus: “Uma árvore boa não dá maus frutos, assim como uma árvore má não pode dar bons frutos”.

O maior dom que Deus deu ao ser humano é a existência. Deus nos deu também o “livre-arbítrio” para agirmos de acordo com nossa vontade. E por terem usado mal o livre-arbítrio, em alguns momentos da existência, muitas pessoas lotam os hospitais, manicômios, prisões, etc., Uma opção errada, às vezes é fruto da falta de orientação dos pais e do desconhecimento das conseqüências. Ser livre não significa apenas ter direitos, é também ter deveres e responsabilidades perante a sociedade. E um dos principais deveres, é o amor que devemos ter para com todos e tudo. Quando realmente amamos de verdade, nada pedimos em troca. Quando não temos amor, somos assediados pelo egoísmo, pelo ódio e pela violência. Como ninguém pode dar o que não tem, pessoas que nunca receberam amor, dificilmente aprendem a amar, e se tornam insensíveis, incapazes de gestos de amor.

O amor entre as pessoas é um sentimento belo e agradável, diferente da paixão que pode se tornar dominadora, obsessiva, egoísta; como também o sexo que, quando não praticado como complemento do amor, costuma denegrir e degenerar as pessoas, ficando apenas a satisfação da vaidade e do desejo de posse. A nossa vida como espírito é eterna, mas a nossa existência é limitada a determinado tempo. Há o tempo de nascer, de crescer, de se realizar, de procriar deixando a hereditariedade, de envelhecer, e de deixar o corpo físico, para voltar à nossa realidade espiritual. A morte do corpo é uma realidade que nos acompanha durante a existência. Como não sabemos o dia nem á hora em que ela se dará, devemos viver o dia de forma digna, como se fosse o último,
para que ela não nos chegue de surpresa.

Se, somos cristãos e cremos em um Deus de Amor, de Bondade, de Misericórdia, sabemos que Ele nos criou para a vida eterna, e que a nossa existência na Terra tem a sua continuidade na espiritualidade, onde seremos julgados pelas nossas ações praticadas dentro da boa moral ou fora dela, pela nossa consciência. Jesus proclamou no famoso diálogo com Nicodemos: “Em verdade, em verdade vos digo: Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo”. E complementou: “Se, um homem não renascer da água (material) e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. O Espírito sopra onde quer; tu lhe ouves a voz, mas ignoras donde ele vem e para onde vai...”

Essas máximas aplicam-se à concepção reencarnacionista, dando-nos conta de que os filhos trazem suas próprias aptidões e o senso moral, revelando-nos o seu estágio de evolução. Devemos auxiliá-los a desenvolver para o bem, esses valores. Para isso, estão sob nosso teto, junto de nós. Consideremos, contudo, que chegará o momento em que eles seguirão seus próprios caminhos, alicerçados em nossos exemplos e orientações, ou sem eles. Temos a esse respeito, o exemplo de duas existências e dois destinos bem diferentes, que passamos a expor:

Pedro Bernadone, filho de pais pobres, trabalhando desde os sete anos, como ambulante no comércio, era admirado pela sua capacidade de trabalho, aliada a uma astúcia em realizar negócios. Depois de alguns anos, comanda vários ramos de atividades no país e no exterior. Patrocina campanhas políticas e exerce influência nos destinos do país. Torna-se uma referência nacional e internacional, como homem de sucesso, sendo considerado um vencedor, mesmo não tendo freqüentado nenhuma faculdade.

No final do século XII, Pedro Bernadone, do seu imponente palácio, dava ordens em todas as direções; Roma, Veneza, Bolonha, Milão, Nápoles, Gênova e outras cidades, tratando do seu comércio, dominando as finanças de Assis. Bispos e cardeais o abençoavam pela força da sua posição e pelas contribuições que fazia à Igreja.

Francisco, filho único desse sucedido empresário, aos doze anos, é alvo de louvores dos pais, dos colegas de escola e da comunidade. Um dia, no caminho para a escola, observou algumas crianças de rua, que estavam famintas. Na volta da escola, distribuiu com elas o dinheiro do lanche, que tinha guardado. Alguns meses depois, seus pais e colegas começam a notar mudanças de comportamento no seu modo de vida. As relações pioram quando os pais ficam sabendo do seu pouco empenho pelos estudos. Como poderia ele cursar a melhor faculdade e se preparar para assumir o comando do vasto comércio do pai, se não se interessava mais pelos estudos ? Muitas discussões e várias proibições aconteceram por parte dos pais; os colegas o censuravam; a comunidade escolar o reprovava por não se dedicar mais aos estudos. Durante todo esse tempo, distribuía pequenas sacolas de alimentos às famílias carentes, com os recursos da mesada que recebia, até o dia em que seus pais descobriram, e a mesada foi cortada. Sentindo-se abandonado por todos, refugiou-se num mosteiro e passou a falar sobre Jesus e o Sermão da Montanha, aos mendigos das ruas e praças.

Anos depois, dirigia um imenso pavilhão onde acomodava os mendigos, idosos, crianças e deficientes. Distribuía sopa e alimentos às famílias pobres com o que arrecadava. Com o seu trabalho em favor dos necessitados, tornou-se também uma referência nacional e internacional. Os desvalidos o consideravam um santo, mesmo ele não freqüentando nenhum templo religioso.

Quando Pedro Bernadone morreu, levou consigo uma grande decepção; seu filho não o substituiu no comando dos seus negócios. Milhares de empregados foram ao seu enterro. Alguns discursos foram feitos enaltecendo a sua pessoa. Algumas horas depois, seu túmulo era um deserto silencioso; a sua pessoa aos poucos foi sendo esquecida, para nunca mais ser lembrada...

Quando Francisco veio a falecer, milhares de pessoas choraram, e seu túmulo foi convertido num santuário de peregrinações e preces pela sua alma...

O primeiro, Pedro Bernadone, foi um vencedor no mundo dos negócios, foi valorizado, elogiado e exemplo de pessoa bem sucedida. O segundo, seu filho Francisco, da cidade de Assis, foi um perdedor no mundo; não tinha profissão, não possuía bens materiais, criticado e repudiado pela família, colegas, escola e sociedade, foi considerado um anormal. Abandonando a riqueza e o luxo palaciano, obedeceu ao “segue-me” do Divino Mestre Amado. Viveu o Evangelho e modificou toda uma estrutura social do seu tempo. Está ele na lembrança coletiva há mais de oitocentos anos ! – De Pedro Bernadone, seu pai, ninguém se lembra mais, quem foi...

Duas vidas, dois destinos. Uma efêmera, material, ilusória; foi totalmente esquecida e seu império desmoronou no decorrer dos anos. A outra, real, voltada para a fraternidade, seguindo as orientações do Evangelho, buscando a realidade espiritual, aprendendo e crescendo no caminho da evolução para Deus.

No “Livro dos Espíritos”, na questão 203, pergunta Allan Kardec: “Os pais transmitem aos filhos a alma, ou se limitam a dar-lhes a vida animal ?” Resposta dos Espíritos Superiores: “A existência animal somente, porque a alma é indivisível. Um pai estúpido pode ter filhos inteligentes, e vice-versa”. Na questão 207, volta Allan Kardec a perguntar: “Os pais transmitem, frequentemente, aos seus filhos uma semelhança física. Transmitem também uma semelhança moral ?” Respondem os Espíritos Superiores: “Não, uma vez que todos têm alma ou Espírito diferentes. Entre os descendentes não há senão consangüinidade”. Volta a perguntar Kardec: “Sendo assim, de onde provêm as semelhanças morais que existem, algumas vezes, entre pais e filhos?” Resposta: “São espíritos simpáticos, afins, atraídos pela semelhança e evolução”. Pergunta 210, feita por Kardec: “Podem os pais, por seus pensamentos e preces, atrair para o corpo do filho um bom espírito, ao invés de um espírito inferior ? – Resposta: “Não, mas podem melhorar o espírito do filho a que deram nascimento e que lhes foi confiado; é seu dever. Os maus filhos são uma prova para os pais.

Se não houvesse reencarnação, como colocar as seguintes questões:

1- Por que a alma mostra aptidões tão diversas e independentes das idéias adquiridas pela educação ?

2- De onde vem a aptidão extra-normal, de certas crianças de tenra idade, por tal arte ou tal ciência, enquanto irmãos se conservam inferiores ou medíocres, por toda a existência ?

3- De onde provêm, para algumas, as idéias inatas ou intuitivas que não existem em outras ?

4- De onde vêm, para certas crianças, os instintos precoces de vícios ou virtudes, sentimentos inatos de dignidade e baixeza, que contrastam com o meio em que nasceram ?

5- Por que certos homens são mais inteligentes, moralizados e mais avançados que outros ?

6- Por que há selvagens e homens civilizados ? Se tomardes uma criança selvagem, recém-nascida e a educardes nas melhores escolas, fareis dela, um dia um Laplace ou um Newton ?


A hereditariedade é a condição que permite aos seres humanos a perpetuação do nome, da família, e também a continuação da raça humana, sem o que não haveria a humanidade terrestre.


Bibligrafia:
“O Evangelho de Jesus”
“O Livro dos Espíritos”


Jc.
S.Luis, 05/09/1992
Refeito em 01/10/2004

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