sábado, 17 de abril de 2010

DEUS E MAMON

DEUS E MAMON

Dentre os fatores que mais contribuiu para que a Humanidade galgasse o elevado patamar de desenvolvimento intelectual, científico e tecnológico, destaca-se um que se transformou no supremo ídolo do ser humano. Ressalvando-se as exceções, todos os amam, desejam e o disputam por muitos meios honestos, desonestos e criminosos...

Esse ídolo não é outro senão o ‘Rei dinheiro”, cujos súditos contam-se de bilhões, dispersos pelos seis continentes. Sobre sua origem, vejamos o que nos informa o espírito de Neio Lúcio, no livro “Alvorada Cristã”, psicografado por Chico Xavier, no capítulo “A Lenda do Dinheiro”.

“Conta-se que no princípio do mundo, o Senhor do Universo viu as dificuldades no desenvolvimento da obra terrestre, porque os seres humanos se entregaram a excessivo repouso. Ninguém se animava a trabalhar. As terras se estendiam ao longe sem nenhuma atividade. Minerais variados estendiam-se por toda parte. Águas estagnadas existiam por todo lugar. O Criador pretendia erguer lares e cidades, educandários e abrigos, templo e hospitais... mas com que braços ? – Os homens e mulheres convidados ao suor da edificação por amor, respondiam: “Para quê ?” – Estavam satisfeitos porque comiam as frutas silvestres, caçavam os animais para devorá-los e dormiam nas cavernas ou debaixo das árvores...

Após refletir, o Criador resolveu criar o dinheiro, sabendo que as criaturas presas da ignorância, se não sabiam agir pelo amor, trabalhariam movidas pela ambição... e assim aconteceu. Tão logo surgiu o dinheiro, a comunidade dos seres humanos fragmentou-se em pequenas e grandes facções, incentivando-se a produção de benefícios gerais e de valores imaginativos. Aparecerem então candidatos a toda espécie de serviços. O primeiro deles pediu ao Senhor, permissão para criar uma grande olaria. Outro requereu meios de pesquisar os minerais, de maneira a transformá-los em utilidades. Outro trabalhador pediu recursos para a exploração de cereais. Servidores de várias procedências vieram e solicitaram condições destinadas a produção de fios, remédios e outras utilidades. O Senhor a todos atendeu com alegria. Em breve tempo, olarias e lavouras, teares rústicos e oficinas rudimentares se improvisaram aqui e ali, desenvolvendo o progresso na inteligência e nas coisas.

Os homens, ansiosamente desejando o dinheiro para se tornarem mais destacados e poderosos, trabalhavam sem descanso, produzindo tijolos, alimentos, fios, agasalhos, calçados, instrumentos e máquinas que lhes garantiam maior produtividade, além de muitas outras invenções de conforto, e assim, movido pelo dinheiro a Terra progrediu. Todas as pessoas perseguiam o dinheiro e lutavam por ele, que passava de mão em mão. Vendo o Senhor que os seres humanos produziam a prosperidade, no anseio da posse, considerou satisfeito: “Meus filhos da Terra não quiseram trabalhar por amor, em virtude da deficiência em que se encontram; porém o dinheiro estabeleceu benéficas competições entre eles, em benefício da obra geral. Reterão eles provisoriamente, os recursos que me pertencem, com a sensação da propriedade. Esta é a minha Lei de Empréstimo que permanecerá na Terra. Cederei possibilidades a uns, de acordo com as exigências do bem comum; entretanto, cada beneficiário apresentar-me-á contas do que houver recebido, porque a morte conduzi-los-á, um a um, à minha presença. Este decreto divino funcionará até que meus filhos, individualmente, aprendam a trabalhar e servir por amor à felicidade geral, com a necessidade do sofrimento que a posse exige”. E aqui finaliza esta pequena lenda.

Também sobre a origem do dinheiro, vejamos o que nos informa o escritor e antropólogo Jack, em seu livro intitulado “a História do Dinheiro”. “O dinheiro apareceu há aproximadamente 3 mil anos, na Lídia (Asia Menor), e em sua longa trajetória, inicialmente como conchas, passou pelo sal, moeda e papel, antes de chegar, nos dias atuais, ao cartão ou a “senha”.

Conviveu com o surgimento ascensão e derrocada de impérios e reinados, revoluções e guerras, períodos de fartura e de misérias, sobrevivendo a todas às transformações pelas quais tem passado a Humanidade até hoje. O seu fascínio induz bilhões de pessoas, diariamente, em todo o mundo, a pensarem muito mais nele do que no Deus de suas religiões. Por isso, o mandamento maior “Amarás o Senhor teu Deus...”, foi mudado e reverenciado pelo: “Amarás o Senhor Dinheiro, acima de todas as coisas, de todo o teu coração, e aos lucros como a ti mesmo”.

Pela ambição do que podem adquirir com o dinheiro, é comum corromperem-se políticos e religiosos, militares e cientistas, advogados e juizes, empresários, desportistas, artistas e serviçais. Chegou-se a tal ponto que é cada vez mais raro se encontrar pessoas ou segmentos das atividades humanas, imunes às tentações do dinheiro, ou o que ele representa de prestígio e poder.

Esse capitalismo selvagem que sobrevive ainda caminha para inevitável derrota, porque foi arquitetado sobre uma filosofia de vida enganosa e perversa, que só beneficia pequena parcela da Humanidade. Nesse sistema nada se vende sem que o comprador não pague o dobro do valor dos produtos necessários ou supérfluos, enriquecendo os “geniais” grupos, famosos na arte de seduzir os consumidores. A ambição pelo dinheiro é milenar, e tanto é assim que Paulo nos adverte na Epístola a Timóteo, quando diz: “Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça muitos se desviaram da fé”. Jesus também nos advertiu ao dizer: “Onde estiver o teu tesouro (dinheiro), aí estará também o teu coração”.

O dinheiro em si, não é culpado de coisa alguma. Por conta de sua neutralidade, presta-se indiferentemente aos bons e maus propósitos e empreendimentos. Se ele tem sido a causa de grandes tragédias, isso se deve unicamente ao atraso moral da Humanidade, sendo, portanto, a característica de um mundo de expiação, onde os seres humanos ainda estão muito envolvidos nas práticas materiais. Por outro lado, não podemos esquecer que o dinheiro tem sido o instrumento bendito que permitiu à Humanidade, edificar suas civilizações com tudo de bom para a felicidade dos povos.

Nestes tempos de mudanças rápidas o dinheiro foi elevado a um requinte jamais imaginado; ele hoje é eletrônico, é virtual e sem natureza corpórea. Corre o mundo com a velocidade da luz, passa de mão em mão e não para em lugar algum. Ele transformou o mundo em gigantesca arena onde a luta é de vida ou morte, e de todos contra todos. Aqueles que, num momento são parceiros amigáveis, no momento seguinte podem ser inimigos ferozes, pois o alvo é sempre o mesmo; a sua posse. Existem muitas pessoas que passam a existência ganhando dinheiro com dinheiro, sem aplicá-los um mínimo que sejas em proveito da sociedade.

Entretanto, como na lenda, o dinheiro foi inspiração divina ao homem primitivo, para que exercitasse o hábito do trabalho, induzindo-o de forma penosa e compulsória, a libertar-se de sua natural indolência, cuja existência se resumia em comer, beber, dormir, procriar e passear pelas florestas. No início da sua evolução, baseado na troca de alimentos e objetos necessários à sobrevivência, satisfazia às pequenas comunidades. Entretanto, com o aumento populacional, tornou-se impossível cobrir as necessidades. Então as pessoas foram inspiradas a criar um outro sistema baseado em escala de valores que, abrangendo do mínimo ao máximo, solucionasse o complexo problema, permitindo ao ser humano adquirir tudo o que quisesse, bastando-lhe conquistar, com seu trabalho, os símbolos de trocas.

Estava a partir desse momento, inventado o dinheiro que, pouco a pouco, foi passando de servo a senhor das pessoas. Assim, bem cedo o ser humano percebeu que todos os bens e prazeres efêmeros da existência material, incluindo o poder e a notoriedade, estariam em suas mãos, dependendo da quantidade de dinheiro que estivesse em seu poder. Para tanto, passou a trabalhar horas excessivas e, muitas das vezes, escravizando-se e também aos seus semelhantes, ou enganando-os.

Conseqüentemente, o dinheiro foi se transformando no maior agente do feroz egoísmo humano, sendo que a Humanidade hoje, divide-se em trabalho-egoísmo e trabalho-altruísmo que ainda congrega a minoria. Entretanto, pela lei divina do progresso, o trabalho-altruísmo irá se sobrepondo até alcançar o grau de sublimação, transformando o ser humano no anjo co-criador.

No momento, temos a impressão de que caminhamos para o caos; o ser humano conduzindo a locomotiva do progresso imprimiu-lhe velocidade semelhante ao trem-bala, e agora, assustado, não sabe como frear a máquina nem até onde irá essa louca corrida; mas Deus nos inspirará a solução. Entretanto, imaginemos que o “Rei Dinheiro” pudesse falar como nas fábulas dos animais, provavelmente nos diria: “Meus queridos súditos ! Meu reino não é eterno, porém, enquanto o vosso progresso moral não se nivelar ao intelectual ou até suplantá-lo, continuarei reinando, absoluto, em vossas almas”.

Quando Jesus falou que era “mais fácil um camelo (corda feita com o couro do animal) passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”, logo acharam que o dinheiro era maldito... Porém, não há nada de errado com o dinheiro; ele existe nesta vibração inferior (Terra) porque as pessoas tiveram que fixar valores nas coisas. Nada está errado com o dinheiro, como não há com a posse de um carro, de uma casa confortável, de roupas caras ou de férias agradáveis. O que causa problemas para o Espírito, são os apegos exagerados. Os seres humanos ficam tão presos aos bens materiais, ao status ou ao poder, que seu Deus é o material e não o Deus Espiritual. É por isso que o ser humano apegado às coisas materiais, se torna incapaz moralmente de ir em frente e de desenvolver o progresso do seu espírito. Esse apego excessivo às coisas materiais é que leva o ser humano a esquecer o seu Criador.

Sócrates, em sua doutrina, no Item XIV, declara: “A riqueza é um grande perigo. Todo homem que ama a riqueza, não ama nem a si, nem o que está em si, mas a uma coisa que está fora de si”.

A desigualdade das riquezas é um dos problemas que se procura em vão resolver. A questão principal é: - Por que todos os seres humanos não são igualmente ricos? – Uma das razões é: Nem todos eles são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquiri-lo, nem moderados e previdentes para conservar. – Outra questão é: “Por que Deus dá a pessoas que são incapazes de fazê-la frutificar para o bem de todos ?” – A fortuna é um meio de prová-lo, moral e caridoso, como também é um poderoso meio de ação para o progresso, por isso Deus a desloca incessantemente. A riqueza é sem dúvida, uma prova muito difícil, muito mais perigosa que a pobreza, pelos seus arrastamentos às tentações que provoca e a fascinação que exerce; sendo o excitante maior do orgulho, do egoísmo e da existência sensual, sendo o laço que liga o ser humano à Terra e o afasta do Céu.

Quando Jesus disse ao jovem que o interrogou sobre os meios de ganhar a vida eterna: - “Desfazei-vos de todos os vossos bens terrenos e segui-me”, ele não estabelecia como princípio, que cada um devia se despojar do que possui; mas era para sondar o jovem, para ver o seu apego aos bens terrenos. Se a fortuna vem de família ou a tenha ganho com o trabalho, não devemos jamais esquecer que ela vem e retorna para Deus. Nada nos pertence aqui na Terra, nem mesmo o nosso corpo. Aquele que hoje é rico, já foi ou será pobre, e o que hoje é pobre, já foi rico ou o será em outra existência, pois Deus dá a todos, as mesmas condições.

O ser humano pode transmitir aos seus familiares ou entes queridos, os bens que tem durante a existência terrena, se for da vontade de Deus, que pode, quando quiser, impedir seus descendentes de gozá-lo, o que acontece frequentemente, quando vemos se desmoronaram fortunas que pareciam solidamente estabelecidas. O ser humano só possui o que pode levar deste mundo. O que encontrou ao chegar e o que deixa ao partir, ele foi apenas o usufrutuário durante a sua permanência na Terra, nada lhe pertencendo. O que o ser humano pode então levar da Terra ? – Apenas o mérito das suas boas ações praticadas em benefício dos seus semelhantes, ou o demérito das ações más que praticou durante a sua existência. Isso é o que a sua consciência vai julgá-lo, quando partir da Terra e chegar à Espiritualidade.

Esbanjar a fortuna não é desapego aos bens terrenos, mas negligência e indiferença; o ser humano depositário desses bens, não tem o direito de os dilapidar; a prodigalidade não é generosidade, mas frequentemente, uma forma de egoísmo. O desapego aos bens terrenos consiste em dar à fortuna o seu valor justo, em saber servir-se dela para beneficiar os outros e não só a si mesmo. O ser humano, sendo o depositário, o usufrutuário dos bens que Deus depositou em suas mãos, lhe será pedida severa conta do emprego que deles tiver feito, em virtude do seu livre-arbítrio. O mau emprego consiste em não fazê-los servir senão à satisfação pessoal; ao contrário, o emprego é bom todas as vezes que dele resulta um bem qualquer para outros.

Jesus ao nos advertir sobre o perigo da avareza, conta a parábola: “Havia um homem rico cujas terras tinham produzido muito; e ele tinha em si mesmo estes pensamentos: Que farei, porque não tenho onde guardar tudo o que colhi? Ele então disse: Derrubarei meus celeiros e os construirei maiores e aí colocarei toda minha colheita e direi à minha alma: Minha alma, tu tens muitos bens reservados para muitos anos; repousa, come bebe, ostenta. Mas Deus disse a esse homem: Insensato! Esta noite será retomada tua alma; e para quem será o que amontoaste? – É isso o que acontece àquele que amontoa tesouros para si mesmo, e que não é rico diante de Deus”. (Lucas, cap.XII vs. 13 a 21)


Quando consideramos a brevidade da existência, ficamos impressionados pela preocupação da qual o bem-estar material é o objeto a ser alcançado, enquanto tão pouco ou nenhum tempo dedicamos ao nosso aperfeiçoamento moral que deve ser contado para toda a nossa eternidade.



Que o Pai Celestial nos dê o entendimento para separar o que é da Terra e do Céu.





Bibliografia:
Livro “Alvorada Cristã”
“ “A Historia do Dinheiro”
“ “Novo Testamento”
“ “O Evangelho Segundo o Espiritismo”



Jc.
S.Luis, 10/07/2008

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